29/11/13

Outros tempos

Vez por outra algum amigo manda um e-mail onde se destacam as principais diferenças entre os tempos de hoje e os da nossa infância. Obviamente que, descontado o sentimento de nostalgia, que mais dia menos dia há de atingir a todos, indistintamente, muito do que se viveu não encontra nem encontrará correspondência nestes novos tempos. Não se trata de serem melhores ou piores, os dias de ontem não se repetirão jamais.
A começar pelas brincadeiras. Carrinhos de rolimã, arapucas mal ajeitadas, que empurrados morro abaixo deixavam como saldo muita emoção, unhas quebradas, calcanhares e mãos sangrando pelo atrito com a pista. Fundas ou bodoques feitos a partir da forquilha de goiabeira. Mal amarrados se transformavam em arma contra o próprio lançador.
Não há como se falar em passado sem que alguém se lembre do refresco mais popular que houve neste país. O nome era Ki-Suco. Era vendido em um pacotinho. Era uma tintura que misturada à água dava 10 copos do mais ilegítimo suco. Sua popularidade era inversamente proporcional ao preço. Custava quase nada. Vendia aos montes. O mais miserável dos miseráveis, com certeza tinha condições de adquirir ao menos um saquinho do suco 100% artificial. Tinha até concorrente, o Q-Refresco. Também muito barato e muito ruim.
No ramo da farmacinha caseira, o grande destaque era para produtos do tipo  mercúrio e mertiolate. Essas soluções eram colocadas nas feridas e nas escoriações da molecada. Tinham o poder de causar mais dor do que a causada pelos ferimentos. Além disso, impregnavam nas mãos do aplicador. “O que arde cura, o que aperta segura”, diziam na oportunidade os mais velhos. O mercúrio foi banido, pois é extremamente perigoso à saúde humana e animal. O Merthiolate, por sua vez, teve sua fórmula aperfeiçoada e hoje ainda está no mercado. Porém, não causa mais ardência. Na visão dos antigos, portanto, não cura.
A conclusão parece óbvia: sem internet, sem aplicativos, sem celulares, sem jogos eletrônicos, sem redes sociais, sem tevê a cabo, sem jogos de futebol ao vivo na tevê, sem um milhão de coisas que estão presentes no nosso dia a dia, os mais velhos pertencem ao grupo dos sobreviventes. Estes seres, que caminham lentamente rumo à extinção, cresceram e se desenvolveram apesar da ausência de GPS a lhes guiar os passos, do ABS a segurá-los nas curvas e a dos airbags a amaciar o impacto. A bem da verdade, o caso foi mais surpreendente ainda. Nem os cintos de segurança eram uma obrigação, naqueles tempos.
Sinal de que os tempos efetivamente são outros. Os costumes mudaram. No caso dos mais vividos, a sobrevivência é prova de que o homem vai se adaptando, vai se acostumando com as mudanças. Vai deixando para trás coisas e mais coisas que um dia fizeram sentido, mas que hoje não mais são permitidas.

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