29/08/12

Os imprestáveis

A cena deve se repetir por todo o Brasil. A dona de casa, caprichosa como ela só, comprou um sofá novo. O outro, que perdeu o lugar na sala, puído pelo uso não serve mais. Como a madeira que o sustentava foi vítima da ação predatória dos cupins nem o mais pobre dos pobres da vizinhança o aceita como presente. Sem pestanejar a diligente dona encarrega dois meninotes para sumir com o móvel. Como a paga é pequena, dois picolés de suco, carregam o pesado sofá até um terreno baldio e ali o abandonam. 
Claro que a historinha acima foi gerada pela minha criativa mente. Porém, mesmo que com uma ou outra variante, não encontro outra explicação para o número exagerado de sofás, cadeiras sem um dos pés, geladeiras sem portas, mesas claudicantes e armários sem serventia que são abandonados em terrenos baldios em nossa cidade. As pessoas resolvem os problemas de falta de espaço nas suas casas e largando as quinquilharias que um dia serviram por aí.
Outro hábito infame é o de jogar lixo pela janela do carro. Isto é mais comum do que telefone celular. Como moro um pouco antes do acesso de uma rodovia, vez por outra flagro motoristas parando seus carros para jogar seus lixos no passeio público. Restos de um salgadinho, latas de cerveja e refrigerantes, CDs riscados e algo mais que possa estar sobrando dentro do carro. É uma falta de vergonha, de apreço pelo bem comum, de respeito pela coletividade, de cultura, de educação. Muitos dos veículos que param não são jaburecas com paralamas amarrados com barbante ou arame. Não!  Muitos destes carros são vistosos denotando que o dono tem lá suas posses. Porém, dinheiro, posição social e preparo para a vida nem sempre andam no mesmo passo.
Dia desses um carro parava na BR 101 e despejava carcaças de um computador ao lado da rodovia. Cá entre nós, a vontade que dá é de parar e chamar a atenção do indivíduo. Na minha mente aparece o intolerante Kico, personagem do Cult Chaves, esta série interminável que o SBT reproduz há 30 anos, gritando sem vergonha nenhuma: “Gentalha, gentalha, gentalha!”. Vontade, como diria minha mãe, é coisa que dá e passa.
Calma lá seu moço, onde está a tolerância? A pressa fala mais alto e vamos seguindo nossos caminhos porque temos coisas mais importantes a fazer. Gastar tempo com reprimendas é prejuízo na certa. Como a intolerância anda solta, daqui a pouco o indivíduo está armado e uma simples lição de ecologia e cidadania vira mais um processo de homicídio doloso. 
E assim anda a turba. Atrás ficam monturros de restos de coisas que já foram importantes. O futuro neste passo nos remete ao caos. Evidentemente que as coisas mudam. Vagarosamente, mas mudam. A consciência coletiva e viva. Ela vai sendo gerada dia após dia. As mudanças são indispensáveis. O ritmo, porém, é lento. Quase imperceptível. 
Chegará o dia em que os sofás estarão nas salas ou nos locais de reciclagem. Não serão abandonados à ação do tempo em terrenos baldios. Os homens serão outros. 

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