11/06/2019

O Método da Informação


Boa parte dos meus amigos e conhecidos tem optado por garantir uma certa distância das redes sociais. Eventualmente postam uma ou outra coisinha para não cair no esquecimento total neste mundo chamado apropriadamente de virtual. Fenômeno decantado como a expressão mais vívida da democracia, não é menos verdade que as ferramentas virtuais, como o Facebook, Twitter e outros da mesma corrente, às vezes, se prestam mais a escancarar o alto grau de ignorância e truculência dos nossos tempos do que a tarefa primordial que é conectar as pessoas.
Por óbvio que é não é culpa do meio, mas de quem o utiliza. A bem da verdade, é lícito que se declare que esse uso equivocado do processo de comunicação não é uma característica do nosso povo. Não é exclusivamente retrato de nosso atraso, de nosso atavismo, de nossa falta de cultura e de traquejo social. A falta de etiqueta, de compromisso com a verdade é mundial. Claro, isso não absolve quem usa este meio para atacar, para difundir o ódio, para reafirmar os preconceitos contra grupos sociais ou defender ideias políticas ou políticos notadamente ignorantes ou mal-intencionados.

03/06/2019

Quero-quero, a mula sem cabeça e outros bichos


Aqui perto há um terreno baldio na esquina. Outro grande logo ali. Por aqui há também algumas áreas grandes com gramado e bem arborizadas. Ainda que esteja chovendo um pouco, os pássaros são insistentes. Pelo pouco que conheço, noto que há sabiás, pardais e quero-queros ocupando o mesmo território. Não são os pingos da chuva que os colocam a descansar. Na hora em que escrevo um verdadeiro alarido de sons vai tomando conta do ambiente. Parece que cada pássaro quer ser ouvido mais longe. Se estão dialogando falam línguas distintas. Como cantam com decisão estes pequenos.
Contam os mais entendidos sobre o costume dos pássaros que um deles, o quero-quero, coloca-se a cantar longe do ninho para afastar os invasores e garantir a segurança dos filhotes. Serzinho inteligente, faz um alarido com se o ninho estivesse por ali prestes a ser invadido. Dá rasantes, canta desesperadamente demonstrando sua ira e sua determinação. Às vezes, conta com a solidariedade de um ou outro que se junta no intuito de atacar com mais insistência e efetividade o ameaçador. É conhecida a sua ferocidade, especialmente pelo esporão que apresenta na ponta das asas. Acuado, torna-se um gigante, apesar de medir algo em torno de 37 centímetros e pesar insignificantes 280 gramas.
Por ser um defensor intransigente de seu território, o quero-quero foi adotado como símbolo do Rio Grande.

A eleição na floresta

O reino animal também fez sua eleição. Faz pouco tempo. Eleição igualzinha a essas que vez por outra vivenciamos por aqui. Dizem que a floresta virou um zum zum zum. O contato era direto e reto. Não havia horário eleitoral na tevê, pois nem tevê existia por lá. Pesquisas então nem pensar. As notícias verdadeiras se misturavam com notícias falsas, com boatos e coisas e tals. Um horror jamais visto por aqui. Os candidatos corriam de um lado a outro apresentando propostas absurdas e prometendo vantagens a estes e aqueles.
O processo seguiu por um bom tempo. Ninguém tinha certeza de nada. Nem debate havia. Assim, ficava difícil ouvir da boca ou do bico do candidato o que ele realmente desejava fazer. As corujas, conhecidas por guardar a sabedoria do local, ficavam preocupadas com a falta de profundidade do processo. Era tudo muito raso. Era tudo muito rápido. Suspeitavam que não daria muito certo tudo aquilo. Mas, quem deseja ouvir as corujas?
Resumindo a história: num cenário dividido, uma mula sem cabeça foi eleita causando espanto e surpresa a uma boa parte dos bichos. Logo ela, uma mula que traquejo nenhum tinha. Ser limitado e um tanto quanto ignorante, parecia o menos indicado para o momento. Mas, como o processo primou pela democracia o negócio era aceitar o resultado e torcer para que errasse o menos possível. Uma prece, uma oração, um pensamento positivo eram receitas que se ouvia também. Não resolveria a questão, mas, vai saber se as forças da natureza não influenciariam trazendo algum alento aos desalentados e algum talento à mula?
Assumiu a mula. Mas, como não tinha mesmo grande preparo em pouco tempo os bichos que a apoiavam começaram a se sentir inquietos. Tinha muita dificuldade em negociar. Era turrona. Achava que crescia na parada ameaçando este ou aquele. Comunicava-se mal. Muito mal. Dava um passo para a frente e outros dois para trás. Parecia despreparada para o cargo.
Porém, era tarde demais. O negócio era aguentar o tempo que desse. O Lobo, que tinha apoiado a mula no primeiro instante, foi um dos primeiros também a detoná-la. Estava indignado o bicho. Era visto por aí dizendo que faltava inteligência a ela e que o governo que começou já estava no fim.
A floresta estava inquieta. Havia balbúrdia por aqui e por ali. Porém, uma boa parte dos bichinhos permanecia em silêncio. Melhor nem falar. Melhor esquecer desta política. Melhor não assumir que eleger uma mula, ainda mais sem cabeça, era um despropósito.

