19/08/16

O Componente Místico

Do lado de tudo fica tão fácil. O brasileiro vinha bem. Faltava pouco. A medalha já se insinuava no quadro. Mas, faltou um pouco de concentração. E ele foi perdendo fôlego. E os de trás foram passando. E nosso representante caiu. Era uma vitória certa. Tivesse um pouco mais de capricho, de garra, de determinação, de esforço. Ou de treinamento, mesmo. 
Do lado de tudo fica tão fácil. O jogo está pegado. Os atacantes perdem chances incríveis.  O treinador também não colabora. Escala o time muito mal. O esquema não funciona. A arbitragem também não está muito atenta. Não marca falta. Deixa o jogo andar. No fim, a culpa é de todo o mundo.  A culpa é da diretoria que contratou errado, que escolheu o treinador inexperiente, que não renovou o contrato de alguém, que não contratou outro. O time despenca na tabela. E o campeonato nem é tão difícil assim. Parece que falta um pouco de raça, de gana, de determinação.
Do lado de cá tudo fica tão fácil. Bastava investir um pouco mais no esporte. Dinheiro tem. Aí estaríamos lá em cima no quadro de medalhas. Daria até para protagonizar uma disputa com os EUA e a China. O governo não ajuda, também. Só recolhe impostos e não dá nada em troca. As soluções estão aí. Basta querer. 
Do lado de cá tudo fica tão fácil. Os problemas são simples de resolver. Basta um pouco de vontade. Nem se precisa tanto de pesquisa. Basta vontade, determinação e luta. E, pronto, tá tudo resolvido.
Do lado de cá tudo é tão fácil. Que o diga o treinador da França, revoltado pela perda de uma medalha de ouro para um atleta brasileiro em salto com vara,  que, do alto da sua sabedoria e perspicácia, descobriu aquilo que muitos estão tentando há muito: o Brasil tem um componente místico que impulsiona os vitoriosos. Não é trabalho, não é determinação, não é entrega, não é treinamento, não é superação, não é foco, não é nada. É o tal do componente místico. Faltou componente místico para o atleta que ia bem e perdeu o fôlego, ao time grande que prometia mais uma supercampanha no campeonato e agora beija o rodapé da tabela de classificação, a todo o país que não decola no quadro de medalhas.  
O componente místico existe. Mas, só misticismo não será capaz de derrotar atletas como Michael Phelps e Usain Bolt. Ou seriam eles casos de gente dotada de doses extraordinárias de componente místico?
Claro que o sábio europeu, ferido em seu orgulho, abusou do preconceito e embarcou na canoa daqueles que não sabem porque perdem.  Talvez tenha sido apenas irônico. Quem sabe? Ironia é como um tempero. Se for demais atrapalha, se for muito sutil não tem gosto. 
Do lado de cá tudo é mais fácil. Ali no ringue dos acontecimentos, onde os nervos estão tensos e o cérebro funcionando no limite, até um deslize como este é possível. Faz parte do jogo, diriam alguns. Explicar derrota é das coisas mais difíceis. Pior ainda quando se tem certeza da vitória.  Sejamos benevolentes, neste caso até que vale se socorrer do componente místico.  

