04/07/12

A breguice

Odair José (arte pop)
Existe verdadeiro movimento, iniciado por uma dessas indefectíveis novelas da Globo, com o intuito de promover o brega como movimento cultural. Porém, a iniciativa carece de legitimidade. Aquilo que se diz brega é, na realidade, uma mera representação. Nada daquilo é original, portanto o tal movimento contraria uma das regras mais claras da cultura brega nacional: o brega é brega não porque quer, mas sim porque a coisa não alcançou o nível desejado. A obra brega é algo que deveria ser de bom gosto, mas por carências da fonte criadora não atingiu o alvo desejado.
A intenção do verdadeiro brega não é ser brega. As músicas bregas são feitas para serem servidas com honestidade. As frases são compostas com o objetivo de agradar a todos. É tudo legítimo, verdadeiro. Os arranjos simples e corriqueiros são produzidos dentro de um conhecimento limitado, mas são para serem levados a sério. Não é uma bobagem qualquer.
Ou alguém duvida que Amado Batista quando cantou a plenos pulmões uma música em que narra a infelicidade da perda de um amor numa fria sala de cirurgia queria fazer gracinha, queria agradar a um público brega? Não, ali há seriedade não deboche. A dor é verdadeira. É um drama.
Mas então o que é brega? É brega tudo aquilo que é exagerado, que, no fundo gostamos, mas não podemos dizer, pois o padrão de bom gosto é outro. Não se discute se é bom ou ruim. O que importa é a estética. Porém - sempre há um porém-, o legítimo brega não é artificial. Ele nasce da inventividade nata do ser. Ele é concebido para ser algo normal, de bom gosto. No entanto consegue alcançar tão somente os calcanhares dos de “nível”, aqueles que se colocam lá no pelotão da frente. Aí, o que resta, é ser o consolo da galera que marcha lá atrás, dos desavisados ou descolados de toda a ordem.
Dias atrás, num bate-papo trivial, revelei a um amigo que gostaria de produzir uma festa brega. Algo bem “trash”. No estilo daquelas que há em São Paulo e em outros grandes centros. Seria o apogeu da breguice. Um culto àqueles esforçados compositores e cantores bem intencionados que inadvertidamente erraram nas tintas. Só tocaríamos os clássicos de Sidney Magal, Sérgio Mallandro, Gretchen e todos os outros da Buzina do Chacrinha. Na hora da lentinha, Gilliard (aquela nuvem que passa lá em cima sou eu), Peninha (tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo, crescendo me absorvendo), Diana (ó meu amado porque brigamos), Rosana (como uma deusa) e coisas que tais. 
Porém, neste assunto, tanto quanto nos outros, não há unanimidade. Quando falei em tocar Não se Vá, da Jane e do Herondy, um clássico do romantismo pátrio, uma versão de uma música italiana, meu parceiro subiu nas tamancas: “mas como, essa música faz parte da minha vida. Não é Bega coisa nenhuma!”. Discutir, debater pra quê? É muito brega tentar convencer alguém que francamente não está nada disposto a se despir do sentimentalismo e analisar com um pouco de profundidade as circunstâncias que o cercam. 
Não é exagero admitir que o que hoje é sinal de contemporaneidade, amanhã poderá fazer parte do acervo da breguice. A vida é dinâmica. Tudo vai se ajeitando ao longo do tempo. Bom gosto e mau gosto, finesse ou canastrice são conceitos mutantes. Aliás, mutantes somos tomos todos nós. Somos como nuvens que passam no tempo devido. O desprezível de ontem poderá ser cult amanhã.
 Credo que brega esta última sentença, hein!?


Coisas do mundo brega:
Conceito de Brega
Artigo A EXISTÊNCIA INEXISTENTE DA MÚSICA BREGA
O que é ser brega? 
Trash 80
O fino do  brega

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