27/09/16

O Sol

Era pequeno ainda. Talvez não tivesse completado  a primeira dezena de anos de vida. Nas horas vagas, nos dias em que não havia aula, nas férias, feriados religiosos e no turno inverso, desde que o sol brilhasse e as nuvens não fossem carregadas, vivia fazendo pequenas incursões pela mata. Não transitava por estas florestas de mundo mágico, cheias de duendes e outras criaturas que só fui conhecer nos livros de histórias. Eram matinhos próximos de casa.
Eu e meus amigos formávamos pequenos exércitos de exploradores. Na verdade o exército se resumia a dois ou três corajosos soldados que avançavam decididamente com o intuito de reconhecer o território e conquistar tudo o quanto fosse possível. Apesar da audácia, mantínhamos algum cuidado. Não era medo. Era precaução. Cuidávamos para que nossos pés com o indispensável atrito com o terreno não gerassem ruídos exagerados e espantassem os animais selvagens, que porventura estivem por ali ao alcance de nossas flechas e lanças.  Como estes bichos são ladinos e precavidos jamais ousaram se colocar na nossa mira.
Vez por outra, entre ervas santas, baleeiras,malhas de cana cidreira, pés de cactos,  goiabeiras, limeiras e  outras tantas espécies, pequenos filetes de raios de sol formavam painéis surpreendentes ao longe. Não foram poucas as vezes que me surpreendi olhando longos minutos para aquelas projeções que, em alguns momentos, bem que pareciam cortinas que escondiam outras dimensões. Não era incomum naqueles tempos imaginar que se avançasse um pouco e cruzasse  aquela fina cortina de luz, chegaria a alguma existência muito diferente. Não haveria por ali as dores e os sofrimentos que aquela gente da vila, tão pobre e desassistida, vivenciava nos seus melhores e nos seus piores dias.  Não por medo, mas porque minha mãe sempre alertava que devia estar esperto e não devia inventar nenhuma estripulia ou loucura, sempre achei por bem somente olhar o espetáculo e não participar dele.
Imaginava que o sol era o único que brilhava. E que aqui na Terra nós, os sortudos, escolhidos pelo Pai, formávamos uma comunidade ímpar. Engano, ingênuo engano, garoto! Há milhões de sóis só nesta galáxia. Milhões, me disseram, dezenas de anos depois. E há milhões de galáxias espalhadas por um território bem maior do que nosso matinho, onde as feras se escondiam de nossas flechas e lanças.  E mais: alguns juram que há milhares de janelas que se abrem de vez em quando tal qual as cortinas de luz que se projetavam na frente dos meninos entre os arbustos e as árvores mais frondosas há algum tempo atrás.
Porém, contam por aí, sem alarde,  porque pode parecer coisa de maluco, que vai ser necessário voltar a ser menino de novo para que se abram estas janelas que levarão os bravos exploradores para os caminhos onde a água é límpida e os raios de sol energizam os corpos que não pesam tanto e não são aprisionados pelos pesadelos de nosso tempo.

    *    Enquanto isso, um carro de som passa aqui pela frente. Vai alardeando  a propaganda de um candidato a prefeito. Promete um mundo melhor para os cidadãos. Nem o mais ingênuo dos meninos acredita nisso.  

