31/08/11

A magia das palavras

Um dos aspectos mais importantes da comunicação humana é a existência da palavra. Imagino o quanto era difícil ao homem primitivo se fazer entender sem ela. Com certeza o processo era embaraçoso, difícil, intrincado. Talvez por isso se tenha a ideia de que os primeiros humanos eram bem mais nervosos. Também pudera o diálogo não se estabelecia por absoluta falta de meios.
A palavra surgiu como uma convenção suplantando gestos e grunhidos. É um código, um símbolo, estabelecido previamente visando expressar ideias. De certa forma trouxe um pouco de paz e de tranquilidade naqueles tempos tão duros, onde o homem tinha que enfrentar uma fera a cada instante na luta para alimentar o corpinho e, ainda, cuidando para não se tornar o prato principal de outrem.
A palavra não surge assim sem aviso em nossas vidas. Há todo um treinamento para que o indivíduo se constitua num ser falante. A mãe instintivamente vai largando a conta gotas sílabas, de forma espaçada. "Ma ma, pa pa". O pai mais impaciente, logo após adornar o pimpolho com a camisa do tricolor ou do colorado, já deseja vê-lo cantando o hino do time preferido. Porém, a palavra é uma conquista que vem chegando aos poucos. No início balbuciada docemente, entre risos e chorinhos de manha, quase de maneira ininteligível. Quando surgem as primeiras palavras ditas pelo bebê e uma verdadeira magia, ela reverbera nos ouvidos dos pais corujas. São comentadas e alardeadas pelas mães de primeira viagem.
Logo, logo e o serzinho já está falando pelos cotovelos. E surgem as curiosidades naturais que vão se acentuando cada vez mais. Certo dia a mãe ou o pai são postos na parede diante de intrigantes questões, formuladas num repente pelo rebento: Porquê mesa é mesa? Porquê cachorro é cachorro? Porquê carro é carro?".
Quem convive com crianças sabe que estes e outros questionamentos são apresentados aos borbotões e sempre assim de sopetão, causando surpresa e embaraço. Claro que muitos deles ficam sem resposta eis que, normalmente, o adulto está envolvido numa série de questões práticas bem mais importante do que apreciar os porquês dos porquês. Às vezes, mesmo as crianças nem desejam grandes respostas, querem, isto sim, exercitar algo novo em suas vidas, o questionamento.
Porém, há aqueles que tomam a palavra para si. Que se tornam íntimos, que extraem dela muito mais do que o ser comum. Há aqueles que usam e abusam do seu som, da sua forma, de sua origem. São os poetas, os escritores, os letristas e poucos outros, verdadeiros amantes das palavras que gozam da sua intimidade e da sua cumplicidade, e, em prosa ou em verso, resignificam, juntam, separam, jogam as pobrezinhas para lá e para cá. Agem como estes mágicos que aos olhos de todos parte sua assistente ao meio e, eis que, ela surge logo ali inteirinha como se nada houvesse ocorrido.
Ah! Estes loucos que dominam as palavras. Por certo, mantém ainda viva a meiguice do bebê, embalados pelo leve sussurrar das sílabas assopradas por suas mães.

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