11/03/14

A borboleta

Uma borboleta surgiu no meio da cidade grande. Talvez tenha cruzado por um milhão de pessoas que a ignoraram. Uma delas, no entanto, deixou seus afazeres e dedicou parte do seu tempo a seguir o voo solitário. Disfarçadamente fez que não viu um conhecido. Não desejava perder de vista a pequena intrusa. Nem queria ser confundido com um louco, um debiloide qualquer que no meio da tarde quente anda por aí, irresponsavelmente, correndo atrás de borboletas pela rua. Isto, convenhamos, seria um atentado à reputação de qualquer um.
As desventuras do velho cronista seguindo uma simplória borboleta foi tema de uma crônica de jornal, de autoria do insuspeito Rubem Braga. Os leitores, com certa ansiedade, acompanharam durante três dias o surgimento, a trajetória e o sumiço da borboleta, que se perdeu das vistas de seu acompanhante sem deixar qualquer sinal, misturando-se aos prédios, árvores, carros e ônibus.
Não é por acaso que Braga é tido como um dos melhores, senão o melhor cronista brasileiro de todos os tempos. Que talento extraordinário e admirável esse que apresentam alguns poucos indivíduos de olhar para o quase nada e dali extrair um néctar encantador. Que percepção profunda e que audácia em expor coisas tão cotidianas e, ao mesmo tempo inusitadas e belas, que nas mãos pouco hábeis de outros se transformariam em um amontoado de palavras desconexas.
De onde surgem estas ideias que os criativos recolhem, digerem e devolvem em forma de prosa e de verso? Infindável mistério da natureza este da origem do pensamento. Alguém cético, despreocupado e de pouca fé, que busca afastar do centro das atenções o mistério, há de dizer que as ideias surgem do nada. No entanto, sabemos que o nada é estéril. Ele não dá frutos. Daí certamente nada sai.
Seguindo a trilha do antigo mestre Braga, imagino que as ideias são como as borboletas. Elas estão aí. Passam na frente dos nossos desatentos olhos, passeiam sobre nossas cabeças, se refestelam dançando harmonicamente. Alguns captam suas presenças. E aí investem algum precioso tempo em segui-las. Outros até as percebem, mas têm coisas mais urgentes a fazer. Têm contas a pagar e a agência bancária já está fechando. Desconhecem o pagamento direto no caixa eletrônico e é preciso correr. E as borboletas seguem porque a vida não pode parar. E sempre haverá algum desavisado e interessado que gastará míseros segundos ou parcos minutos em seguir o seu voo.
Não por acaso, assisti a um vídeo em que o violeiro, cantor e compositor goiano Almir Satter explica como surgiu a música Tocando em Frente, uma das mais belas peças produzidas neste país. Disse que ele e Renato Teixeira aguardavam enquanto a esposa de Teixeira preparava uma refeição. Nisso, usando um violão com uma corda a menos, Satter começa a dedilhar uma canção. Teixeira, mais do que depressa, pega um papel e uma caneta e, magicamente, como se estivesse em transe concebe a letra. Questão de um ou dois minutos e a obra está pronta e acabada. Letra e música.
Mostraram para os familiares, sempre suspeitos, e todos entendiam que ali estava uma obra-prima. Dias depois, Satter recebe um telefonema de Maria Bethânia, que não o conhecia pessoalmente nem tinha intimidade. E ela pede uma canção para o novo disco. O músico, ainda relutante, canta a música pelo telefone. A baiana emocionada diz na hora: “essa música é minha!”. E grava e encanta, como só ela sabe encantar.
Almir Satter, explicando o surgimento da música, disse que a canção foi um presente que ele e Renato Teixeira receberam. E mesmo o calejado artista, autor de inúmeras canções de sucesso, sabe que a inspiração veio de longe, não sabe bem de onde. Acredita que tenham recebido alguma ajuda. Crê que a obra tenha surgido através da psicografia.
As borboletas estão por aí. Voam livres. Surgem e desaparecem como se achassem graça da nossa cegueira.

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