03/09/14

O reino das palavras

Existe mesmo um reino das palavras. É um lugar onde novas e velhas palavras organizadamente convivem. Todas elas, em todas as línguas, descansam neste local, saindo dali somente quando necessário. Descansar não é o termo mais apropriado, eis que algumas delas não encontram tempo para isso tal a insistência em incluí-las nos discursos diários, nas manchetes dos jornais e nos noticiários televisivos.
Em épocas como as de hoje, onde graça na Terra a violência, a intolerância, a vingança, o ódio, a guerra e o conflito, estas mesmas expressões não se entregam ao ócio. Estão nas bocas e nas mentes a todo instante. Transitam para lá e para cá com uma rapidez impressionante. Não têm sossego.
Enquanto isso, tolerância, cessar-fogo, negociação, entendimento, superação e paz permanecem aguardando. Verdadeiramente esperam a sua hora e a sua vez. Aguardam por bocas mais lúcidas que hoje não são ouvidas dos homens mais preocupados com os humores da discórdia.
Como para tudo se requer ao menos um pouco de organização, creio que neste mundo imaginário, o território seja definido pela afinidade. De um lado estão reunidas todas aquelas identificadas com as cargas mais negativas. Compõem o clube do ódio, da intolerância e da vingança. Por si só são pesadas e agressivas. Desrespeitosas.
Para compensar há aquelas que se identificam pela carga positiva. Apresentam certa leveza. Certamento há o clube da fraternidade, onde vislumbram-se o amor, a amizade, a compreensão e a caridade. Há, por certo, outros cantões, com conotações distintas, como, por exemplo, o da ignorância, onde habitam o preconceito, a discriminação, o fanatismo, o sectarismo, o fundamentalismo e outros da mesma espécie. É um local de pouca luminosidade. Denso.
E, em contraponto, deve existir em algum lugar, num belo e aprazível vale, o cantão do conhecimento. Neste setor do reino se encontram todas as expressões que desnudam as realidades mais intrincadas. Estão ali as revelações que libertam os seres e os impulsionam para a luz.
Vez por outra, por uma boca qualquer, impulsionada talvez por instintos dos mais primitivos, uma palavra pode ganhar o mundo. Se houver uma câmera e um microfone captando em rede nacional, então, ela se espalha. E se torna um forte tormento. E uma agressiva palavra gritada a plenos pulmões nestas circunstâncias é capaz de eliminar a boca que o falou. E, o pior, colar na testa de tantos outros que não falaram, que nem ao menos pensaram.
A vergonha deve sair de seu canto e transitar por aí, com muito mais intensidade. Não, a hipocrisia não precisa se mostrar. Ela pode ficar no seu lugar. Deveria ao menos. Metida como ela, mestre do disfarce, é capaz de se infiltrar com rara sabedoria, se misturando com outras tantas palavras. Em alguns momentos parece se tornar invisível. Não duvido que esteja presente nos julgamentos que virão.

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