16/02/15

Olívia Palito

Olívia Palito, personagem criado por
Elzie Crisler Segar, em 1919
As meninas magrinhas eram chamadas de Olívia Palito. As muito altas eram garças, girafas, coqueiro ou outra coisa que o valha. Os meninos com óculos eram invariavelmente denominados de Quatro Olhos. Se os óculos compensavam muitos graus de deficiência era comum serem chamados de fundo de garrafa. Os gordinhos eram Baleia Fora D´água. Os baixinhos eram anões de jardim, tampinha e outras denominações de estilo.
E tudo isso era muito normal, naquela época. Normal entre aspas. É claro que para quem não fazia parte do grupo da magreza, dos míopes e dos que lutavam contra a balança, a situação era uma. As olívias, as garças, girafas ou coqueiros, os quatro olhos, os tampinhas e os baleias não achavam tanta graça assim no tratamento jocoso. Não era mau humor não. Ocorre que sentiam na pele a dor de ser apontado por alguma característica sobre a qual não tinham qualquer possibilidade de mudança. Sofriam porque contrariavam o padrão estabelecido pelos outros de forma autoritária e despida de qualquer possibilidade de defesa.
O pior é que quem se rebelava, quem xingava, quem esbravejava, quem se insurgia contra o injusto tratamento acabava contribuindo para que o apelido cristalizasse. Era uma vingança velada: “se fulano se incomoda, aí é que vamos incomodá-lo!”. Eis que, “bom cabrito não berra!', diziam as sábias mentes.
Não se falava, é verdade, em bullying. A meninada era mais chucra. Tudo era mais direto e, portanto, mais cruel. Não havia sutileza no ar. Até mesmo os padrões de beleza eram outros. E o mediano era a regra.
O que hoje é a tônica nas passarelas de moda, naqueles tempos era motivo de desprezo. Mulheres magras não tinham vez. As mães e as avós queriam filhas coradas e, de preferência, com alguma protuberância física. Isto significava saúde. Se a menina fosse magra, alta, de pernas longas, então, o castigo vinha em dobro: além do tratamento desairoso dos colegas de aula e mesmo de familiares, ainda tinham que ouvir a conversa da avó e das tias de que precisavam comer muito pois pareciam doentes.
O tempo passa e as coisas mudam. Mudam os padrões. Mudam as convicções. Se ontem quase todos desprezavam aquele formato, hoje os estilistas procuram com binóculos nos corredores refrigerados dos shoppings muita magreza e altura. Porém, não vamos imaginar que o problema está resolvido. Não!
As pessoas que não preenchem o padrão das passarelas, das revistas de modas e do mundo televisivo são vistas com olhos que condenam. Dia desses uma dessas celebridades televisivas apareceu na praia de biquíni. Bastou para que seu corpo fosse esquadrinhado e analisado milimetricamente. Chegou-se ao consenso de que estava fora de forma e isso se tornou matéria jornalística. E os boquiabertos internautas desprovidos de massa encefálica gastaram seu verbo compartilhando comentários ácidos e preconceituosos nas redes sociais sobre a forma da moçoila. Depois se soube que ela ostentava uma barriguinha de grávida e estava muito feliz com isso.
Ou seja, muda o tempo, mas não mudam os instintos. Muda o tempo, mas os medíocres continuam repetindo o que se fez no passado. Hoje, a situação piorou um tanto. Com o fenômeno das redes sociais a idiotia ganha o mundo.

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