16/10/14

Cheiro de pastel

Seguia pela avenida principal da cidade. Era o ponto de maior movimento. Uma ambulância havia passado pertinho dele. Sentiu mesmo no rosto o vento que fez. O som da sirene ainda reverberava na sua cabeça. As luzes do semáforo na frente se misturavam com todas as outras cores. Galhos de árvores, anúncios luminosos, letreiros anunciando promoções. Vozes se juntavam num zumzumzum incompreensível. Três por dez, três por dez. Calcinhas, calcinhas. Olha a mega, tenho os números premiados. Só 12 pilas. Fotos para documentos, fotos para documentos em um minuto.
Um cheiro forte de fritura saia da pequena lancheria. Era de pastel. Pastel de carne moída. Podia sentir o cheiro rançoso do azeite insistentemente aproveitado. Um aroma de café vinha do mesmo lugar.
Enquanto avançava na marcha, as imagens e os sons foram sumindo lentamente. Tudo o que havia há pouco foi ficando para trás. O relógio parecia ter parado. Na verdade, para ele os ponteiros do tempo andaram no sentido inverso. A cidade não existia mais. O hoje não existia.
Agora já era passado. E, no passado, seus pés saíram da calçada e encontraram uma grande área verde, rodeada por árvores. Era mais que um campo de futebol, muito mais. Dois ou três, talvez. Em um dos extremos podia ver cavaleiros perfilados. Estavam todos de armaduras. Carregavam lanças enormes prontas a perfurar quem estivesse na frente. Na outra extremidade também cavaleiros. Armaduras e lanças da mesma forma carregavam.
Estavam prontos para o combate. Não tinham raiva, não tinham ódio. Cumpriam o dever de soldados. Marchariam contra os inimigos e tentariam jogá-los no chão. Perfurariam seus corpos, se pudessem. Sem motivos particulares. Sabiam somente que deveriam lutar. A ordem era essa. Senão, morreriam ali mesmo. Aliás, nem inimigos eram. Não se conheciam individualmente. Se identificavam tão somente pela cor da vestimenta.
Aguardavam as ordens de ataque. Os cavalos estavam nervosos. Os homens também. Um vento soprou. Quase cantou batendo nas árvores. Os comandantes sentiram que era mau agouro. Esperaram algum tempo. Nisso um cavaleiro apressado atravessou o campo e anunciou em alto e bom som: o rei está morto, mataram o rei. Suspendam a batalha.
E, subitamente, não havia mais motivos para a luta. A guerra era dos reis. E um deles não estava mais presente. Os soldados ouviram a ordem para abaixaram suas lanças. Depois seguiram ordenadamente para pontos distintos. Voltariam ali novamente quando outro rei determinasse. E os cavalos ficariam nervosos. E os homens também. E haveria sangue no lugar.
E o tempo avança depressa. E os carros voltam a cruzar por ali. E os semáforos voltam a ordenar aquela desordem. E o cheiro de fritura volta a tomar conta. É pastel. De carne moída.

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