11/06/2019

O Método da Informação


Boa parte dos meus amigos e conhecidos tem optado por garantir uma certa distância das redes sociais. Eventualmente postam uma ou outra coisinha para não cair no esquecimento total neste mundo chamado apropriadamente de virtual. Fenômeno decantado como a expressão mais vívida da democracia, não é menos verdade que as ferramentas virtuais, como o Facebook, Twitter e outros da mesma corrente, às vezes, se prestam mais a escancarar o alto grau de ignorância e truculência dos nossos tempos do que a tarefa primordial que é conectar as pessoas.
Por óbvio que é não é culpa do meio, mas de quem o utiliza. A bem da verdade, é lícito que se declare que esse uso equivocado do processo de comunicação não é uma característica do nosso povo. Não é exclusivamente retrato de nosso atraso, de nosso atavismo, de nossa falta de cultura e de traquejo social. A falta de etiqueta, de compromisso com a verdade é mundial. Claro, isso não absolve quem usa este meio para atacar, para difundir o ódio, para reafirmar os preconceitos contra grupos sociais ou defender ideias políticas ou políticos notadamente ignorantes ou mal-intencionados.

03/06/2019

Quero-quero, a mula sem cabeça e outros bichos


Aqui perto há um terreno baldio na esquina. Outro grande logo ali. Por aqui há também algumas áreas grandes com gramado e bem arborizadas. Ainda que esteja chovendo um pouco, os pássaros são insistentes. Pelo pouco que conheço, noto que há sabiás, pardais e quero-queros ocupando o mesmo território. Não são os pingos da chuva que os colocam a descansar. Na hora em que escrevo um verdadeiro alarido de sons vai tomando conta do ambiente. Parece que cada pássaro quer ser ouvido mais longe. Se estão dialogando falam línguas distintas. Como cantam com decisão estes pequenos.
Contam os mais entendidos sobre o costume dos pássaros que um deles, o quero-quero, coloca-se a cantar longe do ninho para afastar os invasores e garantir a segurança dos filhotes. Serzinho inteligente, faz um alarido com se o ninho estivesse por ali prestes a ser invadido. Dá rasantes, canta desesperadamente demonstrando sua ira e sua determinação. Às vezes, conta com a solidariedade de um ou outro que se junta no intuito de atacar com mais insistência e efetividade o ameaçador. É conhecida a sua ferocidade, especialmente pelo esporão que apresenta na ponta das asas. Acuado, torna-se um gigante, apesar de medir algo em torno de 37 centímetros e pesar insignificantes 280 gramas.
Por ser um defensor intransigente de seu território, o quero-quero foi adotado como símbolo do Rio Grande.

A eleição na floresta

O reino animal também fez sua eleição. Faz pouco tempo. Eleição igualzinha a essas que vez por outra vivenciamos por aqui. Dizem que a floresta virou um zum zum zum. O contato era direto e reto. Não havia horário eleitoral na tevê, pois nem tevê existia por lá. Pesquisas então nem pensar. As notícias verdadeiras se misturavam com notícias falsas, com boatos e coisas e tals. Um horror jamais visto por aqui. Os candidatos corriam de um lado a outro apresentando propostas absurdas e prometendo vantagens a estes e aqueles.
O processo seguiu por um bom tempo. Ninguém tinha certeza de nada. Nem debate havia. Assim, ficava difícil ouvir da boca ou do bico do candidato o que ele realmente desejava fazer. As corujas, conhecidas por guardar a sabedoria do local, ficavam preocupadas com a falta de profundidade do processo. Era tudo muito raso. Era tudo muito rápido. Suspeitavam que não daria muito certo tudo aquilo. Mas, quem deseja ouvir as corujas?
Resumindo a história: num cenário dividido, uma mula sem cabeça foi eleita causando espanto e surpresa a uma boa parte dos bichos. Logo ela, uma mula que traquejo nenhum tinha. Ser limitado e um tanto quanto ignorante, parecia o menos indicado para o momento. Mas, como o processo primou pela democracia o negócio era aceitar o resultado e torcer para que errasse o menos possível. Uma prece, uma oração, um pensamento positivo eram receitas que se ouvia também. Não resolveria a questão, mas, vai saber se as forças da natureza não influenciariam trazendo algum alento aos desalentados e algum talento à mula?
Assumiu a mula. Mas, como não tinha mesmo grande preparo em pouco tempo os bichos que a apoiavam começaram a se sentir inquietos. Tinha muita dificuldade em negociar. Era turrona. Achava que crescia na parada ameaçando este ou aquele. Comunicava-se mal. Muito mal. Dava um passo para a frente e outros dois para trás. Parecia despreparada para o cargo.
Porém, era tarde demais. O negócio era aguentar o tempo que desse. O Lobo, que tinha apoiado a mula no primeiro instante, foi um dos primeiros também a detoná-la. Estava indignado o bicho. Era visto por aí dizendo que faltava inteligência a ela e que o governo que começou já estava no fim.
A floresta estava inquieta. Havia balbúrdia por aqui e por ali. Porém, uma boa parte dos bichinhos permanecia em silêncio. Melhor nem falar. Melhor esquecer desta política. Melhor não assumir que eleger uma mula, ainda mais sem cabeça, era um despropósito.

