28/03/14

As opiniões

arte (extrasm.com.br)
Opinar é bom. É necessário. É fundamental, especialmente no processo democrático. Opinar sempre, independentemente do assunto torna-se cansativo. Perde a graça. Causa incômodo.
Nos dias de hoje, vive-se o império da manifestação. Nas redes sociais, então, não há limites. Compartilhe algo e chove manifestações questionando quais seriam as tuas intenções, criticando por isso e por aquilo. Se alguma ação do governo local é curtida, em segundos os guerrilheiros do outro lado crivam de comentários negativos. Ressalte qualquer aspecto da vida nacional e os críticos de plantão vão derrubar seus barris de ódio ao PT, à Dilma, ao Tarso e a qualquer um que possa ser criticado, mesmo que não tenha nada a ver com a história.
Está ocorrendo na internet aquilo que nós gaúchos estamos carecas de conhecer: a regionalização. Se alguém comenta uma vitória de seu time, algo banal, comum, corriqueiro e, muitas vezes despretensioso, acaba mexendo com uma galera radical que não sabe levar na esportiva. Alguns mostram os dentes ameaçadoramente, destilando ódio por todos os poros, babando pelos cantos da boca como os lobos enfurecidos. Homofobia, racismo, xingamentos diversos, expressões chulas, tudo sem muita medida, coisas desnecessárias poluindo aquilo que deveria ser uma ferramenta de diversão, de entretenimento, um reles passatempo.
Este sentimento vem saindo para a rua. O futebol, que era envolvido num clima gosto de flauta, de brincadeira, virou um território onde há espaço para matança, para a destruição do adversário. Aliás, adversário virou inimigo. A ordem agora é precisamos vencer, temos que vencer e, mais do que isso, temos que eliminar o outro. Arrancar sua camisa como troféu e destruí-lo. Mesmo que o moleque seja um bom menino, um estudante de futuro. Mesmo que seus pais, que o amam, chorem a perda e não se conformem nunca. Mesmo que seus colegas e amigos façam passeatas pedindo justiça. É preciso eliminá-lo.
No passado, o Campeonato Gaúcho tinha invariavelmente quatro Grenais. Dois na primeira fase e dois jogos para decidir a competição. Começava o Brasileirão e ocorriam mais dois. Era Gre-nal demais. Muita adrenalina. Muita tensão. O que vem acontecendo nas redes sociais é que o sentimento decisivo do jogo parece estar presente a cada postagem. É muita discussão, muita quizília.
A impressão que tenho é que há pessoas que vivem espreitando as redes sociais. Ocupação: dar pitaco em tudo e em todos.
Como já não tenho paciência para tanta discussão, tomei a decisão de não mais acessar rede social nos dias de jogos, sejam eles do Gauchão ou da Libertadores. Como há jogos quase todos os dias, de algum modo estou me desligando da rede. Cheguei à conclusão de que opinião demais pode ser cansativo. Excessos na democracia também não são bem-vindos.
E excessos é o que não falta. Que o digam os defensores dos cães, dos gatos, das ciclovias, dos governos, das oposições, das depredações “pacíficas”, da natureza, do materialismo, da religiosidade, do ateísmo, disso, daquilo e daquele outro.
Um querido amigo, de forma pacífica, ingênua e tranquila, dia desses, externou uma opinião. Horas mais tarde quando acessou novamente a rede constatou que havia uma centena de comentários ensandecidos. Levou um susto. Não sabia que atingiria tanta gente, tantos interesses com um comentário comum. Tinha mexido num vespeiro e nem sabia.
Este sentimento bélico, de quem patrulha tudo, de quem quer impor seu ponto de vista de forma desrespeitosa vai, de algum forma, destruindo a estrutura de forma que não foi prevista pelos seus criadores.
Coisas destes tempos em que se perde o amigo virtual , mas não se perde a oportunidade de dar um pitaco.  

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