02/01/14

Versos tristes

A tristeza, a solidão, a angústia e o abandono são temas de belas músicas. O sofrimento é um ângulo dos mais utilizados pelos compositores, que preferem contrariar a máxima de que todos gostam de um final feliz, como no cinema e nos romances. Nas canções o final nem sempre é de reconciliação, de encontro e de felicidade.
Roberto e Erasmo Carlos, cuja parceria vem desde os anos 60, talvez tenham cunhado os versos mais tristes que a MPB conheceu, na canção As Flores do Jardim da Nossa Casa. Lançada em 1969, a música aborda um final de romance dos mais depressivos. Seu ritmo lento e enfadonho vai envolvendo o ouvinte em ondas de total desilusão diante da vida. “As nuvens brancas se escureceram. E o nosso céu azul se transformou. O vento carregou todas as flores. E em nós a tempestade desabou”. Isso num tempo em que os ventos da Jovem Guarda ainda espalhavam certa leveza e graça.
O que Roberto e Erasmo fizeram não foi inovador. Uma das composições mais conhecidas do cancioneiro popular, de autoria de Angelino de Oliveira, lançada em 1918, a bela A Tristeza do Jeca, é paixão pura. Tristeza, sofrer, dor, triste, gemo, padecendo, saudade e choro são expressões que marcam a vida do Jeca que lamenta as desventuras e o distanciamento do seu cantinho empunhando uma viola. “Eu sou como um sabiá. Quando canta é só tristeza. Desde o galho onde ele está”. Perdendo as ilusões diante de um amor mal sucedido, Paulinho da Viola, em um  samba bem conhecido dos anos 70, Guardei Minha Viola, ameaça deixar de lado a cantoria. “Minha viola vai pro fundo do baú. Não haverá mais ilusão. Quero esquecer ela não deixa . Alguém que só me fez ingratidão”. 
Como tudo na vida, a dor e o sofrimento tendem a ser passageiros. Porém, os compositores, em alguns casos, cristalizam determinados momentos, na realidade pequenos fragmentos da vida, que ganham autonomia quando são recebidos pelo ouvinte. 
Mas nem tudo é tristeza. Nem tudo é só desilusão. Na música também há o  contraponto. Raul Seixas, cuja morte completou 25 anos em 2014, é autor de um verdadeiro hino à segunda chance, em Tente Outra Vez.  “Queira. Basta ser sincero e desejar profundo. Você será capaz de sacudir o mundo, vai. Tente outra vez”.

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