23/05/2019

Os boatos, as fofocas e as bizarrices


Nos papos de comadre, ou de compadre, “sabe qual é a última?” era a senha para abrir o leque da conversa e, assim, deliberar sobre questões que diziam respeito à vida da mulher alheia ou das pessoas que transitavam pelo pedaço. “Não vi, mas me contaram” de vez em quando aparecia no meio da confabulação. Era como se um salvo conduto. Uma desculpa para a falta de exatidão e, mesmo, para os eventuais desvios e exageros que a notícia primitiva poderia conter. Não havia, ainda, naqueles tempos, esse fenômeno da rede social. Assim, as notícias da comunidade eram repassadas de boca a boca. Em regra, os fatos iam ganhando interpretações mais ou menos maliciosas, detalhes eram acrescidos conforme a disposição dos comunicantes e o fato, muitas vezes, era mero arremedo da sua versão final.

17/05/2019

O Reino da Mixórdia


"...só queriam um pouco mais de justiça e hoje enxergam que assinaram um cheque em branco e que a conta será muito mais salgada do que a anunciada".

O Brasil já vivenciou alguns episódios de mal-estar e constrangimento no passado. Na história recente, a posse de José Sarney como presidente é um desses fatos. Para os mais jovens, é claro, faz-se necessária uma explicação. Tancredo, que vem a ser tio-avô de Aécio Neves, era um político mineiro que concorreu à presidência numa eleição indireta, onde só votavam os congressistas. Naqueles tempos, o povo era alijado de votar diretamente. Este direito de escolher o presidente cabia aos deputados e senadores que, em regra, referendavam o general de plantão escolhido pelo presidente general ou pelo partido do tal militar.Sei que este papo histórico é um tanto chato. Insistir nesta toada de explicar tudo direitinho parece ser daqueles erros imperdoáveis a um cronista. Continuando assim e metade dos leitores vai jogar o jornal para o lado ou seguirá adiante fazendo coisas bem mais interessantes. Então: corte na história e vamos em frente. O congresso elegeu Tancredo tendo como vice José Sarney, um aliado do regime militar, escritor casual e, talvez por carteiraço, membro da Academia Brasileira de Letras, com a significativa obra Marimbondos de Fogo. Pois, a ironia do destino venceu de 7 a 0, tal qual a Alemanha fez há algum tempo. Tancredo ganhou. Mas, não assumiu. Morreu antes. O fato gerou uma comoção nacional. Mílton Nascimento e seu Coração de Estudante embalaram os atos fúnebres. A impressão era de que toda a esperança do povo estava sendo enterrada junto. Sarney, que não venceria, acabou presidente.

09/05/2019

Intrigas palacianas


“Os piores inimigos são os que aplaudem sempre.”
Tácito, historiador romano.

Boa parte da história romana nos chega pela pena de Tácito. Sensível, estiloso, atento, o escritor esculpia a história misturando à prosa um pouco de poesia. Descrevia com presteza e atenção o cenário do poder. Naqueles tempos, como nos dias atuais, os bastidores decidiam. As tramas familiares, com assassinatos providenciais para limpar o campo do processo sucessório, as intrigas políticas, com as falsas acusações sobre os opositores que geravam falsos julgamentos com penas verdadeiras, presenteavam o reino com governantes ilegítimos. Chegava-se ao poder através do sangue e da articulação política. A adaga, a espada e a forca eram argumentos políticos dos mais utilizados.

