27/05/14

O amor de Inês

Inês não desejava um reino. Não queria ser uma rainha. Vivia na corte, é verdade. Era dama de companhia da D. Constança, uma princesa doente. Inês era jovem e bela, era loira e tinha os olhos verdes. Nas suas veias corriam sangue nobre galego. Porém, por ser filha ilegítima, era tida como uma plebeia qualquer. A morte de D. Constança mudará sua vida. Inês sairá de sua posição de subalterna e conquistará o amor de sua vida, nada menos que o príncipe galanteador Pedro. Viúvo não resistirá aos encantos da menina. E vai amá-la com toda a sua dedicação como jamais amara alguém. E seu romance entrará para a história da Corte. Enquanto ama sua pequena Inês, não desconfia o Príncipe que seu amor um dia servirá de inspiração para versos que surgirão da pena de Camões.
Inês viveu perigosamente. Encantou Pedro, ganhou seu coração, sua confiança e cumplicidade. Porém, nos bastidores palacianos a palavra amor não transita com fluência. Os tempos são de guerra. E na guerra os olhos devem estar atentos porque os inimigos estão por todos os lados. E as ameaças crescem. Aos homens da corte o interesse do império vem em primeiro lugar. E assim suas intrincadas conexões levam sempre em conta a necessidade de juntar as fortunas dos nobres, ampliando o poder e a força, além da luta desesperada em garantir a sucessão do trono. Em tempos de guerra como aqueles, e mesmo nos dias de paz, o coração pouco conta. Os nobres têm a coroa e não podem dividí-la.
Pedro e Inês, mesmo cientes de que corriam perigo, pensavam em manter o romance distante dos olhos do rei e de seus asceclas. Porém, um amor tão quente, tão transbordante não se contém. Um amor assim tão envolvente não é coisa para ficar em segredo. E o Príncipe confidenciou que desejava casar com sua amada Inês. E todo o povo soube disso. Pedro errou. E no Palácio Real os erros não são perdoados.
O Rei não aprovava o romance. Anda mais que Pedro mantinha relações estreitas com os cunhados Castro, que tinham certa influência entre os castelhanos, que viviam às ronhas com os portugueses. D. Afonso IV bem que tentou separar os amantes. Mandou Inês para longe, na fronteira com a Espanha. Mas, o Príncipe embevecido a seguia. O exílio mostrou-se medida ineficaz. Pedro, contrariando seu pai, a trouxe para Coimbra. Foi alojada no Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra. E o amante, com a cumplicidade de tantos outros, a assediava. Mandava cartas de amor onde jurava amor eterno. E, vez por outra, furtivamente, se amavam perdidamente enquanto dedicadas clarissas erguiam seus olhos aos céus.
Nas cabeças dos membros da corte portuguesa o reino corria perigo. E o perigo deve ser eliminado. E o perigo se chama Inês de Castro que enfeitiçou o Príncipe. Não importa que seja uma mulher frágil, mãe de quatro filhos. Não importa que exista amor. Importa que o reino corre perigo. Que uma mulher conquistou o Príncipe Pedro e que logo logo conquistará o trono. E depois dela seus filhos ilegítimos serão príncipes herdeiros. E o reino lusitano voltará para os castelhanos.
Os conselheiros do Rei fizeram plantão. E foram tão envolventes e foram tão convincentes que D. Afonso IV consentiu que Inês devesse ser morta. E que seus herdeiros, crianças ainda, também deveriam desaparecer. E tudo foi feito para o bem do reino.
O imperador português aguardou que seu filho saísse para mais uma das tantas caçadas. Enquanto abatia animais bravios pelas terras da África, D. Afonso IV foi a Coimbra ter com Inês. E ela foi inquirida pelo rei, na Quinta das Lágrimas. Inês não se calou. Sabendo que não teria futuro, abriu seu peito e rogou pela vida de seus filhos. E talvez tenha dito mesmo que não poderia ser punida por amar Pedro. E o rei quase sucumbiu. Mas os algozes não deram tempo. E um deles cortou o pescoço de Inês que caiu sangrando. E seu sangue se esvaiu e se misturou às águas do Rio Mondego.
Pedro se tornou um tirano. Juntou homens, cavalos e armas e desafiou seu pai. Chegou a cercar palácios, a matar homens a esmo. Seus olhos e seu coração não se acalmavam. Nem o sangue de uma guerra seria suficiente para terminar com seu ódio. Porém, as doces palavras de sua mãe, a Rainha Beatriz, demoveram o pai e o filho que assinaram um acordo de paz.
Mas a vontade de vingar a morte de sua amada não passava. Dois anos depois, com a morte de D. Afonso, Pedro é coroado Rei de Portugal. E fez justiça. Como tinha casado em segredo com Inês a tornou rainha. E o súditos a adoraram como jamais a adoraram em vida. E seu sepultado corpo foi homenageado. E seu amor por Pedro reconhecido. Mas Pedro ainda não tinha paz. Era preciso homenagear Inês, a Rainha Morta, com mais presteza. E assim fez. Com boas relações com os castelhanos, pediu a extradição de dois deles. E fez questão de assistir às execuções de Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves que tiveram seus corações retirados enquanto ainda agonizavam. O terceiro algoz de Inês, Diogo Lopes Pacheco, se escondeu na França. De lá, quando seu corpo fenecia mandou um pedido de perdão ao Rei Pedro. Passados tantos anos, Pedro o perdoou.
Hoje, mais de sete séculos depois, diz-se em Portugal que o sangue de Inês ainda corre rio afora. Os lusitanos, tal como Camões, ainda suspiram por Inês, a bela Inês, de cabelos loiros e olhos verdes. Inês, a Rainha Morta, vive nos sonhos de velhos e de jovens. Inês de Castro, a rainha que amava Pedro.

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