26/01/15

A história de Adão e Eva

Adão e Eva, de Lucas Cranach,
Muitas histórias vêm sendo repetidas ao longo dos tempos. E cada um que conta coloca seus sais, açúcares e as porções de pimenta que julga necessário. Com isso, as histórias vão tomando o gosto do contador, as tramas vão se modificando e a realidade vai se tornando outra bem distinta da original. Um caso ocorrido no passado nunca mais será exatamente aquilo que ocorreu. Com a história que vou rememorar ocorreu exatamente isso: contada de geração para geração foi sendo modificada de tal forma que hoje ninguém mais tem certeza do que verdadeiramente aconteceu.
Me desculpe a falta de modéstia, mas, se puderes me dedicar um tempinho, conto exatamente o que ocorreu no paraíso sem tirar nem por. E faço isso não para me engrandecer, mas sim para restabelecer a verdade. Eis que a verdade do paraíso eu sei. E como estamos numa conversa franca e amiga, acho prudente me despir de qualquer preocupação com o discurso da falsa humildade. Seria bom não gastares seu tempo perguntando como fiquei sabendo, pois não revelarei. Sei que sei. Se quiseres acreditar em mim, tudo bem. Se serve assim, conto tudinho, nos mínimos detalhes. Combinado?
Então vamos lá.
O sol brilhava como nunca naquelas terras. A água do lago era límpida. Havia frutas em abundância. Os pássaros voavam para lá e para cá. Os pequenos animais brincavam sem altercações. As temperaturas não variavam muito por aqueles lados. A vida corria sem sobressaltos. Não havia carências. Tudo abundava naquele pedaço de chão. Tudo o que precisava existia ali. Ou, como veremos, quase tudo.
Porém, Adão, um belo rapaz, forte e tranquilo começava a mostrar certa impaciência. Tudo era tranquilo demais. Nada de imprevisto acontecia. Os dias seguiam-se sempre no mesmo ritmo. Sem grande mudanças. Jovem e solitário, Adão, o único humano que habitava aquele reino, sentia um vazio. Tudo o quanto fazia com gosto nos primeiros tempos agora não tinha mais sentido. Conhecera o significado da palavra tédio. E o tédio, bem o tédio só pode combatido com o novo, com algum elemento que desestabilize o que se conhecia então. Mas, ele, preso ainda na sua infantilidade, não conhecia nada disso. Nem desconfiava que poderia ser diferente. Apenas intuía que algo havia de acontecer.
À noite, deitado na relva, enquanto observava a lua cheia, nosso rapaz desviou o olhar para outro canto do céu. Um pontinho luminoso correu nervoso desenhando um pequeno risco de luz. A corrida foi tão rápida e tão rapidamente também a luz sumiu da visão de Adão. E, como num passe de mágica, o rapaz pediu ao dono do paraíso uma companhia. Que não fossem mais cabras, porque ali havia algumas. Que não fossem pássaros nem esquilos nem pavões nem qualquer animal destes que gastam seu tempo realizando repetidamente suas pequenas tarefas do dia a dia. Ele não sabia o que pedir, mas sabia exatamente o que não queria.
Adão no fundo desejava alguém que pudesse modificar a decoração daquele lugar. Adão pensou, pensou e pensou. Ele não falava. Não precisava falar. Bastava pensar. E isso ele sabia fazer. O Criador também não falava. Ele se manifestava nas coisas belas que havia concebido.
E, assim pensando, caiu num pesado sono. E dormiu o quanto pode. Não foi incomodado por ninguém. Os pássaros que faziam uma algazarra quando os primeiros raios de sol se mostravam, pareciam mudos. Voavam respeitosamente no céu azul. Todos ao redor agiam com silencioso respeito. Observavam Adão deitado na relva, imóvel. E ele permaneceu assim por longo tempo.
Mas, um certo tempo depois, eis que o estado de sono chegou ao fim. Ao abrir os olhos, sentiu como se tivesse sido anestesiado e assim permanecido por centenas de anos. Aos poucos foi voltando à realidade. E, ao olhar para o lado, levou um susto. Uma criatura de carne e osso, de olhos fechados estava deitada a poucos centímetros de seu corpo.
Nunca tinha visto nada igual.
Era Eva. Tinha cabelos negros como a noite sem lua. Os olhos amendoados, os lábios vermelhos como os morangos silvestres. Os seios, redondos, volumosos, imitando melões. Ela dormia serenamente como deve repousar um anjo.
E Adão instintivamente, querendo conhecer aquele novo ser, foi se chegando mais perto. Podia sentir um doce perfume que exalava de seu corpo nu. E gastou bom tempo observando seu corpo, notando as diferenças. E consumiu aquele perfume que o acalmava e, ao mesmo tempo, parecia que mexia de modo diferente com seu corpo e seus instintos.
Eva, subitamente, sentindo que não estava só, acordou num sobressalto. E se recolheu quando viu o rapaz que a admirava tão de perto. Estava assustada. Não conhecia aquele outro que a encarava. Não tinha ideia de onde estava e como chegara até ali. As ideias eram confusas. Tudo era novo. Aquele lugar tão iluminado e rico ao seu redor. Aquele outro que ainda a olhava com admiração. Tudo muito estranho.
E o estranhamento seguiu-se por dias. Aos poucos, porém, foram se achegando. Foram tornando-se parceiros e colaboradores. O ágil Adão subia em árvores e escolhia as melhores frutas e as jogava para Eva, que as aparava sem pestanejar. E de fruta em fruta, Adão e Eva foram construindo uma relação digamos de maior proximidade ainda. E, eis que um dia, Adão olhou nos olhos de Eva com profundidade. E ela experimentou um sentimento diferente. Ela teve prazer. Coisa que até então desconhecia.
Bom, depois disso, muita história rolou. Não vou contar detalhes, pois isto pouco interessa. Porem, muitas versões a história ganhou. Alguns dizem que os dois se envolveram tanto que acabaram proporcionando a primeira safadeza que um homem e uma mulher fizeram. Outros acreditam que a curiosidade, a mentira ou um sentimento menos nobre acabou acendendo a ira do dono do paraíso, que os expulsou do lugar. Afinal, o dono não quer ser contrariado.
De minha parte posso dizer que talvez nada disso tenha acontecido. Talvez tudo isso tenha sido uma história destas que se contam de pai para filho. As minúcias vão sendo modificadas para agradar e desagradar estes e aqueles.
Na verdade, a impressão que tenho é que Adão e Eva não morreram. Nem expulsos foram. Resistem até os dias de hoje. Não estão no paraíso. São homens e mulheres comuns que se encontram, se estranham, se agradam, se deliciam e constroem seus caminhos sem juízo e sem pecado. São seres que criam uma pequena ou uma grande história de encantamento.  

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