09/07/14

O banquete

Lá vou eu de novo contar histórias do século passado. Mais precisamente dos anos 70. Não sei precisar o ano. Mas, acho que era 1974. Tinha onze anos de idade. Estudava numa escola particular da cidade, o Colégio Conceição. Vindo de uma família muito pobre, não tinha dinheiro para a mensalidade. Na realidade, nem para o material obrigatório tinha. Foi graças a uma bolsa de estudos concedida pelo Deputado Romildo Bolzan que acabei por ali. Não havia como negar que era um intruso naquele ninho. Com exceção de dois ou três bolsistas, todos os demais colegas faziam parte das mais tradicionais famílias da cidade.
Mesmo que os colegas fossem extremamente gentis, não nego que sentia na pele as diferenças causadas pelo abismo econômico que nos separava. O desnível aparecia especialmente na hora do lanche. Tão logo soava o sinal de intervalo, meus colegas partiam como carros de corrida em direção ao barzinho da Tia Ana. Ali se fartavam com prensados acompanhados de Pepsi (a Coca não mandava ainda neste chão). Em regra, eu e mais um e outro, ficávamos na sala de aula mexendo nos cadernos e livros, como se alunos aplicados fôssemos, disfarçando uma falta de grana que impedia de matar a fome naquele instante. Vez por outra minha previdente mãe forçava que levasse na pasta uma banana ou um pedaço de pão caseiro com margarina. Confesso que tinha vergonha quando chegava a hora do recreio e me obrigava a abrir a bolsa e de lá tirar aquelas iguarias tão diferentes das dos meus colegas. Coisa de guri!
Acredito que muitos dos colegas nem notavam nossa exclusão. Não os culpo por isso. A meninada nem sempre tem um olhar atento, especialmente em relação às coisas que não fazem parte do seu mundo. Porém, um dia um querido colega, talvez compadecido da maleza que enfrentava, intimou que na saída deveria acompanhá-lo até sua casa para um café da tarde. Sua casa ficava no meu caminho de volta da escola. Dito e feito. Um convite desses não dá pra desprezar.
E o segui obedientemente. Ao chegar no local fui conduzido por sua mãe até uma farta mesa.Confesso que meus olhos de onze anos jamais haviam visto tanta fartura. Não que faltasse tudo em casa. Naqueles tempos sempre havia algum café. Muito embora não fosse comum a presença na mesa de café e leite. Se havia café certamente faltava leite. Se havia leite é certo que não havia café. Pão sempre tinha. Mas margarina não era sempre. Vez por outra, normalmente perto do dia cinco, a fatura permitia um pouco mais. E aí tinha doce de leite (que chamávamos de mumu).
Mas na mesa do meu amigo tinha coisa demais. Café, leite, iogurte (o que não era comum naqueles tempos), suco de laranja, chá, bolo, bolacha, pão de milho, broas, manteiga, mel, schimiers. Foi difícil deixar aquela mesa e voltar para casa. Foi difícil também provar tudo o quanto ofereciam.
Claro que hoje, passados tantos anos, passei por experiências tantas que uma mesa de café, que seja colonial lá de Gramado ou de Canela ou, ainda, de um hotel classudo, certamente não vão me impressionar. Mas, naquele tempo, foi o mais perto de um banquete que pude chegar. E as primeiras impressões ficam retidas na nossa mente.
Um verdadeiro banquete foi o que serviu aos amantes do futebol a Seleção da Holanda naquele mesmo ano. Em 1974, na Alemanha, a Seleção Laranja encheu nossos olhos. Era uma mesa farta. Intensidade física, disposição, luta permanente pela bola, recomposição defensiva rápida, dez atacantes e onze defensores e uma vontade interminável de vencer. Enquanto escrevo não sei se o Brasil chegará na final. Não sei se Holanda ou Argentina lá estarão. De qualquer modo, aquele café extraordinário que me foi servido pelo colega me faz lembrar que nossos olhos captam muito mais do que simples imagens. Por ali passam pequenas e grandes cenas com as quais vamos criando nossas realidades particulares.
A Seleção da Holanda foi derrotada em 1974 pelos alemães. Pouco importa. Aos olhos do menino de onze anos ali estava um banquete. E um banquete encanta. Um banquete merece ser lembrado. Um banquete é um banquete e pronto.

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