11/02/2019

Roda Pião

Pião. Imagem: Wikipedia

Essas tragédias que vez por outra consomem vidas, comovem a todos e trazem dor e sofrimento, especialmente aos mais próximos, os familiares, em regra, apresentam pontos em comum: falta de fiscalização, relaxamento de entes públicos e privados, legislação frouxa que permite que empresários e dirigentes continuem jogando com a sorte e a demora excessiva no estabelecimento de culpados, gerando uma total garantia de impunidade.
Foi assim na Barragem de Mariana, será assim na de Brumadinho, talvez assim seja no Ninho do Urubu, do Flamengo, onde meninos sonhadores tiveram seus sonhos interrompidos por um desses “acidentes” que bem poderiam ter sido evitados. Tivesse a tragédia ocorrido no centro de treinamento do Cacimbinhas ou de um dos clubes do Acre, ainda assim, seria lamentável. Mais lamentável ainda quando se sabe que o Flamengo tornou-se uma potência econômica nos últimos anos, tendo faturado só com a venda de dois jogadores no ano passado (Lucas Paquetá e Vinícius Jr.) algo em torno 80 milhões de euros ou 340 milhões de Reais, aproximadamente.

As minas


Mina terrestre, artefato de guerra
Os dramas coletivos são capazes de inscrever no mapa locais até então desconhecidos da grande maioria das pessoas. Em 2015, Mariana, a primeira capital da Província de Minas Gerais, vinha vivendo um período de pouco destaque, muito embora a grande produção de minérios. A mineradora Samarco protagonizou um desastre com o rompimento de uma barragem matando 20 pessoas e causando praticamente a destruição do Rio Doce. Até o momento era o maior desastre ecológico registrado no país.
Agora foi a vez de Brumadinho, uma pacata cidade mineira de menos de 40 mil habitantes, vivenciar um drama ainda maior. Entre mortos e desaparecidos mais de 300 pessoas. A Vale, empresa que explora a mineração na área, lamentou muito o ocorrido. Suas ações na bolsa de valores caíram 20%, diz a manchete do jornal.

30/01/2019

A Terra é Plana



Vivendo e aprendendo. O Brasil na vanguarda, de novo. Agora por retomar teorias já vencidas, abandonadas. É tempo de coisas novas e, às vezes, de passar um pouco de vergonha, também. Sobre o desafio de vencer os mares e cruzar a Terra escrevi esta crônica há uns anos atrás, mais precisamente em 2014. Jamais imaginei que fosse reeditá-la. Coisas da vida. Coisas de um novo tempo que, muitas vezes, nos joga de volta à Idade Média.


O Navegante

A Terra é chata. É plana. Quando os limites dos mares findarem, as embarcações cairão num profundo fosso e daí jamais voltarão. E com elas se vão os homens, sua coragem, seus sonhos e seus projetos. Não adianta desespero, não adianta luta nem qualquer reação. A verdade é essa. E ponto final.
Outros diziam que quando as águas rareavam, monstros gulosos levantavam-se e abriam suas bocas enormes e, sem esforço, engoliam todas as embarcações. Adeus navegação, adeus homens, adeus vida. Enfrentar as águas rudes do mar nos tempos antigos era uma viagem sem fim. Sem glória, sem qualquer possibilidade de vitória. Era a viagem definitiva, sem qualquer possibilidade de apelação. Era quase uma pena capital. Um suicídio que só os loucos e os desequilibrados poderiam cometer. Navegar era desprezar a vida. Era correr para a morte. Era entregar a alma aos monstros e daí jamais ser resgatado.

25/01/2019

O Rádio


O rádio de tempos atrás era muito diferente. Por aqui, na aldeia, a programação local por muito tempo esteve baseada na música e nos apresentadores. Lá pelos anos 70, liam-se cartinhas com pedidos musicais. “Janaína da Baixada oferece a próxima página musical para seu noivo Leopoldo”. Página musical, no caso, era uma canção, uma música. A própria locução era mais solene. Alguns tratavam seus ouvintes de dileto ouvinte. Em alguns horários, as propagandas eram destinadas à dona de casa, pois o homem saia para trabalhar e o rádio entretinha a mulher, responsável pelas lides domésticas.
No interior, demorou até a interatividade migrar do papel das cartinhas e dos bilhetes para a linha telefônica. Ocorre que telefone era coisa rara, um produto muito caro suportado somente por empresas e profissionais liberais de reconhecida capacidade financeira. Com o surgimento dos orelhões, telefones públicos alimentados por fichas, a comunicação entre o rádio ouvinte e o apresentador do programa ganhou em dinamicidade. O desafio era reduzir o chiado e tornar a voz do participante um pouco mais audível.

10/01/2019

Andam dizendo por aí


Gatos caem do telhado – Os felinos são fortes, lépidos, rápidos, espertos e ágeis. Na linguagem popular, dizem que os domesticados, notadamente os gatos, contam com sete vidas. É crença antiga, é claro, despudoradamente falsa. Os bichinhos são sensíveis. Mudanças são um pesadelo para eles. E, tanto quando nós, morrem um dia independentemente de seis outras possibilidades. Outro pensamento popular é de que os gatos não se machucam na queda. Apesar da agilidade, caem do telhado. Machucam-se. O conhecimento popular construído através do achismo e da primeira impressão, em regra, encontra-se muito distante da realidade científica.

