30/01/2019

A Terra é Plana



Vivendo e aprendendo. O Brasil na vanguarda, de novo. Agora por retomar teorias já vencidas, abandonadas. É tempo de coisas novas e, às vezes, de passar um pouco de vergonha, também. Sobre o desafio de vencer os mares e cruzar a Terra escrevi esta crônica há uns anos atrás, mais precisamente em 2014. Jamais imaginei que fosse reeditá-la. Coisas da vida. Coisas de um novo tempo que, muitas vezes, nos joga de volta à Idade Média.


O Navegante

A Terra é chata. É plana. Quando os limites dos mares findarem, as embarcações cairão num profundo fosso e daí jamais voltarão. E com elas se vão os homens, sua coragem, seus sonhos e seus projetos. Não adianta desespero, não adianta luta nem qualquer reação. A verdade é essa. E ponto final.
Outros diziam que quando as águas rareavam, monstros gulosos levantavam-se e abriam suas bocas enormes e, sem esforço, engoliam todas as embarcações. Adeus navegação, adeus homens, adeus vida. Enfrentar as águas rudes do mar nos tempos antigos era uma viagem sem fim. Sem glória, sem qualquer possibilidade de vitória. Era a viagem definitiva, sem qualquer possibilidade de apelação. Era quase uma pena capital. Um suicídio que só os loucos e os desequilibrados poderiam cometer. Navegar era desprezar a vida. Era correr para a morte. Era entregar a alma aos monstros e daí jamais ser resgatado.

25/01/2019

O Rádio


O rádio de tempos atrás era muito diferente. Por aqui, na aldeia, a programação local por muito tempo esteve baseada na música e nos apresentadores. Lá pelos anos 70, liam-se cartinhas com pedidos musicais. “Janaína da Baixada oferece a próxima página musical para seu noivo Leopoldo”. Página musical, no caso, era uma canção, uma música. A própria locução era mais solene. Alguns tratavam seus ouvintes de dileto ouvinte. Em alguns horários, as propagandas eram destinadas à dona de casa, pois o homem saia para trabalhar e o rádio entretinha a mulher, responsável pelas lides domésticas.
No interior, demorou até a interatividade migrar do papel das cartinhas e dos bilhetes para a linha telefônica. Ocorre que telefone era coisa rara, um produto muito caro suportado somente por empresas e profissionais liberais de reconhecida capacidade financeira. Com o surgimento dos orelhões, telefones públicos alimentados por fichas, a comunicação entre o rádio ouvinte e o apresentador do programa ganhou em dinamicidade. O desafio era reduzir o chiado e tornar a voz do participante um pouco mais audível.

10/01/2019

Andam dizendo por aí


Gatos caem do telhado – Os felinos são fortes, lépidos, rápidos, espertos e ágeis. Na linguagem popular, dizem que os domesticados, notadamente os gatos, contam com sete vidas. É crença antiga, é claro, despudoradamente falsa. Os bichinhos são sensíveis. Mudanças são um pesadelo para eles. E, tanto quando nós, morrem um dia independentemente de seis outras possibilidades. Outro pensamento popular é de que os gatos não se machucam na queda. Apesar da agilidade, caem do telhado. Machucam-se. O conhecimento popular construído através do achismo e da primeira impressão, em regra, encontra-se muito distante da realidade científica.

Todo o poder emana do povo – Pensamento basilar da democracia e princípio constitucional pátrio, a assertiva é uma dessas pérolas que encantam nos discursos dos políticos e enchem de orgulho quem ouve. Faz bem ao ego acreditar que realmente o poder é do povo. Mas, não é bem assim. O poder do povo está em eleger. Feito isso, babaus. O eleito, bom ou ruim, de centro, de direita ou de esquerda, arrogante ou simpático, honesto ou nem tanto, está autorizado a governar como quiser. Isto porque, os votos recebidos são uma espécie de salvo conduto. O povo vota, mas não governa. A menos que se alie e crie exércitos de defensores que têm como papel básico combater qualquer crítica, qualquer citação ou mesmo qualquer manifestação de humor nas redes sociais.

A igualdade – Todos são iguais perante a lei. É outro desses princípios tão belos quanto ineficazes. Num mundo ideal talvez fosse a grande lei. A igualdade de todos os seres abaixo da luz solar. Os budistas pensam assim. Quem conhece o templo de Três Coroas bem sabe que há plaquinhas alertando os visitantes sobre os carreirinhos das formigas. Pedem respeito à vida das formiguinhas porque elas também são seres dignos de respeito. Porém, mesmo quem se dedica a lançar olhares encantados aos corpos celestes reage com algum furor de estiver em cima de um formigueiro. Lá se vai o respeito ao ser criado pela Perfeição.

Racionalismo – O racionalismo, se levado ao extremo, é capaz de eliminar em muito o impacto das ideias. O debate próprio de quem pensa, que se estabelece após o surgimento de uma ideia, talvez tenha o poder de reduzir o impacto daquilo que aparece através da intuição. Muitos artistas, escritores, pintores, acordam na madrugada quando surge alguma mensagem intuitiva. Jogam-se sem pensar no trabalho. Nem tudo vira obra de arte, é claro. O Rolling Stone Mick Jagger disse, certa vez, que ouve algumas músicas compostas por ele mesmo e nota que a peça não veio de seu cérebro. Não sabe de onde surgiram os versos, as notas, os arranjos. Acha tudo isso muito estranho porque não encontra uma explicação para o fenômeno. Agora nem busca mais uma resposta. É isso jovem Jagger: nem tudo o que ocorre por aqui tem uma explicação racional. Ou tem?