21/12/2016

Os Gnomos, as Fadas e os Elfos

Houve um tempo, quando ainda era uma criança impertinente, que não acreditava em gnomos, elfos, fadas. O mundo real me parecia tão fascinante. Crianças brincando entretidas com bolas meio murchas, adultos dedicando-se a construir suas vidas. Hoje noto que  o meio em que vivia não era nada fantástico. A realidade era um tanto quanto dura, formada por uma fórmula onde os ingredientes mais comuns eram os salários minguados, o desemprego, encrencas por pouca coisa, danos causados pelos vícios do jogo e da cachaça e estas situações tão corriqueiras na vida das pessoas sem muitas posses, sem muito estudo e, aparentemente, sem futuro brilhante.
Apesar de tudo isso, acreditava que o legítimo sabor estava naquela luta renhida e insistente. A luta me fascinava. Então, não restava muito tempo para o mundo mágico. A magia se resumia aos jogos de bola, às fugas para os açudes e às matas, onde buscavam-se frutinhas silvestres, ervas e o canto de algum pássaro disponível naquele pedaço de mundo.
Na inocência que me cabia, não sabia nada de excessos militares. Só estranhava aquela obsessão por hino nacional e por símbolos pátrios, impressos em cadernos de péssima qualidade, com poucas e escuras folhas, além de uma capa molenga e mal acabada. Estas obras de artes eram distribuídas aos alunos pobres que enchiam as escolinhas públicas.
Não imaginei que, em pleno século XXI, nosso país voltasse a vivenciar novamente o foço que separa a classe alta, sempre diligente em manter sua existência tão cheia de privilégios, e a escumalha que atrapalha o brilho desta mesma classe de apaniguados pela sorte, pelo roubo e pela proteção mútua.
 É claro que não conheço os meandros do poder. Só imagino. E, se não tinha tanta imaginação quando era pequeno, agora tenho. Imagino que os senhores do poder, denunciados aqui e ali em operações policiais por roubo e lavagem de dinheiro, conversem entre eles e acertem as medidas que vão tomar no Congresso, onde muitos desses senhores de fraque e cartola e cara de gente séria, corre para cima e para baixo, loucos para mudar as leis visando sacanear quem vem de baixo. Não querem e não permitirão que o pobrerio tenha uma vida digna. Ou, ao menos, um fim de vida com alguma dignidade. Aposentadoria será quase como uma loteria. Alguém há de sobreviver. Alguém há de surpreender.
Imagino um ser, sem qualificação, mas esforçado e trabalhador. Que pega no pesado desde a adolescência. Que sai da escola para ajudar a família. Que vai trabalhar a vida toda em serviços puxados, onde a saúde se esvai diariamente diante do peso que seu corpo carrega, da alimentação precária e de um sono mais habitado por pesadelos do que por sonhos. E lá vai nosso guerreiro até os 50, 60. E, se em algum momento, o corpo fraquejar (porque a carne é fraca e o corpo fraqueja) e não restar grande coisa a fazer. E não houver trabalho. E não havendo trabalho não haverá contribuição previdenciária. Como ficará?
Por isso que, nestes tempos, onde bandidos e governantes misturam-se de tal forma para roubar o futuro das pessoas de bem, ergo meu rezo aos gnomos, aos elfos, às fadas, aos deuses e deusas (não aprisionados na limitante teia da religiosidade dogmática e estreita). O mundo do poder humano é nefasto. É corrupto por natureza. Ali homens vestem suas capas de heróis e saem por aí criando futuros que não pedimos, mas que são necessários para garantir a eles a vida próspera dos reis.
                              

                         

