25/05/11

A dor do abandono


Um fenômeno silencioso vem ocorrendo no interior. Casas, ainda em bom estado, foram fechadas. O mato toma conta do que outrora era um bem cuidado pátio. Os moradores há muito abandonaram a propriedade.  Mudanças na legislação expulsaram os antigos colonos para a cidade. Já envelhecidos, com saúde comprometida, não restou mais nada o que fazer. Aqueles que construíram algum patrimônio abandonam os hábitos antigos e se tornam citadinos, preservando o gosto pelo cultivo na manutenção de pequenas hortas. Outros tantos ocupam um puxadinho estrategicamente construído nos fundos das casas de um filho.
Os que teimam em ficar no seu pedaço de terra, no interior de Maquiné, onde criaram seus filhos, sentem-se vigiados e perseguidos por uma bem montada estrutura fiscalizadora, que impõe pesadas multas e processo criminal por ações antes consideradas absolutamente normais como a derrubada de uma árvore, uma roçada ou pelo aproveitamento de um fio de água que corre morro abaixo.
Alguns, já octogenários, sofrem como prisioneiros. Foram surpreendidos. Viviam normalmente, sem planos para o futuro, aguardando a hora de partir, quando agentes da lei passaram a visitá-los e a encontrar irregularidades em suas terras. As vindas na cidade se multiplicaram. Antes o máximo que saíam era até o mercado, onde buscavam aquilo que não conseguiam produzir ou algum luxo qualquer. Audiências, acordos, advogado, denúncia, defesa, palavras desconhecidas até então, começaram a se fazer presentes no vocabulário.
Nos seus relatos, o que consideram pior é a falta de alternativa. Não têm a quem recorrer. Um senhor, acossado por problemas de pressão e de insônia, triste, desapontado, relata que a fiscalização implicou com um poço aberto há mais de 50 anos, tendo sido lavrado auto de infração. A água, usada há muitas décadas para matar a sede de sua família, virou uma dor de cabeça enorme. O fantasma da punição o persegue, tirando seu sono e a sua saúde. Não resta mais nada, mas, mesmo assim, se nega a abandonar a casa que construiu com tanto suor e dedicação. É um dos últimos antigos moradores da linha.
A preocupação com o ambiente natural é desejável e legítima. Todos os esforços devem ser direcionados para que a Terra não seja ainda mais constrangida, danificada, vilipendiada. Porém, uma conhecida lei universal e irrevogável vige, a lei do bom senso. Embora não esteja inscrita nos códigos, manuais, normas e regulamentos esta lei deveria fazer parte dos currículos de formação das autoridades, especialmente aquelas com poder de fiscalização. 
Enquanto a referida lei não se aplica, casas invadidas pelo mato abundam. Doentes, os antigos donos sofrem em algum lugar. 

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