02/05/2019

Ler, escrever e fazer contas

Sala de aula antiga

Meu avô era um homem rude. Viveu num tempo em que conforto existia somente para os ricos. Iletrado, consumiu a vida nas lides mais insalubres que se tinha na época. Enfrentava o frio e o calor na pesca, na lavoura, cuidando de uma ou outra criação. Eram dias difíceis. Tinha umas terrinhas. Mas, terra naquela época nem valor tinha. Um eito dava para trocar por uma junta de boi, por um cavalo magro, por uma carroça ou uma carreta.
As escolas eram distantes. Os mais aplicados subiam no lombo de um matungo e viajavam por entre matos seguindo trilhas e caminhos precários, passando por sangas e riachos. Nos dias de intempérie ir a aula estava fora de cogitação. Estudar era um luxo. Cresciam conhecendo poucas letras, quando muito as que completavam o próprio nome, e alguns números. Operações mais complexas ficavam para os mais letrados.

26/04/2019

A Santa e o General


Sucedi Luiz Henrique Benfica na produção do programa Olho Vivo, da Rádio Osório. Era a maior audiência da emissora. Na realidade, continua até hoje sendo um referencial no radiojornalismo da região. Por ali o litoral norte se comunicava. Osório, Capão da Canoa, Tramandaí, Palmares do Sul transitavam pelas ondas da rádio. Num tempo em que só havia telefone fixo o trabalho era penoso. As entrevistas eram agendadas no dia anterior. O chiado na linha telefônica por vezes inviabilizava o bate papo. Pedro Farias, diretor da rádio, apresentava o programa.
O grande desafio era conseguir entrevistados para o sábado pela manhã. As prefeituras encontravam-se fechadas, as câmaras de vereadores também. Naqueles tempos os sábados eram mais preguiçosos. As autoridades, que normalmente eram ouvidas durante a semana, descansavam naquele dia. O esforço era grande para encaixar alguém que tivesse um bom papo para preencher os espaços que se tornavam cada vez maiores. Às vezes a vítima escolhida demonstrava pouca intimidade com o microfone e a entrevista minguava. Era um desespero pegar o telefone e ligar para deus e o mundo, acordando uns que se negavam a falar ou, ainda, ouvindo pacientemente o telefone chamar sem resposta até final no tradicional puc puc puc .
Certa vez o Pedro saiu de férias. Pegou uns dias para descansar. Fiquei responsável pela produção e apresentação do programa a semana toda. Gastei todo o repertório. Sexta-feira, no final da tarde, bateu o desespero. Era verão e ninguém estava disponível. Fiz uma verdadeira ronda e nada.
Mas, havia sempre uma carta na manga. E a carta era ouvir um historiador para falar sobre o passado da cidade e da região. Uma entrevista leve. Convoquei o dr. Guido Muri, historiador e entusiasta pela vida osoriense, que vez por outra salvava o programa. Era conhecida sua posição contrária à mudança do nome da cidade. Acreditava que Osório deveria retornar ao antigo nome Conceição do Arroio. Criticava o ato arbitrário do governo do Estado que, em 1934, através de um decreto e sem ao menos consultar os cidadãos, abandonou a santa e homenageou o militar. Isso, segundo ele, de algum modo contribuía para que a cidade vivesse na míngua, sem crescimento econômico e progresso.


De conceição do Arroio para o Mundo

A Rádio Guaíba e o Correio do Povo mantinham no período de verão um repórter para acompanhar as notícias da Orla Gaúcha. Waldomiro de Oliveira, de voz suave, agradável e dicção limpa, era o responsável pelos boletins e textos. Pois, na segunda-feira, após a manifestação do dr, Guido Muri, o Correio publicou uma pequena e curiosa nota destacando o “movimento pela mudança de nome da cidade”. Aventou-se a possibilidade de realizar um plebiscito para ouvir a comunidade. Não sei ao certo se foi por causa disso. Porém, pouco tempo depois, Pedro voltou aos microfones e nervosamente enterrou a tese.