O Envenenamento

Sócrates, filósofo grego, foi condenado à morte. Em sua cela, após refutar a possibilidade de negar suas ideias e pedir clemência, ingeriu, conforme a pena prevista, um dose de cicuta, uma planta contendo veneno mortal. Poderia ter evitado isso. Mas, preferiu manter-se firme e forte na convicção da imortalidade da alma do que viver mais alguns anos como um velho desonrado. 
Historicamente, o veneno sempre foi meio eficaz para a morte silenciosa. Nos tempos mais antigos, antes das garantias e certezas dos exames laboratoriais, o envenenamento era morte certa e autoria quase sempre indefinida. Nos manuais de medicina legal, ainda consta que foi, por muito tempo, a forma de vingança mais feminina. O tal veneno da mulher literalmente passava por algum frasco contendo alguma substância que corroía o desafeto a partir de suas entranhas. 
Talvez ainda exista em algum lugar, neste vasto território, quem faça uso de tal expediente. Porém, as doses de venenos já estão incorporadas na vida diária de forma insuspeita. Não é mais dispensada reverência a gênios do conhecimento, da filosofia. O objetivo não é mais calar alguém que tenha alguma proposta diferente. É muito mais pela praticidade e pelo lucro.
Em praticamente todos os alimentos industrializados há componentes artificiais, segundo padrões técnicos estabelecidos por entidades insuspeitas, mas que, se consumidos insistentemente, envenenam as pessoas. Alguns deles têm como objetivo ressaltar o sabor, outros em manter os alimentos com melhor aparência, aumentar a vida útil e uma série de outras razões absolutamente justificáveis. 
Como a alimentação é uma imposição, é indispensável à vida e ninguém tem tempo para plantar e colher sua comidinha do dia a dia, resta fechar os olhos e se deliciar sem grandes dramas. Gorduras, açúcares, minerais, conservantes somam-se e formam verdadeiros coquetéis disfarçados de pizzas, bolachinhas, refrigerantes, molhos prontos, iogurtes e milhares de outros produtos.  Sem contar na carga de agrotóxicos lançados na lavoura e que visitam nossa mesa através do arroz, milho, tomate, pimentão, cenoura, uva, maçã.
Como são poucas as alternativas, além da compra de produtos orgânicos (nem sempre disponíveis nas cidades menores e com custo mais elevado), o envenenamento continua, sem apresentar grandes gritos. Segue silencioso como a cicuta que consumiu Sócrates. Claro, as doses são mínimas e os efeitos variam de pessoa para pessoa conforme sua pré-disposição orgânica e sua dieta. Diferentemente do que ocorreu com o filósofo, aqui nem se trata da execução de uma pena. Não importa o nível de pensamento filosófico do indivíduo. Não há processo em andamento. Estão condenados todos. Sem apelação.
Mas, nem tudo é tão negativo assim: resta-nos, tanto quanto restou a Sócrates, a imortalidade da alma.

12/12/2016

O Figurante

Thomas Alva Edison
Era um aluno que não vibrava. As atividades propostas pelos mestres encontravam algum engajamento nos demais. Nele não. Era um estudante desligado. Tornou-se um problema para alguns professores. Avaliá-lo era difícil. Parceia que não tinha talento para nada. Não demonstrava interesse. Enfim, era um desastre. Um professor, do alto de sua sabedoria, de seu objetivismo, decretou que ele não era desprovido de talento. Ao longo da vida seria um mero coadjuvante. Isso se todos os astros conspirassem a seu favor. O esperado, porém, é de que os astros dessem as costas e o  aluno não passasse de um figurante, destes que aparecem alguns segundos na tela com o rosto desfocado caminhando enquanto as câmeras flagram as mínimas expressões dos  rostos dos protagonistas.
Rejeitado na escola, passou a ser educado pela própria mãe que lhe apresenta as lições mais de acordo com o seu gosto. Assim, o aluno rebelde e imprestável para o sistema de educação, começa a se jogar de corpo e alma nos livros de ciências. Apoiado pela zelosa mãe, monta um laboratório onde começa a fazer pesquisas. Vez por outra algum estrondo balança a casa, resultante da mistura inapropriada de elementos químicos.  
O tempo passou independentemente da vontade do professor, dos alunos e do diretor. Passou também para o aluno, aquele que não teria futuro, que não seria reconhecido. A nulidade, porém, havia trabalhado pacientemente durante longo período no desenvolvimento de suas potencialidades, já que seu interesse sempre foi para coisas mais significativas do que os conteúdos apresentados por aqueles que se diziam mestres.
Apesar de trabalhar formalmente, sempre guardava um bom tempo para desenvolver suas engenhocas. Passou por algumas desventuras. Mas, com o tempo começou a lançar seus inventos, registrá-los, produzí-los e, com o passar dos anos, fez fortuna aproveitando-se  da invenção da lâmpada elétrica. Thomas Alva Edson, que criou a Edison General Eletric, até hoje uma potência mundial, é uma prova cabal de que nunca se deve confiar em um único julgamento.
Os processos avaliativos, baseados na percepção de um só indivíduo, podem aniquilar as ricas possibilidades, podem sepultar sonhos e destruir pessoas. Um mero figurante em uma cena pode esconder um protagonista. Ou não?     

Mais sobre Edison:

29/11/2016

Vida e Morte

As palavras estão aí e precisam ser encontradas. Não cabe ao cronista escrever algo no estilo “não tenho palavras para explicar” ou “não encontrei as palavras”. A coluna do jornal precisa ser preenchida. Não há como deixar um espaço em branco. Tem que haver algo publicado ali. De preferência com letras, com palavras e com ideias que, de algum modo, façam sentido aos leitores. Então, é necessário, é indispensável, é um imperativo que se escarafunche  e que algo seja dito.
Explico: é terça-feira. Uma terça-feira diferente. O sol sai de vez em quando. Mas, nuvens insistentes cobrem boa parte do dia. Os sites, os jornais, a tevê, as rádios, as redes sociais. Todos. Todos estão conectados com a queda do avião da delegação da Chapecoense. Vidas se foram. Familiares são entrevistados insistentemente. As pessoas querem explicações. O que houve com o avião? Houve falha humana? O desastre poderia ser evitado? O clube poderia ter gasto mais algum recurso e conseguido uma aeronave melhor?

