17/01/13

Apreciando o movimento


Os carros passam em fila indiana. Apressados, os motoristas mal têm tempo de apreciar a paisagem. As casas vão passando uma a uma. Aos olhos dos condutores são a mesma. Porém, são distintas. Cada uma tem uma história. Cada casinha daquelas tem uma personalidade. São lares de gente que planeja o futuro, que trabalha. Ou de gente que só vive o dia de hoje e não se preocupa com o que vem por aí. Ou, ainda, de gente que vive do passado, revolvendo memórias de coisas que se passaram, que marcaram a existência. Não planejam o futuro. Talvez até pensem que ele não exista. 
Uma senhora, alva, idosa, assiste ao movimento da BR. Com seu vestido floreado  sentada confortavelmente numa poltrona, aprecia sem pressa os carrinhos que desfilam diante de seus olhos. Talvez faça como fazíamos nós, eu e meus irmãos, que criávamos jogos. “Os carros vermelhos são teus, os azuis são meus”. Invariavelmente, em algum momento, dava algum desentendimento. Ao contrário de nós, ela não tem com que discutir, não tem como inventar regras de última hora levar vantagem sobre o oponente.  
Quando era pequeno, muitas vezes agia como a velha senhora. Gostava de apreciar o movimento que se deslocava ao litoral. Carros, carrinhos e carrões. Passavam rapidamente levando apressados veranistas secos por um pouco de água salgada e por um naco de areia da praia. Alguns vinham abarrotados de gente. Os vidros invariavelmente abertos, eis que ar condicionado naqueles tempos era luxo hollyudiano. Além do sobrepeso interno, alguns dos pobres veículos ainda traziam no teto cobertores, acolchoados, colchões e outros insuspeitos volumes.
A praia era algo distante. Não estava nos nossos planos. O orçamento doméstico era deficitário. A rubrica para o entretenimento da gurizada era zero. Não só no verão, mas sim nos doze meses do ano. A solução era procurar algum açude para pescar alguns lambaris, joaninhas, carás ou trairinhas. Após a pescaria, com meia dúzia de peixinhos acomodados na improvisada fieira, chegava a hora do banho. A água era barrenta. Pobres das mães dos parceiros que ostentavam calções brancos.  
Tal qual a velha senhora, não fazia planos para o futuro. Curtia os dias de verão brincando de maneira improvisada. Brincadeira barata. Sem custos. No mais, no final do dia, na frente de casa assistia ao desfile de carros em direção às praias. As distantes praias do Litoral.  

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