07/08/13

A fala

A retórica era de suma importância
para gregos e romanos 
A manifestação mais singular do gênero humano é a fala. Não se conhece outro ser que articule as palavras livremente como o homem. Alguns animais, como os papagaios, por exemplo, podem até articular sons. Porém, há um longo adestramento para que a ave possa repetir uma ou duas palavras. Não importa a situação, o louro vai dizer sempre a mesma coisa. Se for treinado pelo seu dono para dizer “viva o Grêmio”, ele seguirá dizendo a mesma coisa eternamente, na vitória ou na derrota. Mesmo que o torcedor tricolor morra e a família inteira torça pelo colorado.
Já entre os humanos a coisa muda de figura. Começamos com a simples e prosaica mama, depois, sem muita pressa, vamos acrescentando papa, mana e assim por diante. Quando nos damos por conta já estamos falando otorrinolaringologista, sem pestanejar.  Isto ocorre porque as experiências do dia a dia, as leituras da madrugada, o amplo acesso às informações, as dores, os sofrimentos, as alegrias, as vitórias e os fracassos vão engrossando o caldo e ampliando cada vez mais o repertório de cada um. Com o tempo o humano passa do simples ao complexo.
Os povos antigos, especialmente os gregos, valeram-se da palavra falada para o convencimento do outro. O discurso foi fundamental no nascimento da Política e na instituição da Democracia. O indivíduo que manejava bem a oratória conquistava status entre seus pares, ganhava poder. A palavra bem dita convencia os magistrados e persuadia a população. 
Entre os romanos também a retórica tinha grande importância. A nobreza preparava seus pupilos para assumirem a administração pública. Paralelamente, previdentes que eram, davam a seus rebentos noções sobre as artes da guerra. Se não convencessem pelo discurso, a solução poderia vir pelas armas. 
O Império Romano e a Democracia Grega há muito foram suplantadas. A retórica foi substituída pela verdade revelada que não permitia qualquer cogitação. A solução é uma só: ou o indivíduo aceita o dogma e ganha um lugarzinho no céu; ou o  contraria e  herda uma vaga na fogueira eterna. Sem possibilidade de apelações.
 Com o advento da comunicação instantânea, a palavra falada perdeu um pouco de espaço. Os dedos rápidos no teclado do computador ou do “esmartefone” substituem a boca. A democracia está de volta. Todo mundo fala, todo mundo opina. Coisas sérias, bobagens inimagináveis, manifestações incompreensíveis, textos em maiúsculas, uma sucessão interminável de três pontinhos... Tudo num mesmo lugar. Um  quatrilhão de coisas vindas de todos os cantos do mundo, em todas as línguas, em todos os formatos. O silêncio é só aparente. A reedição da Torre de Babel. Durma-se com um barulho desses.

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