13/04/11

As mães de Realengo

(Arte sobre foto)
Em Aquele Abraço, Gilberto Gil nos apresenta um Rio de Janeiro sorridente, lindo, leve e solto. Entre os alôs, Gil destina um ao Realengo, bairro de classe média alta, tranquilo e próspero. A história do bairro, no entanto, mudou radicalmente na semana passada. Ao invés da tranquilidade, da serenidade, a insegurança, a reocupação, a dor e o sofrimento espalharam-se para todo o mundo. Um único ser, em sua insana vivência, movido pelo seu lado mais sombrio, sepultou 12 adolescentes, que insuspeitadamente se dedicavam a uma das tarefas mais gratificantes que a civilização implementou: a busca pela instrução.
Chacina e massacre não faziam parte do cenário brasileiro. A Candelária, em 93, quando meninos de rua foram exterminados por policiais militares cariocas, tinha sido, até então, o caso mais rumoroso. No estilo do que foi protagonizado no Realengo, com invasão de um local público e tiros a esmo, somente no noticiário e, ainda assim, nos EUA. Os jornais levaram inúmeras histórias sobre o fato. Alunos que não foram à aula, meninos que conseguiram garantir a vida, jogando no chão e fingindo-se de mortos, um ou outro que convenceu o assassino a poupar sua vida. Destaque especial para os sonhos enterrados. Uma menina queria ser modelo, um menino jogador de futebol. Tiveram seus sonhos abortados.
Partiram sem cumprir aquilo que queriam. Não tiveram chance nem mesmo para tentar. O choque maior, no entanto, é o dos que ficam. Especialmente as mães que preparavam as mochilas dos filhotes, que ajeitavam seus uniformes, que preparavam o café da manhã, que os beijavam na hora da partida e, quiçá, os seguiam até o portão da casa, dando um aceno de até logo. Sofrem estas mães que tiveram a rotina cortada, sem tempos para despedidas, sem tempos para o beijo do retorno.
A dor de um pai e de uma mãe, que perdem um de seus rebentos é das maiores que existe. Insuperável para alguns. Como disse Divaldo Pereira Franco, que recentemente esteve em Tramandaí, uma mãe que perde um filho perde uma parte de si mesma. O trauma, a dor, é inenarrável. Sofrem, também, os familiares do assassino, do tresloucado, que o enxergam como um impuro. Não encontrarão explicações. Talvez até se sintam culpados, acreditem mesmo que, de alguma maneira, tenham contribuído para o desatino. Sofrem as vítimas, sofrem os familiares do rapaz que entrou para história pelo seu gesto insano.
O Rio de Janeiro tão belo, tão charmoso, tão cantado em versos, assiste impotente uma história que até então não nos pertencia. Agora, lamentavelmente, pais, filhos e professores das escolas do Realengo e, quem sabe, de todo o país, estão sujeitos aos fantasmas que estavam tão distantes. Triste iniciativa, lamentável espetáculo de horror que assusta a todos, mesmo a quem está aqui tão distante, tão seguro.
O Brasil, que persegue a passos largos a entrada no primeiro mundo, entrou pela porta de trás. Nossos filhos não estão tão seguros assim na escola. A doença da civilização americana, do extermínio, do ódio, da obsessão e do desatino chegou até aqui. Lamentável!

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