06/12/12

Os sabores da infância


Numa daquela conversas triviais, disse que não tenho fixação por algum tipo de alimento em especial. Erro meu. “Só por doce de abóbora”, emendei com certa pressa, notando que havia feito uma afirmação inverídica.  “Ambrosia é muito bom”, disseram do lado de lá. “Só se for feito pela mãe, pela avó ou por uma tia idosa”, completei com certo ar professoral. 
Chegamos à conclusão de que os sabores, as texturas e as cores dos doces feitos em casa a partir daquela receita especial de alguém da família são diferentes e não podem ser reproduzidos por ninguém. Nem aquele famoso cozinheiro que exibe sua arte na tevê, com maestria e graça, é capaz de fazer o doce da mamãe, da titia ou daquela vovó. Não é incompetência do diligente cozinheiro não! A culpa é nossa.  Isto porque a grande diferença está na nossa afetividade, no prazer de quem se serve e no prazer de quem faz.
Somos nós os culpados por transformar coisas simples em verdadeiros manjares. Os sabores ficam guardados na memória quando nossos gurus partem. Somente eles sabem o tempo certo de cozimento, a dose certa de açúcar, a quantidade necessária de cravo ou de canela para que a receita atinja o ponto correto que vai agradar aquelas pessoas que os cercam.  E aí entra o componente da magia. E a magia é um jogo. É uma enganação. Nossos sentidos ficam à mercê do poder oculto destas alquimistas que transformam açúcares, farinhas, ovos e leite em puro encantamento.
Lembrei do pudim de laranja que minha mãe fazia há muito tempo atrás. Após reunir os ingredientes com muito cuidado, entregava-se à tarefa de juntá-los cumprindo um ritual quase sagrado. Com esmero levava ao fogo a forma vazada. Após receber generosa porção de açúcar para caramelar lançava a mistura previamente preparada. Em banho-maria a forma permanecia por algum tempo. Depois era só retirar do fogo e levar à geladeira para que pudesse mais tarde ser desenformado. Sabor insuperável. Leveza, doçura e acidez. Tudo junto. Na dose certa.
Um cronista de nosso tempo se rebela contra a ditadura da secura. Em tom de denúncia, explica que o império da magreza, da sisudez física, da circunspecção corporal estaria afastando homens e mulheres destes tempos da magia do doce caseiro. Se essa ditadura resistir, chegaremos em um tempo em que as titias e as vovós não mais juntarão os ingredientes com indisfarçável prazer.  Adeus aos manjares. E nós, que por vezes nos sentimos deuses privilegiados diante destas maravilhas culinárias, ficaremos órfãos dos insuperáveis sabores de infância. 

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