27/06/2018

O Nosso Jogo


Aqui na cidade, como em todos os lugares da pátria, qualquer terreno baldio apresentava o potencial para transformar-se em um campo de futebol. Não havia muita coisa para fazer naquele tempo. Uma bola qualquer, de plástico, de couro, murcha, judiada, não importava a condição, desde que fosse mais ou menos parecida como uma bola, já servia para reunir um pequeno grupo de guris de idades diversas que suariam o tempo necessário para matar a fome.
Se bola não houvesse, alguns jornais amassados dentro de um saquinho de leite até resolvia de algum modo a situação. Era um remendo, uma improvisação desesperada. Não era uma solução. O problema é que ficava uma ponta no local onde o saco de plástico era amarrado. Quando subia pouco ganhava um efeito muito doido gerando incerteza para o goleiro. Além disso, a delicada criatura rompia-se facilmente quando o chute era mais forte.

Chamávamos aquilo de futebol. O nosso jogo. As regras iam sendo adaptadas conforme o número de jogadores, as condições do campo e a disposição da turma. Às vezes, não valia chutes fortes para evitar que a bola viajasse demais e acabasse caindo em algum local distante, especialmente o morador próximo não fosse amistoso o suficiente para devolvê-la aos meninos. Se alguém se esquecia disso, logo outro gritava: “não vale bomba!”. Também não valiam chutes fortes quando o goleiro era muito pequeno. Guris mais novos corriam do gol quando os atacantes valorizavam mais a força do que o jeito.                                                                
O futebol existia somente ao vivo. A televisão pouco se ocupava dele. Eram os meninos quem mandavam no esporte. Goleiras de chinelos havaianas, de latas de azeite, de camisetas, de gravetos; jogadores de pés descalços, um time de camisa e outro sem camisa. Juiz prá quê: quem grita mais leva!  Caneladas e empurrões, joelhadas sem querer, espinho de maricá no pé, campo gelado no inverno, cara vermelha de tanto sol, suor correndo pescoço abaixo. Corpo cansado. Cada vitória era um marco, cada derrota um desastre, uma tragédia.
Eram os meninos que mandavam no futebol. Inventavam suas regras, improvisavam o que dava. Matavam a fome correndo. É gol. É felicidade. Felicidade que dura até daqui a pouco. Sorriso fácil, rápido. Rápido como tudo o que há. Ligeiro como é a vida que passa como um desses jogadores da Copa que supera o adversário e foge em direção ao gol.
A Copa está na tevê. A bola corre na Rússia, na Inglaterra, na Alemanha e no Peru. Corre também no Irã, na Arábia Saudita, na Costa Rica. Na Nigéria corre a bola. Não seria aqui no Brasil que não correria. Ah, sim, aqui há um desarranjo total  e uma desesperança sem tamanho, político ladrão e ladrão fazendo política no governo, roubalheiras a mil e artimanhas. Precisamos aprender a votar senão não vai dar.
Cada coisa a seu tempo. Não vamos misturar as estações. A Copa acontece a cada quatro anos. O povo não sofre só nestes dias. Não quer torcer? Não torce. Quer torcer pela Dinamarca porque o Brasil tá uma m...? Torce! Só não perca seu tempo tentando dizer aos meninos que muitas unhas quebraram e muitas caneladas levaram jogando com arremedos de bola no calçamento o que devem fazer.
É certo que não há grandes motivos para ufanismos patrióticos neste momento. Estão cobertos de razão os detratores. Mas, por outro lado, não há porque gastar energia condenando quem gosta de ver uma bola rolando. Liberdade é isso. Sem frescura e sem condenações, afinal o barco é um só e, no final, ninguém vai se entender mesmo.  

Futebol - projeto social   
Brincando na rua

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