23/05/2019

Os boatos, as fofocas e as bizarrices


Nos papos de comadre, ou de compadre, “sabe qual é a última?” era a senha para abrir o leque da conversa e, assim, deliberar sobre questões que diziam respeito à vida da mulher alheia ou das pessoas que transitavam pelo pedaço. “Não vi, mas me contaram” de vez em quando aparecia no meio da confabulação. Era como se um salvo conduto. Uma desculpa para a falta de exatidão e, mesmo, para os eventuais desvios e exageros que a notícia primitiva poderia conter. Não havia, ainda, naqueles tempos, esse fenômeno da rede social. Assim, as notícias da comunidade eram repassadas de boca a boca. Em regra, os fatos iam ganhando interpretações mais ou menos maliciosas, detalhes eram acrescidos conforme a disposição dos comunicantes e o fato, muitas vezes, era mero arremedo da sua versão final.

17/05/2019

O Reino da Mixórdia


"...só queriam um pouco mais de justiça e hoje enxergam que assinaram um cheque em branco e que a conta será muito mais salgada do que a anunciada".

O Brasil já vivenciou alguns episódios de mal-estar e constrangimento no passado. Na história recente, a posse de José Sarney como presidente é um desses fatos. Para os mais jovens, é claro, faz-se necessária uma explicação. Tancredo, que vem a ser tio-avô de Aécio Neves, era um político mineiro que concorreu à presidência numa eleição indireta, onde só votavam os congressistas. Naqueles tempos, o povo era alijado de votar diretamente. Este direito de escolher o presidente cabia aos deputados e senadores que, em regra, referendavam o general de plantão escolhido pelo presidente general ou pelo partido do tal militar.Sei que este papo histórico é um tanto chato. Insistir nesta toada de explicar tudo direitinho parece ser daqueles erros imperdoáveis a um cronista. Continuando assim e metade dos leitores vai jogar o jornal para o lado ou seguirá adiante fazendo coisas bem mais interessantes. Então: corte na história e vamos em frente. O congresso elegeu Tancredo tendo como vice José Sarney, um aliado do regime militar, escritor casual e, talvez por carteiraço, membro da Academia Brasileira de Letras, com a significativa obra Marimbondos de Fogo. Pois, a ironia do destino venceu de 7 a 0, tal qual a Alemanha fez há algum tempo. Tancredo ganhou. Mas, não assumiu. Morreu antes. O fato gerou uma comoção nacional. Mílton Nascimento e seu Coração de Estudante embalaram os atos fúnebres. A impressão era de que toda a esperança do povo estava sendo enterrada junto. Sarney, que não venceria, acabou presidente.

09/05/2019

Intrigas palacianas


“Os piores inimigos são os que aplaudem sempre.”
Tácito, historiador romano.

Boa parte da história romana nos chega pela pena de Tácito. Sensível, estiloso, atento, o escritor esculpia a história misturando à prosa um pouco de poesia. Descrevia com presteza e atenção o cenário do poder. Naqueles tempos, como nos dias atuais, os bastidores decidiam. As tramas familiares, com assassinatos providenciais para limpar o campo do processo sucessório, as intrigas políticas, com as falsas acusações sobre os opositores que geravam falsos julgamentos com penas verdadeiras, presenteavam o reino com governantes ilegítimos. Chegava-se ao poder através do sangue e da articulação política. A adaga, a espada e a forca eram argumentos políticos dos mais utilizados.

02/05/2019

Ler, escrever e fazer contas

Sala de aula antiga

Meu avô era um homem rude. Viveu num tempo em que conforto existia somente para os ricos. Iletrado, consumiu a vida nas lides mais insalubres que se tinha na época. Enfrentava o frio e o calor na pesca, na lavoura, cuidando de uma ou outra criação. Eram dias difíceis. Tinha umas terrinhas. Mas, terra naquela época nem valor tinha. Um eito dava para trocar por uma junta de boi, por um cavalo magro, por uma carroça ou uma carreta.
As escolas eram distantes. Os mais aplicados subiam no lombo de um matungo e viajavam por entre matos seguindo trilhas e caminhos precários, passando por sangas e riachos. Nos dias de intempérie ir a aula estava fora de cogitação. Estudar era um luxo. Cresciam conhecendo poucas letras, quando muito as que completavam o próprio nome, e alguns números. Operações mais complexas ficavam para os mais letrados.

