21/12/2016

O Envenenamento

Sócrates, filósofo grego, foi condenado à morte. Em sua cela, após refutar a possibilidade de negar suas ideias e pedir clemência, ingeriu, conforme a pena prevista, um dose de cicuta, uma planta contendo veneno mortal. Poderia ter evitado isso. Mas, preferiu manter-se firme e forte na convicção da imortalidade da alma do que viver mais alguns anos como um velho desonrado. 
Historicamente, o veneno sempre foi meio eficaz para a morte silenciosa. Nos tempos mais antigos, antes das garantias e certezas dos exames laboratoriais, o envenenamento era morte certa e autoria quase sempre indefinida. Nos manuais de medicina legal, ainda consta que foi, por muito tempo, a forma de vingança mais feminina. O tal veneno da mulher literalmente passava por algum frasco contendo alguma substância que corroía o desafeto a partir de suas entranhas. 
Talvez ainda exista em algum lugar, neste vasto território, quem faça uso de tal expediente. Porém, as doses de venenos já estão incorporadas na vida diária de forma insuspeita. Não é mais dispensada reverência a gênios do conhecimento, da filosofia. O objetivo não é mais calar alguém que tenha alguma proposta diferente. É muito mais pela praticidade e pelo lucro.
Em praticamente todos os alimentos industrializados há componentes artificiais, segundo padrões técnicos estabelecidos por entidades insuspeitas, mas que, se consumidos insistentemente, envenenam as pessoas. Alguns deles têm como objetivo ressaltar o sabor, outros em manter os alimentos com melhor aparência, aumentar a vida útil e uma série de outras razões absolutamente justificáveis. 
Como a alimentação é uma imposição, é indispensável à vida e ninguém tem tempo para plantar e colher sua comidinha do dia a dia, resta fechar os olhos e se deliciar sem grandes dramas. Gorduras, açúcares, minerais, conservantes somam-se e formam verdadeiros coquetéis disfarçados de pizzas, bolachinhas, refrigerantes, molhos prontos, iogurtes e milhares de outros produtos.  Sem contar na carga de agrotóxicos lançados na lavoura e que visitam nossa mesa através do arroz, milho, tomate, pimentão, cenoura, uva, maçã.
Como são poucas as alternativas, além da compra de produtos orgânicos (nem sempre disponíveis nas cidades menores e com custo mais elevado), o envenenamento continua, sem apresentar grandes gritos. Segue silencioso como a cicuta que consumiu Sócrates. Claro, as doses são mínimas e os efeitos variam de pessoa para pessoa conforme sua pré-disposição orgânica e sua dieta. Diferentemente do que ocorreu com o filósofo, aqui nem se trata da execução de uma pena. Não importa o nível de pensamento filosófico do indivíduo. Não há processo em andamento. Estão condenados todos. Sem apelação.
Mas, nem tudo é tão negativo assim: resta-nos, tanto quanto restou a Sócrates, a imortalidade da alma.

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