11/08/11

O apaixonado grito do Homem Macaco

Ron Ely (Tarzan) e Chita

Ron Ely queria ser Tarzan. Tinha tanta vontade que leu toda a obra de Edgar Rice Burrougs. Porém, não cabia na descrição do personagem. Era alto demais, magro demais, loiro demais. Tal qual Tarzan, nunca desistiu. E, no fim, depois dos testes, ganhou o papel na série televisiva que sucesso estupendo fez nos anos 70. Era tanto empenho que dispensava os dublês. Dentes e costelas quebradas, arranhões, distensões, acidentes leves, médios e graves eram rotina no set.
Nos sábados à tarde, minutos após o episódio semanal, minha turminha – cinco ou seis meninos de nove ou dez anos, corríamos para a nossa selva no campinho da Dona Guria, na esquina das ruas Barão do Rio Branco e Pinheiro Machado. Ali, entre pés de maricás e mamoneiros, enfrentávamos animais selvagens, vencíamos rios caudalosos. Um perigo atrás do outro, oculto detrás de cada árvore, de cada moita.
 
O roteiro era sempre o mesmo. Porém, num ponto havia discórdia. Todos queriam ser Tarzan. Ninguém queira ser a Chita, a macaquinha quase mãe, nem Jai, o menino adotado pelo protagonista. A Jane, que não aparecia na série de tevê, porém, tinha uma titular permanente.  Ela, no entanto, fazia uma aparição relâmpago em nossa selva. Sua mãe vivia no seu encalço. E de sua casa berrava pela sua volta. Ficavam somente seus irmãos, todos extremamente claros, porém os legítimos representantes de nossa tribo africana. Eram os objetos de culto dos ferozes crocodilos que os atacavam sem dó nem piedade.
Um dos meus grandes amigos de infância, que não vejo há décadas, era retinto. Preto como os africanos dos filmes de Tarzan. Magro como ninguém. Porém, tal qual Ron Ely, queria ser o Homem Macaco em nossa selva. Era uma verdadeira fixação, uma obsessão invencível. De tal forma que, após discussões daqui e dali, não havia como demovê-lo do intento. Não era o mais forte, não era o mais apropriado para o papel principal. Vencia pela vontade. Sua garra e determinação cresciam ainda mais quando a Jane furtivamente aparecia no meio da selva rala que nos abrigava. Tarzan inflava de tal forma seu peito esquelético e de sua garganta surgia o grito eufórico do homem selvagem que domina a vida por ali. Seu grito primitivo revelava certa emoção, quase uma lamúria, um pedido de socorro diante de uma paixão jamais correspondida por Jane.
Nossa selva há muito sucumbiu. A clareira, onde aos domingos disputávamos renhidas partidas intermináveis de futebol, foi dividida em pequenos quintais. Os fantásticos animais que nossa memória criou foram extintos. Hoje restam casas no local. Nosso Tarzan, hoje compenetrado pastor, se encontra em outra floresta distante daqui. Talvez ainda grite apaixonadamente a plenos pulmões honesta e comovedora mensagem de fé com o fim de arrebanhar mais fiéis à sua crença.  
Dia desses, por acaso, cruzei por Jane. Enquanto dirigia meu carro, avistei pelo retrovisor se afastando cada vez mais. Pequena como a própria Jane. Porém, envelhecida e nada formosa. Acompanhada por sua filha adolescente, caminhava insuspeitadamente. Confesso que me passou perguntar se se lembrava das aventuras de sábados à tarde. Se ainda guardava algum resquício de lembrança dos tempos em que nossa pequena turma vivia os encantos e os perigos da floresta. Melhor não! O melhor guardar o encanto na memória e daí juntar os pequenos fragmentos que ainda restam. Lembrar do grito apaixonado do pequeno Tarzan negro numa selva que não resistiu à passagem do tempo. 

* Quer saber mais sobre Tarzan? Clic no link que segue:   Verbete na Wikipedia
* Quer saber mais sobre o ator Ron Ely?  O Tarzan da tevê

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