15/08/16

Sócrates e Galvão

A impressão é de que todos nós estamos
sobre um solo rico em pedras preciosas.
 Porém, não há como saber onde elas estão.
Filósofos, místicos, religiosos e curiosos de todas as tribos vêm dedicando algum tempo na análise da existência humana. São alguns milhares de anos de perguntas, respostas e conclusões parciais. Para cada resposta dada, novas questões vão surgindo. Ciclos e mais ciclos vão sendo criados sem que seja antevisto algum fim possível. Há conclusões definitivas, é claro! Mas, o tempo vai passando e o definitivo vai ficando para trás. 
Quais as finalidades da existência? Onde isso tudo leva? Qual a contribuição de cada um neste processo?  Qual a importância do indivíduo? E do grupo? As questões são infindáveis tanto quanto são as teorias existentes.
A impressão é de que todos nós estamos sobre um solo rico em pedras preciosas. Porém, não há como saber onde elas estão. Não há máquinas, só os braços. E não há braços suficientes para remover todo o material orgânico que se acumulou por milhares de anos. Uma quantidade interminável de lama, de areia e de rochas que foram se sobrepondo lentamente. E embaixo disso tudo, gemas cristalinas esperando pelas mãos de hábeis artesãos que dominam a arte da lapidação.
Porém para boa parte da humanidade estes questionamentos estão bem escondidos atrás das preocupações do dia a dia. Contas a pagar, coisas por comprar, estradas por andar. Trabalho, estudo, jogo no fim de semana, aniversário na família, celular novo que o outro caiu na privada, foto na rede porque é preciso mostrar o almoço ou o café. Uma fezinha na loteria porque seis dezenas na mega não é coisa impossível de se acertar. Vai que a sorte dormiu na mesma cama esta noite e nasce aqui mais um milionário. E aí, com dinheiro no banco, ninguém precisa de filosofia.
O antigo pensador arriscava algumas respostas para as questões humanas mais intrincadas. Porém, a resposta mais brilhante remete ao próprio indivíduo: conheça a ti mesmo.  Ou seja, tuas questões mais íntimas não podem ser respondidas através das certezas dos outros. O indivíduo é o único que pode avaliar com exatidão tudo o quanto revela o seu processo.  Na verdade, aquele narrador global, que causa brotoejas em boa parte dos torcedores de futebol no país, cunhou uma expressão há mais de vinte anos que continua válida até hoje. Diante das dificuldades do dia, das incertezas e dos medos cabe ao próprio indivíduo dar os passos seguintes e definir a jogada. “Vai que é tua, Taffarel!”. Bem assim, sem tirar nem por. Sócrates e Galvão. Dá até para rir. Quem quiser que ria.

27/07/16

O Macarrão

Julius Moser - 1808
Um dos grandes dilemas da humanidade é o da origem do macarrão. A versão mais popular é a de que Marco Polo, o viajante veneziano, em suas andanças pelo reino mongol-chinês, protegido pelo grande Kublai Kahn, frequentador dos grandes banquetes servidos por seu senhor, teria tomado gosto pela coisa. A iguaria, feita a partir do milheto, se tornou uma espécie de preferência do italiano. Quanto retornou à sua terra natal, 17 anos depois de conviver com os mandos e desmandos de Kahn, Polo ditou suas aventuras para um amigo escritor (que como ele se encontrava preso). Consta que o amigo era criativo ao extremo e recheava as aventuras de Marco com algumas pitadas a mais de emoção. No calor da narrativa teria supervalorizado encontro de Polo com a massa chinesa, como se fosse algo inédito mundo culinário. A história foi repetida inúmeras vezes e oito foi criado.   
Porém, segundo muitos pesquisadores apaixonados pelas massas italianas, a história de Marco Polo ter trazido a receita da massa da china é pura invencionice. Para alguns foram os árabes que trouxeram a receita para a Sicília, sul da Itália, por eles conquistada, o século 9. Há quem afirme peremptoriamente que desde o Império Romano, a Itália já conhecia a fórmula de misturar água, farinha de trigo e vinho branco.  A massa depois era esticada em longos e finos fios e colocada a secar ao sol e ao vento pra melhor se conservar.
O molho mais simples e não menos apreciado que acompanha o macarrão também tem uma origem bem curiosa. Segundo consta, os tomates foram levados do Peru para a Europa. Porém, como a fruta foi cozida junto com as folhas, as primeiras experiências ocasionaram intoxicações coletivas, sendo proibida sua produção. Anos mais tarde, um cozinheiro napolitano separou somente as frutas e produziu respeitável molho que superou a desconfiança de todos e se tornou uma referência apreciada em todo o planeta.
Presente em cardápios de restaurantes em todo o mundo, o macarrão com molho à bolonhesa reúne o molho de tomate e carne bovina moída. No entanto, em Bolonha, na Itália, não se encontra o tal prato. Eles acham o molho processado, de caixinha ou lata, um atentado à culinária e uma difamação à sua terra. E, talvez, tenham razão. O molho deles leva cenoura, bacon, vinho, leite e outros ingredientes. A massa deles também não é a fininha, mas sim achatada. Eles levam esta história tão a sério que até congresso foi realizado para discutir o assunto e hoje a Câmara do Comércio de Bolonha é detentora da patente do legítimo ragu alla bolognese. 
Independente de quem descobriu o macarrão, se foram árabes, chineses ou italianos,  a massa hoje faz parte do dia a dia do brasileiro e de todos os povos da Terra. Como por aqui a criatividade toma conta, que diriam os italianos mais tradicionalistas da ousadia de alguns dos nossos em consumir suas sagradas massas lado a lado com o feijão nosso de cada dia? 


