09/07/14

A pescaria

O fedor de podre era muito forte na vila. Nos dias de vento, então, era quase insuportável. Chegava a arder o nariz. Vinha do matadouro. Era assim que o pessoal chamava o frigorífico, que abastecia a cidade com carne bovina. Os moradores da vila, famílias pobres com muitas bocas a alimentar, ali o que mais adquiriam era alguma carne de segunda com muita gordura, coalheiras, tripas, fígados e rins. Diziam que o cheiro vinha do sangue e dos restos dos animais mortos.
Atrás do fétido matadouro, no entanto, havia um vasto mundo inexplorado. Os olhos da molecada brilhavam pensando em conquistar aquele território. Um belo campo com açudes de águas cristalinas. Diziam que ali havia peixes graúdos às toneladas.
E foi para este lugar que saímos. Eu o Sérgio, meu irmão, nos aventuramos numa pescaria de final de tarde de primavera. Ao passar pela cerca que separava os dois mundos, fomos alertados por um funcionário do matadouro: muito cuidado com os bois brabos que estão no fundo da área! Ficamos apreensivos, mas não havia como abortar a missão. Os caniços estavam prontos e as minhocas aguardavam numa velha lata de leite ninho, previdentemente cobertas por um punhado de areia úmida.
No começo somente pequenos lambaris brincavam de roubar a isca. Assim ficamos por muito tempo sem pegar unzinho qualquer. Porém, como reza o conhecimento popular, quando o sol foi baixando a peixaredo começou a fazer a nossa festa. Era só jogar o anzol e levantávamos com sofreguidão traíras enormes, carás testudos, joaninhas que brilhavam quando em contato com o sol. Até os lambaris de bom tamanho apareciam.
Tínhamos feito previamente fieiras de embiras e ali íamos perfilando os peixinhos. A pescaria estava emocionante. E o sol, lentamente, foi se escondendo. O gado foi chegando cada vez mais perto do açude. E cada vez dava mais peixe. E foi crescendo nossa atenção em relação ao avanço dos animais. O medo foi aumentando. Lembramos que corria na vila a história de que um daqueles bois, talvez um preto com uma mancha na testa e chifres grandes, era muito bravo. Alguém tinha dito que era um verdadeiros assassino. Tinha corrido atrás de um homem e só não o matou a chifradas porque ele era muito veloz.
E eles continuaram perigosamente se deslocando em nossa direção. Porém, a emoção da pescaria era muito mais forte. Nunca tínhamos visto nada igual. Se fôssemos dados a mentir não conseguiríamos descrever o quanto era produtiva a pesca naquele final de tarde. As traíras, os carás, as joaninhas e os lambaris continuavam se oferecendo graciosamente e inapelavelmente eram retirados da água pelos nossos caniços. Os bois já miravam nossos olhos. Não tínhamos escapatória. Era pegar as fieiras, os caniços e empreender a melhor das corridas que pudéssemos. E assim fizemos. Fugimos sem mais olhar o avanço da boiada.
Como era menor e com menos destreza, acabei ficando para trás. Vi ao longe meu irmão passar pela cerca. E o safado, com o objetivo de contribuir para meu sucesso, ainda gritava: “corre que o boi vem vindo”. Apavorado, cheguei a cair no chão. A fieira arrebentou e os peixinhos caíram todos. Como não tinha o que fazer, dobrei minha camisa branca Volta ao mundo e guardei ali todo o produto da pesca. Os peixes estavam todos envolvidos em uma fina camada de barro. Como não havia onde limpá-los, assim os levei até em casa e rapidamente os entreguei a uma mãe apavorada.
Depois de alguns xingamentos por ter embarrado a camisa, minha mãe se deu ao trabalho de limpar aqueles peixes, que pareciam tão grandes quando levantados da água e agora se revelavam minúsculas criaturas. Depois de limpos, lavados e passados na farinha de trigo foram jogados numa velha frigideira com azeite quente. O cheiro se espalhou pela casa abrindo ainda mais nosso apetite. Os peixinhos crocantes foram rapidamente consumidos com pedaços de pão caseiro e com uma xícara de café preto.
O dia terminava de forma gloriosa. Um rápido banho de bacia (não havia água canalizada no local) e, depois, um sono reconfortante. Porém, no meio da noite, meu sonho foi invadido. E lutei durante horas contra o medo que me impunha um certo boi preto, com uma mancha na testa. O boi assassino corria atrás de mim. Era muito forte e veloz. Minhas pernas curtas travavam, meus pés não saíam do chão. Olhava deseperadamente e ele chegando cada vez mais perto. Meu corpo todo travado pronto para receber o impacto dos grande chifres que vinham apontando em minha direção. Meus peixinhos saiam da fieira em fila indiana e se colocavam ao meu lado prontos para assistir à minha queda. Seriam as pequenas e silenciosas testemunhas do meu fim. Olhavam para os meus olhos apavorados. E riam do meu medo.

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