15/09/16

Os Mundos

Quando estávamos nas cavernas, o mundo era pequeno. A bem da verdade, era o mundo grande lá fora, mas, os animais que tomavam conta do planeta eram maiores e  mais ferozes. Convinha manter-se perto do esconderijo. E o que os olhos não enxergavam era como se não existisse. E os olhos pouco viam.  
A segurança vinha em primeiro lugar. Era questão de vida ou de morte. Os descuidados eram punidos. E ficar por aí explorando os arredores era coisa para poucos. Assim, o grande mundo se apequenava. Os donos eram outros. Os limites eram impostos pelo tamanho dos dentes, das garras e pela intensidade da fome.
Com o aparecimento do fogo, da lança e de alguns instrumentos rudimentares, mas, eficazes, o nosso mundo foi crescendo. Num dado momento, quando as cavernas já eram coisas do passado, os limites era outros. O frio excessivo em alguns lugares, a falta de alimentos em outros, a seca e outros inimigos contra os quais as armas eram bem pouco eficientes.
Não se sabe ao certo, mas em determinada era, os homens deixaram de se preocupar com as feras e com as variações de climáticas. Começaram, então, a lançar olhos pelas coisas que os outros homens, agrupados em pequenas tribos, faziam. E o olhar de cobiça foi crescendo. E as tribos, então, entraram em lutas para conquistar aquilo que não tinham. Valia tudo: terras, plantações, animais, mulheres, meninos e meninas para servirem de escravos.  Valia a pena sair por aí, por esse mundo enorme e sem fim, conquistando tudo o que se pudesse. 
Algumas dessas tribos criaram seus deuses e os homenageavam com tudo o que tinham pilhado no campo do inimigo. E deram a isso o nome de vitória. Acreditavam mesmo que seus deuses vibravam quando o corpo do inimigo caia sangrando na terra.  Sentiam mesmo que seus deuses os abençoavam. E a benção crescia na medida em que as vitórias se acumulavam. Assim, chegou um tempo em que não havia como não guerrear. Os deuses assim queriam. Era uma questão de fé.
Porém, toda a brincadeira por melhor que seja um dia cansa. Guerra, vitória, fé. Tudo isso misturado começou a não fazer mais sentido. E alguns aqui e acolá começaram a falar que os inimigos não estão lá, na outra tribo. Que os deuses nem no céu estão. Que os troféus de guerra são inúteis. E de loucos foram chamados. E disseram mais: que os inimigos do homem estão dentro dele mesmo e que cada ser carrega também dentro de si algo de divino.  E isso soou engraçado porque todo o mundo sabe que imperfeito é. Criou-se um problema, que alguém chamou de paradoxo. Se o indivíduo é imperfeito e o Criador não é, como pode o imperfeito carregar o perfeito dentro si?
Mas um sábio, que nem chinês era, levantou e disse que o homem deve buscar o autoconhecimento mergulhando nas suas entranhas, encarando seus ácidos e seus açúcares.  A partir daí, criando um novo ser. Como diz a gurizada: “tipo nascendo de novo”. Aí estaria o sujeito agindo como um deus, criando um ser melhor do que aquele que vinha claudicante pelo mundo afora. E este novo ser enxergaria o mundo com outros olho, pois a visão que tinha ficou lá atrás.

12/09/16

Fatos e opiniões

Cada ação, cada acontecimento é um fato. A vitória da seleção na Olimpíada é um fato. A derrota do time no Brasileirão, outro fato. Um assassinato em Porto Alegre: triste, lamentável e quase corriqueiro fato. São fatos. São coisas objetivas. Boas ou não. São comprováveis por documentos, números, gráficos, imagens e registros.
O que se ouve sobre tudo o que cerca cada fato são opiniões. É a percepção das pessoas sobre as razões, as circunstâncias, as motivações e uma série de outros institutos subjetivos sobre o fato, levando em conta o juízo de valor que cada um imprime. Então, opinião não é fato. É a versão concebida por alguém de um fato. O fato é imutável, a opinião pode ser modificada ao longo do tempo.

01/09/16

A Promessa

Fazer uma promessa, nos tempos mais antigos, era assumir uma dívida. Uma criança nascia com algum problema de saúde, às vezes somente muito mirrada e fraca, e a mãe se grudava no santo do dia: fosse João, José, Roberto, Vicente, Jerônimo, Wenceslau, Nicolau, Rosária, Regina, Aurélia ou Das Dores, não importava. Importava isso sim, que alguém, santo ou arcanjo, se sentisse homenageado o suficiente para garantir a vida daquele que nascia.
De outras artimanhas se lançavam mão naqueles dias. Uma junção de pequenos com menos de sete anos de idade ao redor de uma farta mesa (quando possível). Era a mesa dos inocentes, uma forma de honrar uma graça recebida. Comida para encher os olhos e as barriguinhas da gurizada.
Outros criavam compromissos como não cortar o cabelo da criança por um determinado período ou vesti-la invariavelmente de branco nas missas ou coisas neste estilo.  E ai de quem quebrasse o pacto. A promessa era uma dívida e deveria ser paga, sem lamentações nem arrependimentos. Pagar a dívida é o mínimo que se esperava.

24/08/16

A Mentira

A mentira tem pernas curtas, diz o surrado e certeiro ditado popular. Por mais que ela consiga viver algum tempo ostentando a sublime aparência de verdade, não adianta:  mais dia, menos dia ela desaba. E aí, azar de quem a pariu.
Por aqui, onde há palmeiras em profusão onde os sabiás cantam, somos levados a crer que a mentira é uma instituição nacional. Até certo ponto pode-se dizer que é correto. A mentira anda para cima e para baixo. Vai de Norte a Sul, de Sul a Norte neste reino verde e amarelo, fazendo estágios prolongados pelo Planalto Central, tornando aquele ponto quase como sua morada preferida.
Mas, a bem da verdade, não podemos desconhecer que a danada da mentira é, isso sim, uma instituição internacional. Ela está no meio dos mais pobres, mas também anda de mãos dadas pelos mais altos escalões. E não é capaz de distinguir o público e o privado.

