12/07/11

Hora do cafezinho

As lendas são contos fantásticos, que explicam o surgimento das coisas. Há lendas para tudo. Aqui no Brasil há lendas que explicam o aparecimento da mandioca, do açaí, do guaraná, todas elas de origem indígena. Em todas há um ponto em comum: o sofrimento de alguém numa tribo deu origem a um fruto que se tornou importante para os índios. O produto mais apreciado pelos brasileiros na atualidade, no entanto, escapa a este padrão.
O apreciado café, cujo surgimento real ninguém ousa datar, teve sua origem lendária bem longe daqui. Conta-se que na Etiópia, há mais de mil anos, o pastor Kaldi notou que suas cabras aparentavam contar com energias renovadas após consumir uma fruta amarelo-avermelhadas de uns arbustos que nasceram por acaso em seu campo. Resolveu narrar a história um monge, que  apanhou um pouco das frutas e levou consigo até o monastério. Após usar os frutos na forma de infusão, percebeu que a bebida o ajudava a resistir ao sono enquanto orava ou em suas longas horas de leitura do breviário. A descoberta se espalhou rapidamente entre os monastérios, criando uma demanda pela bebida. As evidências mostram que o café foi cultivado pela primeira vez em monastérios islâmicos no Yemen.
Entretanto, até se consolidar, o café foi vítima de movimentos religiosos radicais que viam na bebida algo de satânico. Segundo consta, lá pelos séculos XVII e XVIII, ocorreu verdadeira cruzada muçulmana contra o café. Algumas casas públicas, onde a bebida era degustada, foram vítimas de ataques terroristas. Houve governos no oriente que proibiram o café em seu território, chegando a punir exemplarmente os infiéis com açoite e até com a pena de morte.    
O surgimento do costume do prosaico cafezinho teria ocorrido em Constantinopla, onde foi aberto o primeiro café – Kiva Han-, no meio do Século XV. Só no Século XVII abre o primeiro café europeu, em Londres. Nesta viagem lenta, porém consistente, o café chega ao Brasil no século XVIII, tornando-se grande fonte de renda para a agricultura nacional, beneficiada pela farta mão-de-obra escrava, depois substituída pelos europeus, que aqui chegavam cheios de sonhos.
O café tem uma presença importante no cenário nacional. Nas repartições públicas, nas empresas, em qualquer lugar sempre há uma momento dedicado ao café. Tal qual ocorria com as cabras do pastor Kaldi, após o consumo da bebida as baterias encontram-se incondicionalmente recarregadas e o sujeito pronto para outras atividades. Mas o café para se fazer valer tem que ser bebido ritualisticamente. De preferência numa mesa onde várias pessoas estejam compartilhando o prazer. E aí, é momento da reunião de pauta, onde os assuntos do dia são debatidos, os técnicos de futebol se apresentam e acertam seus times, definem suas táticas e mudam tudo para melhor. A economia, a política, as artes e até a filosofia podem merecer apreciações altamente abalizadas. As penas são majoradas, a tolerância com a bandidagem cai a zero. Resolve-se tudo rapidamente, sem embaraços.
O café tem outra vantagem. Se porventura for derramado, sua mancha é facilmente removida. Não ocorre o mesmo com as assertivas espalhadas pelos convivas sobre a mesa. O cafezinho de uns pode azedar o de outros. Não há açúcar que dê conta se a vibração da mesa for lá embaixo. Aí sim entra o álcool em ação. Somente após uma boa limpeza e uma providencial lufada de vento é que a mesa estará pronta para receber outra rodada. 
Vai um cafezinho, aí? -De preferência com boas vibrações! 

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