14/09/15

O Baile

"Olha que isso aqui tá muito bom..."
De longe se notava um alvoroço. Não dava para distinguir muito bem o que era.  Os carros iam parando. O trânsito se tornava lento. Num certo momento tudo parou.
 “Queremos nossos salários. Queremos nossos salários, queremos nossos salários”, gritavam no meio da estrada interrompida os trabalhadores. Preocupados, ostentavam faixas e cartazes mais ou menos agressivos, mas todos indignados. Num deles, o governante dança alegremente como se estivesse em um salão de baile. “Olha, que isso aqui tá muito bom, isso aqui tá bom demais; olha, quem tá fora quer entrar, mas que tá dentro não sai.
Fora do baile, os rostos são de apreensão. De tristeza, também. Em regra, não ganham o que merecem. Agora não recebem nem o pouco valor que o governo dispensa. Recebem um naco ínfimo que mal dá para o pagamento do mercado, da água e da luz. Se quiserem mais, se desejarem pagar em dia suas contas (como qualquer cidadão de bem deseja) que se afundem em empréstimos que os juros são de pai para filho. Senão, que deem calote porque isso é coisa as que normal, deve pensar o governante do alto da sua preocupação humanitária, enquanto se preocupa em culpar este ou aquele pela penúria que tem pela frente.
 Dentro do carro, irritado como sempre o chefe de família, que vai descansar alguns dias na praia, devolve o grito com gestos indelicados. “Ora bolas, que voltem ao trabalho, vadios”, pensou dizer. Mas, não disse. 
 O baile segue. Espetáculo lamentável. Até quando?  Neste caso específico, talvez nem Deus saiba.

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