Crônica publicada no Caderno Mundo das Ideias, em 25.04.2019, encartado no Jornal Bons Ventos.

17/04/2019

O Complexo de Vira-Latas

Barbosa, goleiro brasileiro
 na Copa de 50

A Síndrome do Cachorro Vira Latas ou Complexo de vira Latas foi diagnosticada pelo dramaturgo brasileiro Nélson Rodrigues. Ela atinge o imaginário da população brasileira que tende a acreditar que tudo o que se produz por aqui, tudo o que se faz neste pedaço de chão não apresenta a mesma qualidade do que é feito lá, nos países mais desenvolvidos. Inconscientemente transita a informação de que há um débito permanente que persegue o povo tupiniquim. Assim, se justificam expressões como “isso é Brasil” dita, invariavelmente, depois de algum deslize cometido por autoridade do governo ou mesmo por algum cidadão imperfeito.
Obras inacabadas, políticas públicas capengas, lideranças despreparadas, carências estruturais, dificuldades a torto e a direito são algumas das coisas mais do que corriqueiras registradas por aqui com alguma insistência, o que de certo modo colaboram para que a população carregue permanentemente este sentimento de inferioridade. Paralelamente, somos acossados por ideias nem sempre precisas de que no restante do mundo as coisas funcionam com maior precisão e, assim, as pessoas são mais felizes. É comum, por exemplo, sair da boa de alguém que jamais cruzou o Rio Mampituba afirmações de que “lá nos EUA não é assim” ou “na Europa essas coisas não acontecem”. Às vezes ocorre coisa pior.

12/04/2019

O Mundo de Esopo



"Ao procurar socorro convocando os deuses é bom também fazermos nossa parte."

O que se espera de um escravo liberto, corcunda, quem sabe de pouca saúde? Muito pouco, diriam alguns. Quase nada, diriam outros.
De origem controversa, africano segundo alguns, egípcio segundo outros tantos ou, ainda, ateniense, Esopo é um destes personagens nada convencionais. Muito antes de Walt Disney construir um império a partir da voz de um camundongo, Esopo, escravo de um filósofo chamado Xanto, de Samos, colocava na boca de animais lições de moral que, depois, tornaram-se peças populares e foram se perpetuando até os dias de hoje.
Citado pelos grandes filósofos como Platão e Aristófanes, Esopo sobrevive através de suas fábulas contadas e recontadas por La Fontaine e por tantos outros em quase dois mil anos de história. A Raposa e as Uvas, O Lobo e o Cordeiro, A Cigarra e a Formiga, a Galinha dos ovos de ouro são algumas dessas fábulas que se perpetuaram ao longo dos tempos e, por isso, muitas vezes nem ao menos são creditadas ao seu autor.

08/04/2019

O patriotismo e os professores de história


Ao contrário do que se imagina, o brasileiro é um indivíduo que sabe valorizar sua pátria. E esse patriotismo sempre esteve relacionado às conquistas. Jamais com governantes. Jamais quando se sente obrigado. Nos anos 80 e 90 o Brasil era só festa e reverência à sua bandeira e ao seu hino. Ayrton Senna, Nélson Piquet, o vôlei, o basquete, a vela traziam alegria e satisfação. Nem o mais tosco deixava de se emocionar quando a bandeira subia se destacando ao lado de potências esportivas. Fórmula 1, natação, Daiane dos Santos e seu salto duplo twist carpado, o Manezinho Guga e suas tacadas certeiras, Brasil nas copas sem tantas firulas, dando gosto de ser ver. Era orgulho puro. Não havia necessidade de major, de general, de governante dizer nada. A alegria contagiante valorizava o país. As pessoas deixavam o coração falar. Sem memorandos internos, sem ordens, sem circulares.