Todo o poder emana do povo – Pensamento basilar da democracia e princípio constitucional pátrio, a assertiva é uma dessas pérolas que encantam nos discursos dos políticos e enchem de orgulho quem ouve. Faz bem ao ego acreditar que realmente o poder é do povo. Mas, não é bem assim. O poder do povo está em eleger. Feito isso, babaus. O eleito, bom ou ruim, de centro, de direita ou de esquerda, arrogante ou simpático, honesto ou nem tanto, está autorizado a governar como quiser. Isto porque, os votos recebidos são uma espécie de salvo conduto. O povo vota, mas não governa. A menos que se alie e crie exércitos de defensores que têm como papel básico combater qualquer crítica, qualquer citação ou mesmo qualquer manifestação de humor nas redes sociais.

A igualdade – Todos são iguais perante a lei. É outro desses princípios tão belos quanto ineficazes. Num mundo ideal talvez fosse a grande lei. A igualdade de todos os seres abaixo da luz solar. Os budistas pensam assim. Quem conhece o templo de Três Coroas bem sabe que há plaquinhas alertando os visitantes sobre os carreirinhos das formigas. Pedem respeito à vida das formiguinhas porque elas também são seres dignos de respeito. Porém, mesmo quem se dedica a lançar olhares encantados aos corpos celestes reage com algum furor de estiver em cima de um formigueiro. Lá se vai o respeito ao ser criado pela Perfeição.

Racionalismo – O racionalismo, se levado ao extremo, é capaz de eliminar em muito o impacto das ideias. O debate próprio de quem pensa, que se estabelece após o surgimento de uma ideia, talvez tenha o poder de reduzir o impacto daquilo que aparece através da intuição. Muitos artistas, escritores, pintores, acordam na madrugada quando surge alguma mensagem intuitiva. Jogam-se sem pensar no trabalho. Nem tudo vira obra de arte, é claro. O Rolling Stone Mick Jagger disse, certa vez, que ouve algumas músicas compostas por ele mesmo e nota que a peça não veio de seu cérebro. Não sabe de onde surgiram os versos, as notas, os arranjos. Acha tudo isso muito estranho porque não encontra uma explicação para o fenômeno. Agora nem busca mais uma resposta. É isso jovem Jagger: nem tudo o que ocorre por aqui tem uma explicação racional. Ou tem?


29/12/2018

Ser feliz é o que se quer


O foco da existência humana deveria ser a construção da felicidade. Não é. A educação formal, por exemplo, tende a se expandir na busca da construção de uma carreira rentável que proporcione uma boa renda para a aquisição de bens. Dinheiro, imóveis, conforto, viagens, boas roupas, uma boa imagem são os ideais de vida, na atualidade. O ideal de vida meio que se confunde com o status de felicidade ostentado nas redes sociais. Ao mesmo tempo que se expande para um lado, o processo educacional se restringe por outro: bem-estar, satisfação, construção de um caminho mais livre e, até certo ponto, despreocupado com os bens materiais e o culto à imagem perdem espaço cada vez mais.
A educação tende a correr cada vez mais em direção ao mercado. Formar profissionais que possam construir carreiras de sucesso é a norma. A competição começa cedo. A busca pelos melhores não poupa ninguém. Algumas décadas depois da implantação deste tipo de filosofia, que prega a luta desenfreada pela vitória profissional, pela carreira que dá visibilidade, status e grana, ocorre uma tímida retração. Ocorre que o mercado está saturado de profissionais competentes e infelizes. Gente que faz o que pensou que era o correto e abandonou seus talentos e seus sonhos porque estavam ligados a coisas que não davam dinheiro.

20/12/2018

A força das palavras

"Diante do resultado atingido no experimento, além de tudo o que se conhece sobre os efeitos da força impulsionadora da linguagem no contexto humano, pode-se afirmar que as palavras repetidas como mantras carregam energia capaz de contribuir para a construção de realidades".


As palavras carregam algum peso. Algumas expressões mais do que outras são marcantes pela carga que expressam. O que num momento primeiro pode parecer um ajuntamento de letras, na verdade, é um veículo condutor de energia. Não é blá-blá-blá, não! Há estudos empíricos ou nem tão empíricos assim que demonstram a força emanada pelas palavras. De algum modo, pode-se afirmar que a expressão linguística se não é por si só determinante, ao menos pode influenciar no resultado conquistado.

15/12/2018

A Magia

 "O ilusionista é o artista que encobre a realidade visível entregando uma outra realidade a quem se permite ver. Artistas criam. Iludem quando podem. O indivíduo que descubra, que desvende. O mistério desfeito perde a graça. O encanto se afasta".

O universo é mágico. Ou, pelo menos, deve ser. Restam incertezas a seu respeito, eis que é um gigante desconhecido. Conhecidas são algumas das leis que o regem. Outras, no entanto, ainda carecem de descoberta. Porém, uma coisa é certa: ele se expande sem parar. Ao menos é o que dizem os cientistas. Assim, se cresce ininterruptamente, pode-se crer que essa imensidão, que se convencionou chamar de universo, é um ser vivo que está se criando aos poucos. Dedução lógica. Mas, a lógica nem sempre prevalece. Não há palavra definitiva sobre isso. Então, especular é possível.