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22/07/16

Das Eleições

É nas pequenas cidades que o fenômeno sazonal das eleições é vivenciado com maior intensidade. A correria sempre é grande. Muito grande. Naquelas que contam com colégios eleitorais reduzidos, uma família que pender para um dos lados pode definir um pleito. Há casos mais radicais, onde um eleitor fiel ficou impedido de votar, por morte, por doença ou por algum caso de última hora, e acabou definindo o resultado. Seu voto seria decisivo. Sua ausência decidiu a corrida eleitoral.
Aqui na Colônia de São Pedro, num destes recantos mais remotos, havia um político dos mais espertos e sorrateiros. Não perdia eleição. Se o seu nome estivesse entre os candidatos, a certeza era uma só: ele venceria. Ao assumir o governo apresentava sempre estratégias peculiares. A primeira delas era chamuscar os companheiros. Segurava o que podia a nomeação dos cargos de confiança. Era uma verdadeira procissão à prefeitura. Militantes iam e voltavam ao palácio municipal ávidos por uma notícia vinda do novo prefeito. Alguns ficavam pelos corredores, encostados na parede com caras de pedintes. 
O eleito silenciava. Parecia mesmo sentir algum prazer em ver aquele povo peticionando um cargo na nova administração. Entre eles, havia alguns que se achavam mais cotados e esperavam uma secretaria. Os dias passavam e com o avanço do calendário já se contentariam com um departamento. Era gente que dias antes carregava bandeiras e enfrentava de peito aberto as críticas e até os atos violentos do outro lado. Gente que delirava a cada palavra dita pelo então candidato nos comícios realizados nos salões paroquiais no interior. Chegavam a puxar o coro com o nome do homem. 
Agora, sentados na escadaria da prefeitura viam o tempo passando e a chance de ocupar um dos cargos de confiança se reduzindo cada vez mais. 
Suprema ironia. Verdadeira agressão aos verdadeiros militantes era assistir ao chefe de uma grande família da oposição chegar para uma reunião a portas fechadas com o chefe. Pior foi notar sua satisfação ao sair de lá com uma portaria de nomeação. “Logo ele que foi do contra”, pensavam alguns. “Foi a única localidade que perdemos e o prefeito me faz uma dessas”. “Na próxima eleição ele vai ver”.
Governar com alguns inimigos era uma das estratégias. A preferência recaia sobre as famílias mais numerosas. Inimigos ontem, parceiros hoje. A próxima eleição? Bem, a próxima sempre será a próxima. Até lá as coisas se ajeitam. Haverá tempo para separar as abóboras dos pepinos, adoçar uns bicos de uns companheiros que se sentiram prejudicados por falta de cargo e garantir alguns apoios dos oposicionistas. Quando chegar a próxima eleição, os dias de hoje serão meras lembranças que irão se apagando lentamente.  