19/08/16

O Componente Místico

Do lado de tudo fica tão fácil. O brasileiro vinha bem. Faltava pouco. A medalha já se insinuava no quadro. Mas, faltou um pouco de concentração. E ele foi perdendo fôlego. E os de trás foram passando. E nosso representante caiu. Era uma vitória certa. Tivesse um pouco mais de capricho, de garra, de determinação, de esforço. Ou de treinamento, mesmo. 
Do lado de tudo fica tão fácil. O jogo está pegado. Os atacantes perdem chances incríveis.  O treinador também não colabora. Escala o time muito mal. O esquema não funciona. A arbitragem também não está muito atenta. Não marca falta. Deixa o jogo andar. No fim, a culpa é de todo o mundo.  A culpa é da diretoria que contratou errado, que escolheu o treinador inexperiente, que não renovou o contrato de alguém, que não contratou outro. O time despenca na tabela. E o campeonato nem é tão difícil assim. Parece que falta um pouco de raça, de gana, de determinação.
Do lado de cá tudo fica tão fácil. Bastava investir um pouco mais no esporte. Dinheiro tem. Aí estaríamos lá em cima no quadro de medalhas. Daria até para protagonizar uma disputa com os EUA e a China. O governo não ajuda, também. Só recolhe impostos e não dá nada em troca. As soluções estão aí. Basta querer.

15/08/16

Sócrates e Galvão

A impressão é de que todos nós estamos
sobre um solo rico em pedras preciosas.
 Porém, não há como saber onde elas estão.
Filósofos, místicos, religiosos e curiosos de todas as tribos vêm dedicando algum tempo na análise da existência humana. São alguns milhares de anos de perguntas, respostas e conclusões parciais. Para cada resposta dada, novas questões vão surgindo. Ciclos e mais ciclos vão sendo criados sem que seja antevisto algum fim possível. Há conclusões definitivas, é claro! Mas, o tempo vai passando e o definitivo vai ficando para trás. 
Quais as finalidades da existência? Onde isso tudo leva? Qual a contribuição de cada um neste processo?  Qual a importância do indivíduo? E do grupo? As questões são infindáveis tanto quanto são as teorias existentes.

27/07/16

O Macarrão

Julius Moser - 1808
Um dos grandes dilemas da humanidade é o da origem do macarrão. A versão mais popular é a de que Marco Polo, o viajante veneziano, em suas andanças pelo reino mongol-chinês, protegido pelo grande Kublai Kahn, frequentador dos grandes banquetes servidos por seu senhor, teria tomado gosto pela coisa. A iguaria, feita a partir do milheto, se tornou uma espécie de preferência do italiano. Quanto retornou à sua terra natal, 17 anos depois de conviver com os mandos e desmandos de Kahn, Polo ditou suas aventuras para um amigo escritor (que como ele se encontrava preso). Consta que o amigo era criativo ao extremo e recheava as aventuras de Marco com algumas pitadas a mais de emoção. No calor da narrativa teria supervalorizado encontro de Polo com a massa chinesa, como se fosse algo inédito mundo culinário. A história foi repetida inúmeras vezes e oito foi criado.   
Porém, segundo muitos pesquisadores apaixonados pelas massas italianas, a história de Marco Polo ter trazido a receita da massa da china é pura invencionice. Para alguns foram os árabes que trouxeram a receita para a Sicília, sul da Itália, por eles conquistada, o século 9. Há quem afirme peremptoriamente que desde o Império Romano, a Itália já conhecia a fórmula de misturar água, farinha de trigo e vinho branco.  A massa depois era esticada em longos e finos fios e colocada a secar ao sol e ao vento pra melhor se conservar.
O molho mais simples e não menos apreciado que acompanha o macarrão também tem uma origem bem curiosa. Segundo consta, os tomates foram levados do Peru para a Europa. Porém, como a fruta foi cozida junto com as folhas, as primeiras experiências ocasionaram intoxicações coletivas, sendo proibida sua produção. Anos mais tarde, um cozinheiro napolitano separou somente as frutas e produziu respeitável molho que superou a desconfiança de todos e se tornou uma referência apreciada em todo o planeta.
Presente em cardápios de restaurantes em todo o mundo, o macarrão com molho à bolonhesa reúne o molho de tomate e carne bovina moída. No entanto, em Bolonha, na Itália, não se encontra o tal prato. Eles acham o molho processado, de caixinha ou lata, um atentado à culinária e uma difamação à sua terra. E, talvez, tenham razão. O molho deles leva cenoura, bacon, vinho, leite e outros ingredientes. A massa deles também não é a fininha, mas sim achatada. Eles levam esta história tão a sério que até congresso foi realizado para discutir o assunto e hoje a Câmara do Comércio de Bolonha é detentora da patente do legítimo ragu alla bolognese. 
Independente de quem descobriu o macarrão, se foram árabes, chineses ou italianos,  a massa hoje faz parte do dia a dia do brasileiro e de todos os povos da Terra. Como por aqui a criatividade toma conta, que diriam os italianos mais tradicionalistas da ousadia de alguns dos nossos em consumir suas sagradas massas lado a lado com o feijão nosso de cada dia? 


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