09/11/12

Os Mutantes


Tudo corre, tudo flui, tudo passa. Tudo o que existe agora se transforma logo ali. A realidade de agora não será a mesma realidade daqui a poucos segundos. Nada se repete no Universo. A transformação se dá de maneira imperceptível, ininterrupta e irrevogável. Não há como legislar sobre isso. O poder humano é pequeno diante da magnitude das inflexíveis e inafastáveis leis naturais. 
Os princípios filosóficos expostos até aqui não são obra do colunista. São interpretações livres do que disse um dia Heráclito de Éfeso, que viveu no período compreendido entre 535 e 475 a.C. O filósofo concebia a vida com algo em movimento constante. A passagem do tempo vai transformando a tudo e a todos. 
A impressão de Heráclito vale inclusive para os homens. Muito embora a aparente irredutibilidade de alguns, homens e mulheres são seres mutantes. As experiências vão se juntando de tal forma que o indivíduo hoje é muito diferente do que foi um dia. “Tudo que se vê não é/ Igual ao que a gente/Viu há um segundo/Tudo muda o tempo todo” como diria aquela velha canção do Lulu Santos.
 
Se a vida fosse despida desta dinamicidade graça nenhuma teria. Os dias transcorreriam sempre iguais, sem alterações, como animais se recolhendo no final da tarde em fila indiana. Sem revolta, sem intriga, sem contestação.
Porém, vez por outra, o rio se torna caudaloso, a correnteza ganha reforço das águas vinda dos morros.  E o que era tranquilidade vira correria. No entanto, ali na frente está de volta a bonança, eis que não há tempestade que sempre dure. 
O que me levou a abordar este tema foi a manifestação do Romário, aqui na redação do Bons Ventos, de que a prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) apresentou uma questão sobre Os Mutantes, aquele grupo psicodélico, roqueiro, insistente, progressivo dos anos 60 e 70. Os Mutantes já se aposentaram, ficaram décadas separados, depois voltaram à ativa e vez por outra aparecem novamente. Não conseguiram, porém, convencer Rita Lee de que ela devia abraçar os antigos companheiros. 
Talvez ela tenha lembrado de  Heráclito de Éfeso e concluído sobre a impossibilidade de se cruzar um mesmo rio. Nem Os Mutantes são os mesmos, nem seus fãs, nem a música brasileira e mundial. A impermanência é a regra. 
Uma coisa é certa, acabada e imodificável: boa parte dos candidatos inscritos no Enem foram apresentados aos Mutantes somente na hora da realização da prova. Uns ainda pesquisarão no Google, outros guardarão o caderno de questões em uma gaveta e nunca mais o pegarão de volta, aguardarão a divulgação do gabarito e pronto. 
O tempo passará. Os meninos e meninas do Enem seguirão seus caminhos modificando-se dia após dia, experiência após experiência, como previa o filósofo.

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