02/10/14

A viagem

Quando nos damos conta,
 nossa memória está quase apagada.
Vai restando muito pouco.
O cronista, às vezes, parece viver fora deste mundo. Isto não é coisa nova. É uma tendência antiga. Porém, nestes dias tão marcados pelo excesso de informações, talvez soe mais estranho, ainda, esta determinação dos cronistas de permanecerem ao redor de seus sonhos, de suas constatações filosóficas e de seus delírios. E, mesmo enquanto muitos rangem os dentes e se agridem e se matam e transformam a vida no planeta num aparente caos, resistem o que podem, optando por temas que não estão na pauta dos telejornais.
O mundo pega fogo. Guerras, denúncias de corrupção, disputas pelo poder, permanentes bombardeios reais e virtuais. E o cronista ali, quieto no seu mundo, falando de coisas de sua infância, da cena que viu na padaria da esquina, do gosto do café que tomou no barzinho ou em suas significativas conquistas que, aos olhos dos outros, não passam de prosaicas histórias do dia a dia. Coisinha leve que, no fundo, não têm o poder de mudar o rumo da humanidade.
Sei que, por vezes, os cronistas sofrem por se sentirem assim tão distantes das manchetes dos jornais. E, certamente, há aqueles leitores mais críticos, ácidos e exigentes que também estranham. Como que, num mundo onde bombas destroem corpos de crianças e velhos, onde os sistemas de saúde não funcionam, onde as relações estão tão recheadas de preconceitos, este indivíduo se arvora no direito de falar destas situaçõezinhas que não influenciam em nada no funcionamento das coisas?
Ocorre que o mundo está cheio de especialistas. Há um sem número de pessoas preparadas, que entendem os meandros da política internacional, que destrincham com facilidade todos os detalhes da intrincada tramoia que envolve judeus e palestinos, que sabem muito bem como funciona a luta pelo poder entre as correntes que dominam o mundo árabe, que conhecem como funcionam as mentes dos terroristas e dos estrategistas da luta antiterror, que são capazes de antecipar com maestria as ondulações dos humores da bolsa de Tóquio. Ou seja, há especialistas demais para tudo.
O cronista, no entanto, é um generalista. É um contador de histórias pequenas. É um colecionador de pequenos dramas e de pequenas conquistas. É, por vezes, um antigo retratista distraído que tira fotografias na praça e desavisadamente consegue a proeza de focar sua lente mais no prédio do que na pessoa.
Me diz uma querida amiga que gosta de ler esta coluna especialmente quando identificamos as ruas, as pessoas e as situações vivenciadas por muitos de nós há algum tempo. O passado, segundo ela, vai sendo esquecido aos poucos. Quando nos damos conta, nossa memória está quase apagada. Vai restando muito pouco. Ficam somente pequenos fragmentos. As casas vão sendo destruídas. As ruas vão se modificando. Algumas pessoas partem de nossas vidas. Outras chegam. Eis que, um dia, notamos que tudo ao nosso redor mudou. E algo de importante se perdeu nesse tempo. Nossos olhos, focados nas questões mais prementes, no estresse das coisas a serem resolvidas, não notaram que o cenário foi se mudando. E nem mesmo notamos que nós mudamos.
Confesso que é reconfortante ouvir coisas deste tipo. É muito bom saber que, de algum modo, somos capazes de dar as mãos a alguns de nossos leitores e sermos aliados numa viagem leve e comovente a algum doce cantinho de nossa memória que um dia foi tão importante e que, no momento, estava fadado ao esquecimento.

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