17/11/2017

Sois Deuses

A Criação de Adão, afresco de
Michelangelo no teto da Capela Sistina 
Algumas expressões ouvidas e ditas aqui e ali, em fontes diversas, vão se constituindo como aqueles velhos enigmas que se construíram ao longo da história da humanidade. Não digo que alimente qualquer tipo de expectativa como se fosse vencer as limitações e adquirisse o direito de sair pelo mundo afora, como faziam os velhos filósofos, a semeando verdades e revelando segredos que alguém sabiamente escondeu atrás de intrincadas fórmulas e leis só conhecidas por grandes sábios ou por iniciados secretamente nas artes do conhecimento. É bem verdade que não chego a perder o sono. Mas, não dá para negar que, às vezes, uma ideia fica por dias, por meses e até por anos em algum lugar esperando a hora de que alguma conclusão apareça.

16/11/2017

O Trabalho Escravo

De vez em quando, algumas dessas grandes empresas, que gozam de muita credibilidade, de reputação forjada pela qualidade e pela visibilidade midiática, são atingidas por denúncias de uso de trabalho escravo no seu processo produtivo. O assunto nem novo é. Mas, é sempre repugnante.
A escravidão faz parte da história humana. Nas primeiras guerras, aprisionar o inimigo e torná-los escravos era parte do jogo. Não era grosseiro e desumano. Não causava repulsa. Era coisa normal. Que perdia a batalha virava coisa. Perdia nome, família, endereço, pátria. Virava propriedade de alguém. Dizia-se que os perdedores foram abandonados por seus deuses.
Como o tempo, a ferro e fogo, as coisas foram se modificando. É certo, porém, que no nosso tempo, aqui e ali, ainda há culturas que mantém viva esta tradição que revela a mais profunda brutalidade carregada pelo ser humano que vive com os pés num passado muito distante.

25/10/2017

O Bem e o Mal

Uma das maiores transformações na forma de vida da humanidade ocorreu quando pioneiros, entre eles o brasileiro Santos Dumont, conseguiram domar os céus, vencer as correntes de ventos e manter suspenso um mecanismo mais pesado do que o ar. A realização do sonho de Ícaro deu início ao encurtamento das distâncias. O mundo ficou pequeno.  Mas, a engenhosidade humana em seguida arrumou um jeito de usar o progresso para incrementar seu arsenal de guerra. Os inventores do avião não haviam perdido noites de sono para a guerra. Alguém, porém, usando da criatividade destrutiva concebeu a destruição em massa, lançando pesadas bombas nas cabeças dos inimigos. No esforço para a vitória valia mesmo sacrificar crianças, mulheres, doentes e todos os que se encontravam no campo do inimigo. Guerra é guerra.
Os sonhos dos irmãos franceses Auguste e Louise Lumière em captar  a imagem para posterior projeção de algum modo transformou o mundo do entretenimento.  O cinema enterrou de vez o show de horrores que expunha criaturas nascidas com má formação física, chamadas de aberrações da natureza. Ao invés da mulher barbada, do bezerro com cinco patas, do homem elefante, da mulher elástico e outras coisas tão em voga nos curiosos anos do final do século XIX, o público começava a ser seduzido pelos filmes  Empregados Deixando a Fábrica Lumière e a Chegada de um Trem à Estação de la Ciotat.

19/10/2017

A Mala

Fazia algum tempo que não conversava com a velha amiga. Não: ela não é velha. Antiga é nossa amizade que já registra algumas décadas. Durante este afastamento muita coisa ocorreu. Os dias são outros. Nós também somos outros. Nos tempos distantes não havia assim tanta tecnologia. Os contatos eram mais físicos, olho no olho.  Vivia-se sem celulares, sem redes sociais, sem tanto compartilhamento nem tanta postagem. A vida, talvez por isso, transcorria sem tanta pressa. As notícias, mesmo numa cidade pequena, iam deslizando preguiçosamente de boca em boca, espraiando-se nas conversas das comadres nos seus chás tardios ou no traguinho dos compadres num balcão ensebado de algum desses botecos que vendiam pão, leite em saquinho, Mumu, Bombril, farinha, açúcar, panelas, fumo em rolo, linguiça, além de algum remédio para dor de cabeça.
Disse-me que dia desses viu um impactante vídeo numa das redes sociais. A mensagem dizia que nascemos com o propósito de carregar nossa mala. E vamos atulhando a mala com os conhecimentos que vamos adquirindo ao longo da existência. Nem só aqueles conhecimentos transmitidos por fontes seguras e comprometidas com o processo de crescimento dos indivíduos. Não! A mala vai recebendo lentamente todo o tipo de material ali jogado, sem censura prévia, sem grandes deliberações nem juízo crítico.

