23/05/15

Vida e Morte: uma crônica canina

Ruivão
O Boby era muito engraçadinho. Seu pelo era claro. Seus olhos espertos. Era carinhoso, o Boby. Porém, apesar de afetivo com as crianças e com os adultos, ele não era só amor. Ele não gostava muito do Ruivão. Mas, por outro lado, tinha grande afetividade pelo Stallone.
O Stallone um dia fugiu de casa. O veículo da APAE o colheu. Ele fraturou o quadril. Bem cuidado, voltou a caminhar novamente. Não com a mesma naturalidade de sempre.  Ele ficou um pouco descontado. Ganhou até certa graça no caminhar. Alguma leveza que não tinha antes.
Certo dia acordei e dei falta do Boby. Ele já estava velho. Mal conseguia ficar em pé. Seus olhos tinham uma camada grossa de catarata. Já não enxergava mais. Mas, ainda atendia ao gritos dados da janela. Saí em sua procura e o encontrei encharcado. Havia chovido durante dois dias seguidos. Caído no chão, gemia. Não tinha forças para levantar. Tinha certeza que o correto seria sacrificá-lo. Porém, não tive coragem. Ao invés disso tomei a decisão de alimentá-lo constantemente com leite diretamente na boca. De vez em quando jogava com uma seringa um pouco de água para hidratá-lo. Não preciso dizer que um dia pela manhã o encontrei sem vida.
Coloquei o corpo imóvel no carrinho de mão e abri um buraco fundo. O Stallone acompanhou todo o processo. Estava muito triste, o Stallone. Feitas as homenagens de praxe, nossa vida voltou ao normal. Menos a do Stallone que enquanto viveu parecia lamentar a perda do amigo. Incontinente, deitava ao lado do carrinho de mão que servira de veículo fúnebre e gemia com sinceridade. Algum tempo depois, o Stallone também se foi. Ficou o Ruivão.
O Ruivão tem uma história curiosa. Diariamente ele ficava parado no portão da casa. Duas ou três vezes dei algum alimento e, após feita a refeição, o espantava para longe. Ele dava meia volta e se aninhava novamente no lugar. Um, dois, três dias seguidos. Diante de sua teimosia, meu coração acabou cedendo. O coloquei para dentro do pátio. E ele ficou sem reclamar. Nem fugir tentava.
Agora me avisam que sua vidinha está por um fio. Acometido de um tumor, de idade avançada e por outros problemas caninos, o Ruivão vai se despedindo. É possível mesmo que quando esta crônica for lida já esteja vivendo  no mundo espiritual da bicharada. É a vida que segue seu rumo sem descanso. Vale para todos nós, os humanos, para os cães e para tudo o quanto existe.  

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