28/03/2019

Os homens e os deuses

Monte Olimpo - representação
 de Zeus na Grécia Antiga

Os maçons chamam-no de Grande Arquiteto do Universo. Os indígenas de o Grande Espírito. Os judeus são proibidos de dizer Seu nome. O Inominado é, então, substituído pela expressão Adonai, que significa Senhor. Alá é o deus dos Árabes. Há vários títulos também atribuídos ao Criador dos mundos, do tempo e de tudo o que há, o que haverá e o que houve. Elohim, Elohá, El Shadday, Yhwh/Yahweh/Jeová são algumas das designações religiosas para o Criador poderoso e forte.
Já Xuxa Meneghel, há algumas décadas, preferia tratá-Lo como o Cara lá de Cima. Isso fez com que ela permanecesse no centro de algumas teorias conspiratórias enquanto fez sucesso. Tratar a divindade desta forma tão íntima e desleixada, tão desrespeitosa e arrogante, revelava que a loira tinha selado um pacto com o inimigo. Esse pacto, segundo as teorias mais malucas, faria com que ela fosse impedida de todas as formas de tratar a divindade como deveria. Caso ela claudicasse, perderia todo o sucesso e a dinheirama que amealhou ao longo de sua carreira exitosa. O Capeta estaria por trás de tudo isso. Só ele poderia garantir que uma artista que não sabia cantar fizesse tanto sucesso como cantora, que não sabia atuar fizesse tantos filmes.

20/03/2019

O perigoso mundo dos remédios


O pensamento até que tem alguma lógica: surge uma doença, pesquisadores analisam o caso, laboratórios investem pesado e desenvolvem um remédio. Uma revista científica publica o trabalho assinado por um escritor. O médico receita a medicação. O paciente toma. E a doença vai embora.
Assim deveria ser. Porém, nem sempre é assim que ocorre. Existem inúmeros alertas de que esta tabelinha entre doença, pesquisa, desenvolvimento de medicação e cura não se estabelece como deveria. O mais contundente deles é de Robert Whitaker, jornalista americano, escritor especializado em medicina e ciências, que publicou quatro livros sobre o tema e venceu inúmeros prêmios de jornalismo nos EUA. Segundo ele, a indústria farmacêutica investiu na relação com a psiquiatria e o que se vê hoje é uma sociedade altamente medicada e sem uma resposta positiva para os transtornos que atingem o ser humano.

14/03/2019

A caça e o caçador – A lei da selva


É da natureza dos animais a luta pela sobrevivência. Nas florestas que restam em todo o planeta, notadamente cercadas e mantidas por governos como reservas biológicas, é normal a luta encarniçada das espécies para matar a fome e prosperar até o dia seguinte. Não há dó nem piedade. Um leão ou um leopardo não viverão dramas existenciais quando avistarem um filhote de gazela disperso de sua manada e, portanto, indefeso. A graça e a beleza se vão para sempre. Restam pedaços de carnes e ossos trucidados por dentes fortes e engolidos por uma boca faminta.
Entre os homens civilizados, cultos e pretensamente conhecedores das razões da existência esta ação natural que acomete todos os seres bem que poderia ficar ao largo. Mas, vez por outra, essas guerras animalescas bem que tomam conta da realidade humana.

26/02/2019

Sobre memes e vírus


Os meios de comunicação influenciam sobremaneira na forma como as pessoas se manifestam no seu dia a dia. Há algumas décadas, a informação circulava com alguma lentidão. Houve um tempo em que os maneirismos dos programas de tevê, os bordões dos programas humorísticos, eram incorporados no vocabulário da molecada e mesmo dos adultos sem noção. “Vai pra casa, Padilha!”, “tem pai que é cego!”, “e o salário, ó!”, “o macaco tá certo!”, “Cacildis”, foram algumas dessas expressões criadas por humoristas como Jô Soares, Chico Anysio e Mussum que os meninos gostavam de usar no meio de suas conversas um tanto quanto despretensiosas. A ingenuidade ainda dava as caras.