24/11/2016

Copiar e Colar

Recebo cada link, cada postagem, vejo cada publicação nas redes que vou te dizer. Absurdos homéricos são divulgados como se fossem informações corretas. “Vamos acabar com o auxílio-reclusão. Cada preso ganha 1.200,00 por mês enquanto o salário mínimo que a população recebe é só R$ 880,00”. Tenho recebi coisas deste tipo de virtuais amigos que cursaram ensino superior, de empresários razoavelmente bem estabelecidos e de gente deste quilate.
É tanta informação distorcida, tanta coisa sem valor na rede que já vou desconfiando de tudo. Mensagens do Pedro Bial, do Arnaldo Jabor nem abro. Até o Chico Xavier vem sendo trolado com previsões catastróficas com fins de mundo e outras projeções nada positivas.
Às vezes até me coloca na posição de auxiliar. Já fiz comentários do tipo: “olha, essa notícia é falsa. Dá uma olhada no boatos.org”. Mas, já estou achando que o chato sou eu.  Boa parte das pessoas que navegam no Facebook e no Whats não estão muito preocupados com a veracidade das informações. Às vezes basta a manchete. E, em muitos casos, a manchete não fecha com o texto. Ou o site é de humor, mas mantém uma aparência de coisa séria. E a vida é ganha com acessos. E os incautos vão acessando e divulgando o conteúdo sem ao menos dar uma conferida superficial no conteúdo.
Meu esforço em desvendar algumas distorções é visto por muitos como uma chatice. Não esqueço de um rapaz que não admitia nenhum tipo de ponderação. Postava um monte de coisas, muitas delas sem pé nem cabeça, e já alertava que não aceitava mimimi (termo empregado para afastar qualquer ser pensante que possa fazer o contraponto ou apresentar alguma outra alternativa racional e, assim, abrir uma discussão menos rasa). E a coisa durou meses. O remédio foi deixa-lo no limbo não acessando mais nenhum dos seus conteúdos. Eis que suas postagens começaram a rarear.
Imagino quem não exercita a paciência no seu dia a dia. Muitos e muitos amigos simplesmente deixaram de acessar as redes sociais. Ficavam incomodados com postagens de festas, de férias recheadas de viagens a locais paradisíacos de gente que lhes deviam uns trocados e, com o tempo, pararam até de cumprimentá-los. Coisas da vida.
Já vi coisas grosseiras também. Gente cobrando conta. Casais ou ex-casais lançando farpas. Mulheres dizendo que o marido não era lá essas coisas. Porém, para a maioria absoluta, o mundo virtual é o mundo ideal. Ali estão os sonhos. O melhor sorriso. O sucesso. O melhor ângulo, o melhor filtro. E o que se posta ali expressa a mais pura das verdades. Mesmo que seja notícia falsa.
Na vida real não há espaço para tantas ilusões. Não há como editar. Nem sempre o ângulo mais favorável é o que é visto. Na luta do dia a dia, o improviso cresce. Sem filtros. Sem curtidas. Sem tantos compartilhamentos.
É fácil copiar os versos de inspirado compositor popular e postá-los como se as palavras fossem suas. Copiar e colar é barbada. Criar dá algum trabalho. Difícil é cantar a própria música.

                         
                         

                        

22/11/2016

A Pressa

A pressa é uma marca dos tempos atuais. Tudo é na hora. Não há espaço para depois. Parece que todo o mundo está com a mãe na forca, como diriam os mais antigos. A comunicação instantânea talvez tenha contribuído para isso. As respostas têm que, obrigatoriamente, serem dadas logo após o sinalzinho duplo e azulado aparecer na tela. Minutos são horas. E horas é a própria eternidade.
Com a democratização da opinião, através das redes virtuais, criou-se outro mal, tão prejudicial quanto a pressa: a necessidade de reagir. Parece que é uma obrigação que todos tenham uma opinião formada sobre tudo, “sobre o que é o amor, sobre o que eu nem sei quem sou”. Quem não opina tá por fora. E quem opina, quem toma partido, quem se apaixona pela tese é bem capaz de servir de cristão aos leões. E os felinos têm uma carência invejável. A fome é grande. Polêmica, polêmica, polêmica. Por pouco, pisa-se no pescoço e quebram-se os ossos. Um pouco de exagero, é claro.

