28/06/14

Cheiro de maçã verde (crônica editada)

“Quando eu era criança o cheiro de maçã verde era tão forte que tomava conta de toda a casa”, disse a jovem trabalhadora, lembrando, em seguida, que as maçãs de hoje não têm o mesmo cheiro das de então. Certamente não têm, disse, me intrometendo na conversa que mantinham os colegas de trabalho. Disse mais, abusando da atenção que me davam naqueles breves instantes, enquanto escolhia batatas, pimentões e cenouras: as coisas no passado não tinham só mais cheiro, tinham sabor e textura diferentes. E não foram só as coisas que mudaram. Mudamos nós.
E não é para menos.  Com a passagem do tempo mudaram os produtos, a forma de produção, o processo de maturação e outras variáveis. Porém, creio que a mudança mais significativa ocorreu na menina. Quando tinha seus cinco, seis anos de idade, seus sentidos aguçados e atentos, percebiam com nitidez as nuances do perfume exalado pelas frutas, pelas flores. Os doces, os sorvetes, os picolés que porventura ganhava do seu pai - comprados num armazém, num bolicho ou numa venda-, as iguarias que a mãe, a avó ou uma tia preparavam apresentavam, com certeza, um sabor especial, inigualável e irrecuperável. Este gosto, por certo, não se repete. Ele era único e ficou preso no tempo.
Mudaram-se as receitas, muitas delas perdidas ao longo do tempo, mudaram as mãos que preparavam os quitutes com tanto cuidado, mudaram os ingredientes. A menina também mudou. Cresceu, passou por inúmeras experiências, começou a correr em função dos seus compromissos, deixando de lado um tempo que era só seu.  Passou a prestar a atenção no tempo comum, no tempo dos outros e perdeu a sua percepção particular das pequenas coisas.
O interessante é que, passado o tempo, poucas vezes resgatamos os sabores, as texturas, as cores, as formas e as sensações que um dia tivemos. Os registros arquivados em algum lugar vão se perdendo. Um apagão vai se construindo imperceptivelmente na nossa mente. De maneira indelével as memórias vão sendo superadas por informações mais recentes, por ações mais prementes. Hermeticamente fechado, nosso cérebro pouca concessão nos permite. Somente relâmpagos de memória, segundos de ilusão. Quando, por vezes, nos encontramos frente a frente com uma possibilidade virtual de rememorar não encontramos correspondência e nos frustramos tanto quanto se frustra a jovem que vê a maçã verde e não a reconhece mais. A intensidade com a qual sentia o aroma era uma particularidade sua e não uma propriedade da maçã verde.


Veja crônica original:

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