05/11/14

Olhos verdes

A turma não era fechada. Havia um núcleo de três ou quatro fiéis escudeiros. Somavam-se mais quatro ou cinco preferenciais. A partir daí havia liberdade de buscar novos horizontes nas redondezas. Muitos destes contatos não aderiam à turma. Mas faziam, isso sim, parte da vida de alguns deles.
Não precisa dizer que eram adolescentes. Viviam na pequena cidade. O mundo era a rua. As garotas eram, em regra, as irmãs dos membros do grupo. Bem, na verdade, não eram suas garotas. Muitas delas eram sim o que queriam como suas garotas. Porém, não avançavam muito neste terreno.
Vez por outra apareciam, de surpresa, algumas pessoas que não faziam parte do grupinho, mas, por uma ou outra identificação, acabavam participando de algumas das ações.
Certa vez, a turma acabou recepcionando um belo rapaz, moreno, de olhos verdes, simpático e extremamente afetivo. Tinha um físico privilegiado. Era forte e simpático. Algumas vezes se encontram na rua, trocando ideias, discutindo pequenas questões de suas vidinhas. Porém, ele era volátil. Aparecia vez por outra e sumia sem deixar rastros. Ele era livre. Não se prendia à turma. Era independente. Dele pouco se sabia. De sua boca ouviam dizer que era filho de um político conhecido na cidade. Parece que sua mãe era empregada na casa e teve um caso fortuito com o patrão. Por não ter sido reconhecido como filho, carregava uma mágoa no peito, apesar de seus olhos sorrirem com frequência.
Num destes encontros rápidos, disse que no dia seguinte viajaria. Iria para Brasília tentar a vida. Queria algo diferente para si e para sua mãe. Estava determinado a procurar uma carona na BR 101 e dali iria aos poucos, até chegar à Capital Federal. Não sei se se abraçaram. Não sei se desejaram boa sorte. Talvez tenham sido frios. No íntimo, tinham certeza que tudo daria certo. E se não desse, voltaria a sua vidinha cotidiana. E voltariam a se encontrar talvez com mais frequência do que ocorria então.
Alguns dias depois, num dos encontros da turminha algum amigo em comum falou: “lembra do nosso, aquele que ia pra Brasília de caminhão? Ele não chegou lá. Fiquei sabendo que sofreu um acidente na estrada. O caminhão bateu. Ele morreu!”. Um silêncio tomou conta da turma. O tempo congelou por longos minutos. Estavam pasmos. Como assim? Isto não pode ter acontecido! Repetiam, chocados com a notícia. Alguns saíram a caminhar. Primeiro em silêncio. Depois começaram a buscar justificativas. Não havia explicação. Não tinha como aceitar aquilo. O cara estava alegre.Tinha felicidade nos seus olhos verdes, embora o coração sangrasse. Não tinha como dar errado. Mas deu.
A morte, que até então não fazia parte dos papos da turma, se apresentou de maneira traiçoeira.


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