15/07/16

Guerra e Paz

Os exércitos antigos, formados por mercenários, viviam da guerra. Nos raros momentos de paz, o tédio tomava conta. Confinar-se numa pequena porção de terra , criar uma que outra vaca, semear algum grão para enfrentar o inverno, era sinônimo de falta de animação. Seus comandantes, homens fortes e valentes, pouco conheciam a expressão piedade. Por tudo isso, o vencedor de cada batalha encontrava-se autorizado a escravizar os vencidos, adonando-se das terras, dos rebanhos e das mulheres.
Era a lei de então. Dura lei. A lei de quem tinha mais homens, mais munição, mais coragem, mais estratégia, mais sorte. Os deuses estavam com os vencedores. Os perdedores foram abandonados por seus deuses.
Paz era coisa rara. Sempre havia um inimigo a atacar, um castelo a invadir, uma cidade a conquistar. A vida era, para aqueles homens, a própria guerra. E o sangue que banhava a terra representava heroísmo de quem morreu lutando para defender e coragem para quem impôs a espada. A conquista de território era o prêmio para o comandante. A expansão dos impérios, impondo suas crenças e valores, dava-se sempre pela espada. O produto do saque era o pagamento aos bravos soldados. Tudo muito simples. Sem grandes apelações.
A Europa cresceu manchada de sangue. Mas, nem só a Europa. O mundo se fez muito mais pela guera do que pela paz. Que o digam os indígenas americanos. Os daqui e os do hemisfério norte tiveram o mesmo fim. Dizimados por conquistadores. Ouro, prata e terras.
Os saques nos dias atuais são bem mais sutis. Mas, os males causados não são menos devastadores. Executivos, deputados e senadores de todas as laias, com o apoio de cupinchas de toda a ordem, tomam os cofres públicos de assalto. Antes, passaram por guerras pesadas onde acertam nos gabinetes estratégias  de conquistas de territórios: ministérios, secretarias, departamentos, empresas mistas. 
O sangue não rega o chão. Mas o cheiro de podre, mesmo assim, se espalha pelos céus. Alguns juram por Deus que são limpinhos. Mostram as mãos e não há marcas visíveis. Porém, um observador atento, que olhe hospitais sem vagas para internação de pacientes, filas e mais filas de gente que espera uma cirurgia capaz de retirá-la da fila da morte, o escárnio que se comete contra os aposentados, ressaltando diuturnamente de que seus justos e rasos benefícios são os responsáveis pela quebradeira do país, de que as migalhas distribuídas em forma de programa sociais vão inviabilizar as finanças da grande nação.
Chegou a hora de apertar o cinto. Sem qualquer correção nos salários dos funcionários públicos. Se quiserem coisa melhor que achem outra coisa para fazer. Aumento de impostos porque os cofres públicos precisam de um reforço. Aumento da   jornada de trabalho porque a vida do homem comum é trabalho. Só o trabalho é capaz de dignificar o trabalhador.
Fosse noutros tempos ou em outros territórios, como na França, por exemplo, isso seria uma declaração de guerra. Nossos mercenários, no entanto, não empunham espadas. Usam terno e gravata. Seus rostos são de bons moços. Têm modos e trejeitos refinados. E das tribunas tratam-se por Vossa Excelência!      

08/07/16

A Sedução da Rede

Uma das faces mais sedutoras dos dias de hoje é proporcionar espaço para todos. Todo o mundo encontra algum lugar para expressar sua voz. Num passado não muito distante, os espaços eram limitados. Lançar um livro era coisa do outro mundo. Ver impressa a opinião em um jornal era mais que um parto. Coisa para poucos. Para gente importante.

29/06/16

O Sonho

Sonhei que todos os reis estavam nus. Todos eles. Em todos os reinos. E não se culpe o pobre do rato. Não foi ele quem roeu a nobre roupa. Os reis estavam nus porque era necessário que os reis assim estivessem. Era melhor para todos que as altezas não mais se escondessem atrás de trajes requintados e de perucas bem arrumadas.
A transparência era total: os reis, mesmo eles, não tinham como esconder seus rabos.
E, se assim mesmo algum deles tentava, se insistia na vã tentativa de esconde-esconde, mais dia menos dia viria a ser flagrados. E, o pior: não teria tempo para cobrir suas partes pudendas. Desacostumados com a nova ordem, gastariam longo tempo tentando o inevitável.

27/06/16

O Vereador

Eis que, dentro de alguns meses, poucos meses, teremos eleições novamente. Prefeitos, vice-prefeitos e vereadores serão escolhidos em todo o país. O barulho será o mesmo de sempre: a oposição mostrando que os governantes não acertam o passo e que o plano de governo mais condizente com o futuro almejado pelo povo é aquele que estão apresentando. O novo, o certo, aquilo que as pessoas precisam para uma vida feliz.