22/06/12

O frasista

Quem com frequência escreve ou tem como ofício a fala não escapa à tentação da busca da frase perfeita. O frasista é o sujeito que investe algum do seu tempo na composição de frases estilosas.  Nos tempos atuais onde todos, de intelectuais a idiotas, divulgam suas ideias no meio virtual, parece restar muito pouco a ser dito. Sócrates, Platão, Cristo, Charles Chaplin, Lao-Tsé, Confúcio, Jean Jacques Rousseau, Chico Buarque e tantos outros não conseguiram esgotar o repertório. Sempre sobarará algo a ser dito com estilo, sutilezas ou mesmo grosserias criativas.
Dentre os frasistas pátrios dois se destacam. O humorista Millôr Fernandes, que nos deixou neste ano, e o gaúcho Aparício Torelly, o Barão de Itararé, são os representantes máximos das provocantes sacadas, muitas das quais já se incorporaram à nossa linguagem como se fossem adágios populares. São dois sábios brincalhões que não fogem de nenhum assunto. Acham graça da vida, das dificuldades cotidianas, da pobreza, da riqueza, da intelectualidade e da boçalidade.
A propósito do hábito milenar de aconselhar os amigos, Millôr construiu uma pérola: “Os nossos amigos poderão não saber muitas coisas, mas sabem sempre o que fariam no nosso lugar”. Sempre atuais são as assertivas de Barão de Itararé, especialmente aquelas relacionadas ao panorama político nacional. Corrupção, desvios, desmandos, sacanagens afins tão comuns nos dias de hoje sempre fizeram parte do cotidiano tupiniquim. As negociatas, que como cachoeiras transbordam o nosso dia a dia ocupando páginas e páginas de jornais e revistas, causando enfado e desinteresse pelos sórdidos estratagemas usados por esta gente que só pensa em encher os bolsos, não é coisa nova. Itararé não é nada otimista, talvez acredite que cada indivíduo tem um canalha por dentro esperando a sua vez de fazer parte desta farra nacional quando diz que “negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados”. 
Nos tempos em que, ainda menino corria de pés descalços atrás de uma bola qualquer, conheci um frasista excepcional. Era simples, engraçado e pragmático. Não era um intelectual, longe disso. Não se preocupava com os grandes dramas existenciais. Lutava pela integridade dos nossos jogos infantis. Atendia pelo nome de Acelino. Era, ao que consta, sargento da Brigada. Na Costa Gama, onde hoje está o prédio do Corpo de Bombeiros, meia dúzia de meninos sacrificavam seus finais de tarde no doce labor de judiar da gorduchinha. Postado atrás, com seus quarenta ou cinquenta anos, comandava a defesa, o meio e o ataque de seu time. Tinha um estilo particular. Enquanto a bola seguia seu curso narrava a partida soltando suas frases estimulantes ou alertando seus companheiros de equipe sobre os perigos que esta ou aquela jogada poderiam resultar.
A bola chegava perto da sua área e ele gritava “ih, chegou na zona do agrião!”. Era a senha para que o time recuasse rapidamente evitando, assim, o achaque do ataque adversário. Uma jogada habilidosa, destas que levantam a geral, e a plenos pulmões o zagueirão gritava “aahhhh, incendiou o Maraca!”.
Com o tempo os meninos foram se dispersando. O Seu Acelino sumiu das redondezas. O antigo campinho deu lugar à guarnição do Corpo de Bombeiros. Ainda hoje quando assisto a um jogo e acompanho a trajetória da bola sobre a zaga do meu time pressinto que alguém não vai perdoar o erro. Nestes segundos, enquanto a redonda se oferece ao apetite de um implacável zagueirão vindo de trás, ainda ouço a sentença gritada pelo criativo jogador e frasista: “”ih, fedeu a boné queimado!”. 

Umas que outras frases que merecem ser lembradas

Stanislaw Ponte Preta
"Consciência é como vesícula, a gente só se preocupa com ela quando dói".

Millôr Fernandes
 "Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem".
"O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde".
"Por mais violento que seja o argumento contrário, por mais bem formulado, eu tenho sempre uma resposta que fecha a boca de qualquer um: "Vocês têm toda a razão"."

Barão de Itararé
"O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro."
"Eu Cavo, Tu Cavas, Ele Cava, Nós Cavamos, Vós Cavais, Eles Cavam. Não é bonito, nem rima, mas é profundo..."
"Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta..."


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