26/04/2019

A Santa e o General


Sucedi Luiz Henrique Benfica na produção do programa Olho Vivo, da Rádio Osório. Era a maior audiência da emissora. Na realidade, continua até hoje sendo um referencial no radiojornalismo da região. Por ali o litoral norte se comunicava. Osório, Capão da Canoa, Tramandaí, Palmares do Sul transitavam pelas ondas da rádio. Num tempo em que só havia telefone fixo o trabalho era penoso. As entrevistas eram agendadas no dia anterior. O chiado na linha telefônica por vezes inviabilizava o bate papo. Pedro Farias, diretor da rádio, apresentava o programa.
O grande desafio era conseguir entrevistados para o sábado pela manhã. As prefeituras encontravam-se fechadas, as câmaras de vereadores também. Naqueles tempos os sábados eram mais preguiçosos. As autoridades, que normalmente eram ouvidas durante a semana, descansavam naquele dia. O esforço era grande para encaixar alguém que tivesse um bom papo para preencher os espaços que se tornavam cada vez maiores. Às vezes a vítima escolhida demonstrava pouca intimidade com o microfone e a entrevista minguava. Era um desespero pegar o telefone e ligar para deus e o mundo, acordando uns que se negavam a falar ou, ainda, ouvindo pacientemente o telefone chamar sem resposta até final no tradicional puc puc puc .
Certa vez o Pedro saiu de férias. Pegou uns dias para descansar. Fiquei responsável pela produção e apresentação do programa a semana toda. Gastei todo o repertório. Sexta-feira, no final da tarde, bateu o desespero. Era verão e ninguém estava disponível. Fiz uma verdadeira ronda e nada.
Mas, havia sempre uma carta na manga. E a carta era ouvir um historiador para falar sobre o passado da cidade e da região. Uma entrevista leve. Convoquei o dr. Guido Muri, historiador e entusiasta pela vida osoriense, que vez por outra salvava o programa. Era conhecida sua posição contrária à mudança do nome da cidade. Acreditava que Osório deveria retornar ao antigo nome Conceição do Arroio. Criticava o ato arbitrário do governo do Estado que, em 1934, através de um decreto e sem ao menos consultar os cidadãos, abandonou a santa e homenageou o militar. Isso, segundo ele, de algum modo contribuía para que a cidade vivesse na míngua, sem crescimento econômico e progresso.


De conceição do Arroio para o Mundo

A Rádio Guaíba e o Correio do Povo mantinham no período de verão um repórter para acompanhar as notícias da Orla Gaúcha. Waldomiro de Oliveira, de voz suave, agradável e dicção limpa, era o responsável pelos boletins e textos. Pois, na segunda-feira, após a manifestação do dr, Guido Muri, o Correio publicou uma pequena e curiosa nota destacando o “movimento pela mudança de nome da cidade”. Aventou-se a possibilidade de realizar um plebiscito para ouvir a comunidade. Não sei ao certo se foi por causa disso. Porém, pouco tempo depois, Pedro voltou aos microfones e nervosamente enterrou a tese.

Crônica publicada no Caderno Mundo das Ideias, em 25.04.2019, encartado no Jornal Bons Ventos.

17/04/2019

O Complexo de Vira-Latas

Barbosa, goleiro brasileiro
 na Copa de 50

A Síndrome do Cachorro Vira Latas ou Complexo de vira Latas foi diagnosticada pelo dramaturgo brasileiro Nélson Rodrigues. Ela atinge o imaginário da população brasileira que tende a acreditar que tudo o que se produz por aqui, tudo o que se faz neste pedaço de chão não apresenta a mesma qualidade do que é feito lá, nos países mais desenvolvidos. Inconscientemente transita a informação de que há um débito permanente que persegue o povo tupiniquim. Assim, se justificam expressões como “isso é Brasil” dita, invariavelmente, depois de algum deslize cometido por autoridade do governo ou mesmo por algum cidadão imperfeito.
Obras inacabadas, políticas públicas capengas, lideranças despreparadas, carências estruturais, dificuldades a torto e a direito são algumas das coisas mais do que corriqueiras registradas por aqui com alguma insistência, o que de certo modo colaboram para que a população carregue permanentemente este sentimento de inferioridade. Paralelamente, somos acossados por ideias nem sempre precisas de que no restante do mundo as coisas funcionam com maior precisão e, assim, as pessoas são mais felizes. É comum, por exemplo, sair da boa de alguém que jamais cruzou o Rio Mampituba afirmações de que “lá nos EUA não é assim” ou “na Europa essas coisas não acontecem”. Às vezes ocorre coisa pior.