A Visão da Montanha


O mundo é mental dizem os entendidos. Vão mais longe, dizendo que há uma mente inteligente por trás de tudo o que existe, do que existiu e do que existirá. Boa parte da civilização chama esta mente inteligente de Deus. É uma forma de reduzir a complexidade e tornar palpável o que não é. Ou, até mesmo de certa desídia e conformidade.
Porém, enganamo-nos todos quando cremos que a mente inteligente substitui a mente da gente. Nossa visão de mundo depende mais de nosso foco e da nossa lucidez do que da intervenção de terceiros.
Pode parecer muito complexo isso tudo. Mas, no fundo, reside alguma simplicidade por aqui. Senão vejamos: imaginemos agora, usando este atributo fantástico que é nosso cérebro (um mundo infinito de conexões que geram realidades distintas a cada um), que vamos subindo uma montanha. Olhando do sopé da montanha avista-se um horizonte. Ora, este horizonte vai sendo modificado cada vez que a marcha avança em direção ao topo. Chegando lá em cima, a escalada revelará um horizonte mais amplo. O panorama será muito diferente daquele observado do sopé.

11/02/2019

Roda Pião

Pião. Imagem: Wikipedia

Essas tragédias que vez por outra consomem vidas, comovem a todos e trazem dor e sofrimento, especialmente aos mais próximos, os familiares, em regra, apresentam pontos em comum: falta de fiscalização, relaxamento de entes públicos e privados, legislação frouxa que permite que empresários e dirigentes continuem jogando com a sorte e a demora excessiva no estabelecimento de culpados, gerando uma total garantia de impunidade.
Foi assim na Barragem de Mariana, será assim na de Brumadinho, talvez assim seja no Ninho do Urubu, do Flamengo, onde meninos sonhadores tiveram seus sonhos interrompidos por um desses “acidentes” que bem poderiam ter sido evitados. Tivesse a tragédia ocorrido no centro de treinamento do Cacimbinhas ou de um dos clubes do Acre, ainda assim, seria lamentável. Mais lamentável ainda quando se sabe que o Flamengo tornou-se uma potência econômica nos últimos anos, tendo faturado só com a venda de dois jogadores no ano passado (Lucas Paquetá e Vinícius Jr.) algo em torno 80 milhões de euros ou 340 milhões de Reais, aproximadamente.

As minas


Mina terrestre, artefato de guerra
Os dramas coletivos são capazes de inscrever no mapa locais até então desconhecidos da grande maioria das pessoas. Em 2015, Mariana, a primeira capital da Província de Minas Gerais, vinha vivendo um período de pouco destaque, muito embora a grande produção de minérios. A mineradora Samarco protagonizou um desastre com o rompimento de uma barragem matando 20 pessoas e causando praticamente a destruição do Rio Doce. Até o momento era o maior desastre ecológico registrado no país.
Agora foi a vez de Brumadinho, uma pacata cidade mineira de menos de 40 mil habitantes, vivenciar um drama ainda maior. Entre mortos e desaparecidos mais de 300 pessoas. A Vale, empresa que explora a mineração na área, lamentou muito o ocorrido. Suas ações na bolsa de valores caíram 20%, diz a manchete do jornal.

30/01/2019

A Terra é Plana



Vivendo e aprendendo. O Brasil na vanguarda, de novo. Agora por retomar teorias já vencidas, abandonadas. É tempo de coisas novas e, às vezes, de passar um pouco de vergonha, também. Sobre o desafio de vencer os mares e cruzar a Terra escrevi esta crônica há uns anos atrás, mais precisamente em 2014. Jamais imaginei que fosse reeditá-la. Coisas da vida. Coisas de um novo tempo que, muitas vezes, nos joga de volta à Idade Média.


O Navegante

A Terra é chata. É plana. Quando os limites dos mares findarem, as embarcações cairão num profundo fosso e daí jamais voltarão. E com elas se vão os homens, sua coragem, seus sonhos e seus projetos. Não adianta desespero, não adianta luta nem qualquer reação. A verdade é essa. E ponto final.
Outros diziam que quando as águas rareavam, monstros gulosos levantavam-se e abriam suas bocas enormes e, sem esforço, engoliam todas as embarcações. Adeus navegação, adeus homens, adeus vida. Enfrentar as águas rudes do mar nos tempos antigos era uma viagem sem fim. Sem glória, sem qualquer possibilidade de vitória. Era a viagem definitiva, sem qualquer possibilidade de apelação. Era quase uma pena capital. Um suicídio que só os loucos e os desequilibrados poderiam cometer. Navegar era desprezar a vida. Era correr para a morte. Era entregar a alma aos monstros e daí jamais ser resgatado.

