03/11/11

O canto dos pássaros

Dia desses uma colunista de destaque na mídia regional, escritora conceituada e guru das mulheres de todas as tribos, ousou nadar contra a correnteza e desconstituiu uma das clássicas imagens de beleza que a natureza nos oferece. Disse que estava cansada do assédio dos pássaros que diariamente, às 06 da manhã em ponto, insistentemente protagonizavam um barulho ensurdecedor em árvore próxima à sua janela.
Nas redes sociais levou centenas ou milhares de chineladas. Gente que, democraticamente, criticou o ímpeto da articulista. Alguns mais exaltados chegaram mesmo a qualificá-la de insensível, problemática e outras coisas ainda mais pesadas. Sem contar com uma procuração fiz a sua defesa (como se ela precisasse disso). Na oportunidade lembrei que os cronistas, em regra, estão comprometidos com a sua verdade, expressando suas ideias sem censura. Fiéis às suas convicções, mesmo que momentâneas, vez por outra não agradam aqui e acolá. Além disso, o cronista não está escondido. No alto da página encontra-se seu nome e, muitas vezes, seu endereço eletrônico.
O episódio pode servir para uma rápida reflexão. Tudo o que há na vida, o mais belo, o mais feio, o mais comum, de algum modo apresenta muitas facetas. Dependendo do ângulo que analisamos podemos colher esta ou aquela impressão. Senão vejamos: não existe coisa mais bela, mais reveladora da vida, mais desejada do que o chorinho lamuriento de um bebê. Aquele serzinho, minúsculo, frágil, de poucos dias, tenta revelar alguma mensagem em seu choro. Muitas das vezes o pranto se esvai só com o aconchego da mãe, com um carinho, com uma teta que mata a fome. 
Experimentemos, porém, um choro ininterrupto da mesma criança, dentro de um ônibus que segue de Osório a Porto Alegre. Serão 100 quilômetros não de beleza, não da manifestação do belo, da natureza, mas sim da tortura e do desconforto. O choro infantil, insistente, ininterrupto causa irritação, apreensão. 
O chilrear diário me acorda às 06h. Se a noite foi bem dormida, muito bem! Se não foi, depois recupero. Porém, confesso que não é todo o dia que abro a janela do meu quarto e saúdo efusivamente os pássaros cantores, bela obra do Criador. A contrariedade, é bem verdade, era maior quando o horário de verão não havia iniciado. Os safadinhos iniciavam a cantoria às cinco da matina. Pareciam ainda mais dispostos, mais excitados, com fôlego redobrado. O canto ainda mais belo, observariam alguns. Ou mais irritante, diriam outros. 
Como tudo na vida, a conclusão depende do ângulo de visão de cada um. Simples assim. A mesma cena a instigar sensações tão diferentes. E isso se repete diariamente, de modo sutil, escapando da nossa percepção. 

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