16/10/2017

O Artilheiro de Cinco Mil Cruzeiros

Antônio da Silva
Já havia ouvido esta história. Porém, em 2013, por ocasião da edição de um vídeo sobre os 60 anos de fundação do GAO - Grêmio Atlético Osoriense, pude conversar pessoalmente com Antônio da Silva, conhecido como Santo Antônio, que atuou nos anos 50 e 60 no futebol amador por equipes de Osório e de outras cidades. Foi um desses raros prazeres de ouvir uma boa história contada por seu protagonista. 

Aos poucos as lembranças vão sumindo de sua mente. Menos mal que Antônio da Silva, o Santo Antônio, conta com o apoio da esposa Lucília Nunes da Silva. Ela é uma entusiasta, especialmente quando começa a recordar os anos de glória que ambos viveram nos campos de futebol de Osório. Ele, um polivalente atleta; ela, uma torcedora das mais aguerridas.

12/10/2017

O Dinheiro

Para muitos o dinheiro é o responsável pela falência moral do homem. Aos olhos de quem assim vê, o dinheiro é a mola que dispara os gatilhos da corrupção, da luxúria, das gastanças desmedidas, da disputa pelo poder nas corporações e da aniquilação da vida pela luta desenfreada por uma segurança que nunca chega.
Na verdade, o surgimento da moeda é uma das marcas mais significativas da capacidade humana em criar soluções simples para problemas complexos. Lá  no princípio da organização social, contam os historiadores, toda a atividade econômica era baseada na simples troca: uma vaca por alguns sacos de cereal, uma carroça por sacos de sementes, um pedaço de terra por um cavalo forte e bom de trabalho.

27/09/2017

Goebbles tinha razão

Joseph Goebbles
Uma mentira repetida um sem-número de vezes vira uma verdade incontestável. Que o diga Paul Joseph Goebbels, proeminente Ministro da Propaganda de Adolf Hitler, que parafraseio na introdução desta crônica. Com forte poder argumentativo, o político alemão percebeu que as pessoas são manipuláveis e que a propaganda é a arma e a alma do negócio. Naqueles tempos, quando nem o mais visionário dos loucos poderia antever um mundo todo conectado por uma rede que despeja milhões de informações por segundo, Goebbels usou os meios disponíveis: o rádio e o cinema. Com estas ferramentas, abusou do discurso de ódio contra os judeus e contra as ideias socialistas, dando força ao pensamento de superioridade da raça ariana.     
Quem tem como única fonte de informação os meios virtuais nos dias de hoje, pode constatar que Goebbels venceu. Sim: a mentira prepondera. Nem sempre salta aos olhos. Às vezes aparece disfarçada. Parece alguma salada que se consome até por indicação médica, mas, que, lá na origem, vem embalada por fortes doses de agrotóxicos, lançados por insuspeito agricultor mais interessado na beleza das folhas do que na qualidade efetiva do produto. A lagarta morre. A planta sobrevive. Mas, o veneno vem para a mesa. A saúde claudica ao longo do tempo. Porém, o dinheiro já circulou, gerou impostos e empregos. O mercado ficou satisfeito. E tudo parece que estava certo. Mas, não tava.

20/09/2017

Nossas façanhas

Gaúcho, na visão de Debret, século XIX
Houve um tempo em que boa parte do povo gaúcho desfilava com muito orgulho e animação. Aos olhos dos que aqui viviam, este pedaço de terra parecia destoar decisivamente do que se via nas estância localizadas acima do Mampituba. Era comum que se sentisse certa pena do pessoal lá de cima, eis que foram privados do paraíso. Repetiam-se, com alguma exaustão, nos encontros classistas que o Rio Grande detinha a melhor polícia, o melhor judiciário, os melhores políticos e assim por diante.
Alguns afoitos, talvez impulsionados pelos sentimentos de superioridade e pelo ímpeto de gabolice que sempre imperou por aqui, sentiram-se atraídos pelas teses separatistas. Há algumas décadas movimentos como o Sul é o Meu País eram levados a sério. Santa Catarina e Paraná não se entusiasmaram tanto. Os gaúchos ficaram tentando incluí-los sem sucesso. Enquanto isso, os dois estados vizinhos avançaram e a gauderiada ficou para trás. Teve, como se diz popularmente, um crescimento de rabo de cavalo: para baixo.