25/01/2019

O Rádio


O rádio de tempos atrás era muito diferente. Por aqui, na aldeia, a programação local por muito tempo esteve baseada na música e nos apresentadores. Lá pelos anos 70, liam-se cartinhas com pedidos musicais. “Janaína da Baixada oferece a próxima página musical para seu noivo Leopoldo”. Página musical, no caso, era uma canção, uma música. A própria locução era mais solene. Alguns tratavam seus ouvintes de dileto ouvinte. Em alguns horários, as propagandas eram destinadas à dona de casa, pois o homem saia para trabalhar e o rádio entretinha a mulher, responsável pelas lides domésticas.
No interior, demorou até a interatividade migrar do papel das cartinhas e dos bilhetes para a linha telefônica. Ocorre que telefone era coisa rara, um produto muito caro suportado somente por empresas e profissionais liberais de reconhecida capacidade financeira. Com o surgimento dos orelhões, telefones públicos alimentados por fichas, a comunicação entre o rádio ouvinte e o apresentador do programa ganhou em dinamicidade. O desafio era reduzir o chiado e tornar a voz do participante um pouco mais audível.

10/01/2019

Andam dizendo por aí


Gatos caem do telhado – Os felinos são fortes, lépidos, rápidos, espertos e ágeis. Na linguagem popular, dizem que os domesticados, notadamente os gatos, contam com sete vidas. É crença antiga, é claro, despudoradamente falsa. Os bichinhos são sensíveis. Mudanças são um pesadelo para eles. E, tanto quando nós, morrem um dia independentemente de seis outras possibilidades. Outro pensamento popular é de que os gatos não se machucam na queda. Apesar da agilidade, caem do telhado. Machucam-se. O conhecimento popular construído através do achismo e da primeira impressão, em regra, encontra-se muito distante da realidade científica.

Todo o poder emana do povo – Pensamento basilar da democracia e princípio constitucional pátrio, a assertiva é uma dessas pérolas que encantam nos discursos dos políticos e enchem de orgulho quem ouve. Faz bem ao ego acreditar que realmente o poder é do povo. Mas, não é bem assim. O poder do povo está em eleger. Feito isso, babaus. O eleito, bom ou ruim, de centro, de direita ou de esquerda, arrogante ou simpático, honesto ou nem tanto, está autorizado a governar como quiser. Isto porque, os votos recebidos são uma espécie de salvo conduto. O povo vota, mas não governa. A menos que se alie e crie exércitos de defensores que têm como papel básico combater qualquer crítica, qualquer citação ou mesmo qualquer manifestação de humor nas redes sociais.

A igualdade – Todos são iguais perante a lei. É outro desses princípios tão belos quanto ineficazes. Num mundo ideal talvez fosse a grande lei. A igualdade de todos os seres abaixo da luz solar. Os budistas pensam assim. Quem conhece o templo de Três Coroas bem sabe que há plaquinhas alertando os visitantes sobre os carreirinhos das formigas. Pedem respeito à vida das formiguinhas porque elas também são seres dignos de respeito. Porém, mesmo quem se dedica a lançar olhares encantados aos corpos celestes reage com algum furor de estiver em cima de um formigueiro. Lá se vai o respeito ao ser criado pela Perfeição.

Racionalismo – O racionalismo, se levado ao extremo, é capaz de eliminar em muito o impacto das ideias. O debate próprio de quem pensa, que se estabelece após o surgimento de uma ideia, talvez tenha o poder de reduzir o impacto daquilo que aparece através da intuição. Muitos artistas, escritores, pintores, acordam na madrugada quando surge alguma mensagem intuitiva. Jogam-se sem pensar no trabalho. Nem tudo vira obra de arte, é claro. O Rolling Stone Mick Jagger disse, certa vez, que ouve algumas músicas compostas por ele mesmo e nota que a peça não veio de seu cérebro. Não sabe de onde surgiram os versos, as notas, os arranjos. Acha tudo isso muito estranho porque não encontra uma explicação para o fenômeno. Agora nem busca mais uma resposta. É isso jovem Jagger: nem tudo o que ocorre por aqui tem uma explicação racional. Ou tem?