10/11/2016

Sem Reclamações

O célebre reclamão Garfield,
 de Jim Davis
Um dia sem reclamação. Só um. Nada de lamentar o tempo quente e abafado, a falta de vento, o preço assustador do litro de gasolina, o excesso de trabalho ou a falta dele, a grana curta no bolso ou o saldo negativo no banco. O negócio que era para fechar e não fechou. A pouca valorização que o vendedor deu pelo carro usado e a supervalorização atribuída por outro um pouquinho só mais novo.
Um dia sem reclamação. Só um. A falta de vitória do time do coração. O desempenho trôpego de quem representou para ti uma grande esperança. A gordurinha que  sobra do lado, o cabelo que não se ajeita p ou que abandona a cabeça e não volta mais. Uma ruga, disfarçada de  sinal de expressão, que denota que o tempo vai marcando sua marcha pelos rostos dos viventes.  O livro que dorme infinitamente do lado da cama. A grama que cresce neste tempo e exige algum suor ou algum dinheiro para pagar o rapaz que corta, apara, recolhe e pede, de vez em quando, uma água gelada, “porque sem água gelada não dá para enfrentar este calorão”.
Um dia sem reclamação pode parecer pouco. É só um. Mas, por incrível que pareça, este simples desafio não é tão pequeno assim, nestes tempos de correria. Parece que sempre haverá um estímulo aqui ou ali pronto a determinar o rompimento do pacto.  Algo vai aparecer na notícia lida com esmero pelo locutor do rádio, ou escrito pelo seu preferido colunista no jornal, no site ou, ainda, em alguma postagem de falsa felicidade feita por aquela amiga que você nem sabe que é sua amiga, mas está lá com este status sorrindo um sorriso que você nem conhece ao vivo.
Uma morte estúpida no centro da cidade ou no bairro. Um aumento de preço, uma ordem que não dá para cumprir, um prazo que corre mais do que a vontade em atendê-lo. Um descuido qualquer, uma situação inusitada. Um grupo de Whats que não vai levar a nada, mas que não se sai por vergonha. Um buraco na rua que o prefeito insiste em não ver. Um motorista que não conhece a cidade e vai parando na preferencial, freando repetidas vezes com medo de passar pelo sinal até que o vermelho se impõe para a alegria dos apressados que vinham nervosamente atrás.
Se um dia sem reclamação já parece bastante, imagina o desafio que alguns estão se impondo: uma semana, um mês. Não sei se o exercício terá o poder de mudar comportamentos. Bom que a magia funcionasse assim rapidinho. Vai que funcione. Não sei se adiro ao movimento. Acho que não: hoje tá tão quente, o vento mal bate na janela e tenho muita coisa para fazer ainda. Dia cansativo esse. 

                                               

O Perdão

O ato de perdoar é coisa de religioso. É fora de moda. É coisa de outros tempos. É, talvez, até meio babaca. Coisa de gente fraca que abaixa a cabeça para tudo e para todos e que não se valoriza. Os tempos são outros. É hora de fazer valer o poder individual. Exercitar sua vontade. Cada um no seu quadrado. Pisão no pé se paga com pisão no pé. Dedo no olho com dedo no olho. Simples assim. Direto e reto, sem escalas.
O escritor Moacir Costa de Araújo Lima, físico, professor e conferencista, que lançou no ano passado a obra Perdão e crônicas para uma vida plena, acredita que perdoar é uma necessidade urgente para que os homens garantam uma boa saúde e uma vida mais promissora do que se leva aqui na Terra. Ele, que abriu a Semana Espírita da Sociedade Espírita Amor e Caridade, chega a dizer que as leis da Física mostram uma realidade imodificável que não é condizente com o conhecimento necessário para que a espécie humana evolua. 
Assim, em algum momento, é necessário que o próprio indivíduo assuma seu processo existencial e desprograme sua mente dos pensamentos que limitam a criatividade e a possibilidade de crescimento. Citou os conceitos da religião antiga que apresentava o Criador como um deus vingativo, mal humorado e muito pouco compreensivo. Além do pecado original e da culpa, dois outros pensamentos muito valorizados na cultura judaico-cristã e que acompanham as gerações há muito tempo.
Os novos tempos exigem o autoperdão, defende Moacir. Sem isso, o homem continua sua história de submissão aos poderosos e de humilhação sem luta, sem reação. E quem sai ganhando com o perdão? Diz o escritor que o maior beneficiado é quem exercita o perdão.  E o perdão começa no pensamento. Alimentar pensamentos negativos, cheios de ódio e ressentimento é intoxicar o físico e o espírito. É destruir a própria vida e não a do outro, que talvez até se torne imune ao longo do tempo. O homem constrói a partir do pensamento. Constrói castelos, naves e paraísos. Constrói também prisões. A energia é quase a mesma. O propósito é que faz a diferença.
A quem pensa que perdão é fraqueza, Gandhi disse: “o fraco jamais perdoa: o perdão e uma das características do forte”.