28/10/14

Eu queria ser Peter Frampton

Com 10 ou 11 anos queria ser jogador de futebol. Sonhava até em vestir a camiseta da Seleção Brasileira. Disputar uma Copa do Mundo estava nos planos. Era um menino sonhador como são todos os meninos. Rivellino, com sua patada certeira e seu bigodão, cabelos longos e uma canhota de derrubar os adversários, saia dos jogos em preto e branco da Copa da Alemanha para os campinhos de pouca grama e muita areia. Todos queriam ser Rivelino, mesmo que a interpretação fosse pífia. No meu caso, faltava intimidade com o pé esquerdo e a penugem que ameaçava aparecer ainda não poderia ser chamada de bigode.
Havia outros quase tão bons quanto ele: Beckembauer, Müller, Cruyff e Neeskens. Mas eu, quando perdia a alcunha de Rivellino, optava sempre por Lato, um polonês, com poucos cabelos, mas dono de pernas ágeis e velozes e, além disso, de raro faro de gol. Em síntese, o atacante tinha tudo o quanto me faltava nas lides futebolísticas.

Já na adolescência, quando os anos 70 se encaminhavam para o final, mudei radicalmente de preferência. Ao invés do bigodão de Rivellino ou da calvície que se avizinhava em Lato, meu espelho apontava noutra direção. Queria ser Peter Frampton. Sim, senhoras e senhores! Confesso abestalhado que, no meu íntimo, desejava ser nada mais nada menos do que o astro do rock da época. Sonhava em ter um cabelo comprido, desalinhado, rebelde. Pensava até em usar uma camisa colorida, quiçá aberta no peito, combinando com calça jeans e tênis. Mostraria, assim, todo o vigor da idade. E, de quebra, ainda empunharia uma guitarra que falasse por mim, como falava a do Peter. Como mera consequência, transitaria por aí como um simples imortal sendo reverenciado por tantos quantos curtissem um bom som.
Tinha um problema. Aliás, meus sonhos de guri, em regra, apresentavam inúmeros problemas. Era um tímido. Mal conseguia abrir a boca para dizer “presente” na hora da chamada no colégio. E, isto, convenhamos era um obstáculo gigantesco para o astro que pretendia ser. Ademais minha configuração capilar impedia que as madeixas crescessem como naturalmente cresciam os cabelos dos roqueiros da época. Por mais que tentasse, os fios se dirigiam perigosamente às alturas, formando uma cachopa. Nem a força da gravidade, nem minha vontade apresentavam a força suficiente para jogá-los para baixo. E era para baixo que se dirigiam os cabelos rebeldes dos roqueiros de então.
Nos momentos de maior perplexidade, entendia que devia existir alguma conspiração para que meu intento juvenil não se concretizasse. Além do aspecto capilar, somava-se uma dose cavalar de desafinação. Porém, nem tudo é desgraça nesta vida de sonhos, que se arrastava muito mais para a mediocridade do dia a dia do que para a glória e a consagração pretendidos. Houve um dia, um só dia, em que as coisas pareciam que entrariam definitivamente nos trilhos.
Era uma tarde de verão. Daquelas em que o sol parece planejar o derretimento da Terra. Nunca tinha visto tanto calor por estes pagos. O tradicional ventinho da orla havia feito feriado. O jeito foi ir à praia. Solitário, encontrava-me em Tramandaí. A praia estava cheia. Pobres, ricos e remediados usufruindo de raro momento de integração. De sunga ou de calção, peito aberto no espaço, os meninos se misturavam naquele raro instante. A vermelhidão era grande. Não havia, ainda, a cultura da proteção da pele. O máximo era lambuzar o corpo com um “bronzeador”, que conferia ao indivíduo um aspecto graxoso.
Depois de queimar os ombros e envermelhar o que estava exposto, cansado mas alegre como convém a um menino de 16 anos, eis que chega a hora de recolher o time de campo. Na rodoviária, passando em frente a um grande espelho, notei que meus cabelos crescidos a mais da conta, com a ação providencial do iodo e do sal, davam um aspecto diferente. Ali, naqueles raros instantes, no fugidio reflexo, me senti o próprio ídolo do rock. Uma estampa pronta para ser admirada. Aliás, foi o mais perto que pude chegar daquela imagem.

Minutos depois, entrando no velho, lotado e quente Unesul de sempre voltei à realidade.        

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