06/03/14

As viúvas do General

Há alguns amigos que não perdem tempo.  Estão conectados com os anos de chumbo. Apavorados com a roubalheira, que ganha ampla divulgação pela imprensa, contrariados diante do resultado dos julgamentos dos corruptos e indignados pela fixação do regime de cumprimento da pena e por tantos outros capítulos que se seguem vagarosamente como as novelas das nove da noite, gritam por dureza, por penas mais fortes. Na realidade, o que desejam é uma resposta mais dura e que atinjam preferencialmente todos aqueles que não prestam: os outros.
No rabo deste foguete aparece uma foto de um antigo ditador de farda, fazendo previsões nada positivas sobre o futuro da nação. Requentaram até General no Facebook. E, ainda por cima, com cara de sério. Em síntese: querem uma nova ditadura para resolver o problema da sacanagem que campeia pelo país afora. Santa Ingenuidade, Batman!
Esquecem estes meus amigos que, se hoje no país uma ditadura estivesse em pleno vigor, suas postagens no face seriam censuradas. Só seriam aceitas as publicações que exaltassem os milagres protagonizados pelos governantes. Sem críticas, sem apontamentos. Qualquer coisa diferente e seriam banidos como inimigos do sistema. 
Concordo que não há como não se indignar com a situação vivida pelo país. Ninguém, com exceção dos beneficiados, quer a continuidade da corrupção. No entanto, a solução encontrada pelas viúvas do Golpe de 64 é contraditória. Os escândalos, que são inúmeros, vêm sendo divulgados e os culpados punidos. Isto, ao que consta, não ocorria naqueles tempos de escuridão. Ou alguém, em sã consciência, acredita que durante 21 anos de ditadura não houve qualquer espécie de corrupção neste chão?
O Brasil é um país que vive momentos contraditórios. Quando os ditadores sentavam o pau na cabeça daqueles que ousavam criticar, o sentimento era de que aquilo tudo tinha que acabar. Que o país tinha que abandonar aquele sistema opressor. Hoje, no entanto, quando a liberdade se estabelece, a democracia foi conquistada com muita luta, surgem vozes saudosas dos tempos de “ordem e progresso”. 
Cada um sonha o sonho que lhe cabe. De minha parte, sonho com um país democrático, com a redução da miséria, com a verdadeira inclusão social e com uma justiça que possa garantir a cada um aquilo que é seu. Com liberdade, é claro. Sem o medo da perseguição, sem o temor de omitir o que se pensa. Estamos longe disso? Sabe-se lá. Tenho certeza, porém, que já estivemos mais longe. 

Sempre é bom lembrar:


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