27/10/14

A vida comunitária

E durante toda a noite, os casais rodopiarão
pelo salão apinhado 
Na pequena vila a vida é comunitária. As dores de uns são as dores de outros. Os prazeres de uns são os prazeres de outros. Os sonhos e os pesadelos de uns são sonhos e pesadelos dos outros. Porém, os pecados são casos particulares.
Quando raramente alguém morre por ali, a vila toda se compadece. E todos choram ao redor do caixão e abraçam os familiares com verdadeiro pesar. Lembram passagens de glória do morto e dos tempos em que era um indivíduo cheio de virtudes. Alguns lançam aos céus sua inconformidade. Questionam Deus que o levou. E há os ajudam nas lides dos atos fúnebres. Alguns se encarregam de avisar os parentes que moram mais longe. As tias mais velhas invadem a cozinha. Fazem café forte para enfrentar a noite. Algumas trazem biscoitos feitos no dia anterior. E sempre haverá alguém que fornecerá mel, salame e queijo colonial. Os donos de casa perdem a direção do lar. Devem se ocupar tão somente de viver a tristeza da perda. É para isto que estão ali. E todos vão contribuir para que isto aconteça.
Após as rezas e os choros, o caixão é coberto de terra por dois sérios coveiros. Acostumados a levar à cova velhos e moços, mantém o olhar respeitoso e lançam lentamente pás de areia sobre o caixão, contribuindo assim para alongar o triste ritual. Depois, todos voltam para suas casas com ar de tristeza. As tias na alma levam o sentimento de que tudo fizeram para agradar aos vivos e ao morto.
No baile anual da comunidade, os preparativos começam antes. Os homens da comissão central cuidam da cerveja e dos refrigerantes. O salão foi limpo. A pista encerada para que os pares deslizem sem qualquer problema. Prepararam o troco para evitar o aperto. As mulheres, por sua vez, trabalham a massa do pastel e cozinham a carne. Dona Maricota diz que a massa deve ter algumas colheres de cachaça. E todas concordam. As cucas e as linguiças já estão prontas.
Seu Manuel, homem de pouco riso, tem uma função em toda aquela preparação. É o fogueteiro oficial da festa. Quando tudo estiver pronto e os primeiros casais começarem a aparecer na frente do salão comunitário, enfatiotado como sempre, Seu Manuel acenderá o primeiro foguete. E depois lançará outros rojões. Quem o vê assim não o reconhece. Sua alma parece de uma criança risonha brincando com o presente recém-recebido do papai. O barulho vai alertar a todos. Está na hora da festa começar. E durante toda a noite, os casais rodopiarão pelo salão apinhado, atingindo sem maldade outros dançarinos com cotoveladas e pisões nos pés.
E os rapazes mais novos olharão com satisfação as meninas de trança, metidas em seus vestidos de festa que destacam os seios juvenis. E as seguirão para lá e para cá num doce ritual de sedução. Sonham colar seus rostos nos rostinhos alegres das meninas e apertar seus corpos e beijar seus lábios.
E muitos outros gastarão seu tempo cuidando os passos dos outros. Ficarão de olho se a velha viúva dançará alguma marca com Seu Manuel, o fogueteiro. Ele tinha dito durante a semana no bar que, finalmente, a convidaria para uma dança. E as tias seguem Seu Manoel a cada passo. Torcem e fazem apostas. Riem sem medo e se acotovelam quando notam qualquer movimento suspeito.
Mas não só o fogueteiro recebe os atentos olhares. Também o único professor do lugar, Aníbal, que já chegou há tempos e ainda não constituiu família, merece toda a atenção da comunidade. Alguns dizem que sofreu grande desilusão amoroso e por isso se enterrou naquele lugar. Apesar do respeito que goza no meio, não faltam comentários maliciosos sobre a solteirice do professor.
Os festejos vão até o amanhecer. E os homens voltam para a casa trôpegos e as mulheres satisfeitas. A velha viúva tristemente se recolhe sem ao menos uma marca ter dançado.
No meio da manhã, todos se encontrarão na igreja. A viúva já não mostrará a tristeza de antes. O fogueteiro não parecerá o menino de ontem. E todos rezarão com desmedido fervor. Cantarão os hinos e farão o sinal da cruz. Lavarão suas almas pedindo perdão pelos excessos cometidos na noite anterior. Sairão dali com a certeza de que o sacerdote vai perdoá-los. Aliviados, guardam no peito o sentimento de que na próxima festa, apesar dos pecados cometidos, garantirão novamente uma pequena fortuna para a ampliação da Casa de Deus.

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