19/08/14

Raios e trovões

Se a noite está bela, se lua e estrelas iluminam o céu por aquelas bandas uma certeza se tem: ninguém corre perigo. A tranquilidade não será alterada. Os cães podem dormir tranquilos como dormem seus donos. As ferramentas podem descansar nos galpões, depois de um dia de muito trabalho. Os carrinhos de mão podem ficar abandonados no quintal. Enxadas, pás e picaretas nem precisam ser guardadas.Tudo ficará relaxando no seu devido lugar. As galinhas no poleiro, os porcos no chiqueiro, as cabras no potreiro. Se a noite está bela, tudo ficará onde deve. Não há certeza maior: amanhã tudo estará no mesmo lugar.
Mas, se o céu está rebelde e derruba água sem conta. Se raios riscam a escuridão e se jogam na mata, assustando os meninos que não conseguem dormir, o perigo está à solta. Se mesmo os cães, tão zelosos e valentes, abandonam seus postos e buscam refúgio temendo o barulho ensurdecedor dos trovões, todos têm certeza: Santolin está atento. E se o vento assoviar e com sua força jogar os galhos das árvores próximas da casa para lá e para cá e se esses galhos molengos como marionetes baterem nas telhas e assustarem o gato Mimoso, que se esconde embaixo do fogão de lenha, ainda quente, o homem encontrará todas as condições para agir.
Santolin entrará pelo portão da frente, passará pelo lado da casa, visitará os quintais, entrará nos galinheiros, carregará o que pode. E ninguém, absolutamente ninguém o verá.
E no dia seguinte, quando o vento já sumiu, os raios se foram, os trovões cessaram e a chuva passou, restará somente a lama no pátio, as folhas caídas no quintal e uma telha quebrada. O cusco com cara de sono se levantará lentamente. O galo que sobrou no galinheiro nem cantará. Triste, sentirá falta da companhia que se foi. E o dono da casa, que recém saiu da cama, passará as vistas pelo quintal e não verá mais o seu carrinho de mão. Chamará pela companheira, que já tem uma cuia na mão, e fará um leve movimento com o queixo mostrando o estrago que ficou. Nem vai procurar por ferramentas, por galinhas nem pelas cabras. Saberá que, naquela noite em que nem o diabo ousaria sair de casa, Santolin o visitou. E pedirá um mate. E vai sorvê-lo lentamente enquanto pragueja alguma coisa.
Para Santolin não importa se for compadre, parente ou amigo de longa data. Quando o caos se estabelece, quando ninguém sai à rua, ele se torna um bicho, enfrenta tudo o quanto pode, junta todas as suas forças e sai cortando o vendaval para uma visita aos colonos.
Dizem que ele leva tudo. Tudo não. Só deixa os cães. Respeita os amigos que nunca o denunciam.

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