22/09/15

O Centroavante

Peito de Aço era um centroavante nato. Desses que não existem mais. Um Dadá Maravilha, um Serginho Chulapa. Era magro. Suas canelas eram finas. Não tinha panturrilhas. Apesar disso, seu corpo não vergava à ignorância dos zagueiros. Eu mesmo, um centromédio dos tempos antigos, com muita vontade e alguma inspiração, era muito mais forte do que ele. Mesmo assim cheguei a experimentar a sua força.
Jogávamos em times distintos naquela tarde.  O campo era o da Dona Guria, no Bairro Glória. Era um campo pequeno. Os times eram de três jogadores. Quatro no máximo. Era muito baixo. A grama era fofa e vivia molhada. As goleiras eram feitas de chinelos havaianas, de latas de azeite ou de camisetas. Eram goleiras móveis, o que gerava alguma discussão quando a bola arrastava a trave. Era gol ou não?  Foi por dentro ou por fora? Impossível saber. Não havia tira-teima.
Em certo momento uma bola respingou perto da nossa zaga. Veloz como uma bala, Peito de Aço fugia sem marcação. Ninguém conseguia acompanhá-lo na corrida.  Todos viam que Iria domina a bola e aí seria gol na certa. E um gol sofrido era quase uma tragédia. Era um drama. Com algum desespero, cheguei junto, segurei a respiração e, como recurso extremo, joguei meu corpo contra o dele. Seria no máximo uma falta. Uma falta para cartão amarelo nos dias de hoje. No entanto, impávido, o adversário manteve-se equilibrado. Não saiu um milímetro de sua rota. Eu, ao contrário, como que atropelado por um boi bravo, caí no chão. Levantei-me em seguida, mais por orgulho do que qualquer outra coisa. Senti todo o corpo doendo. A respiração vez por outra falhava. Sentia forte dor na costela. Além disso, havia caído sobre um dos braços. Mas, as circunstâncias exigiam que me mantivesse de pé. Com dor, mantive-me. Nem mesmo balbuciei alguma reclamação.
O que tinha de forte e de rápido, Peito de Aço não tinha em habilidade. Todos sabiam o quanto de gols desperdiçava. Sua mira era defeituosa. E, para nossa sorte, ele novamente chutou a bola com muito defeito. A dor do choque, o entanto, me acompanhou por alguns dias. 
Quando a mim cabia a primazia de escolher o time, o primeiro que apontava o dedo era para o Peito de Aço. Melhor tê-lo por perto do que marcá-lo. Melhor uma singela derrota em campo do que curtir alguns dias de dores.
Peito de Aço era rápido em campo e na vida. Talvez tenha se encantado com alguma promessa de felicidade instantânea. E assim, cedo se retirou do espetáculo. Nos últimos tempos, ainda jovem, caminhava tresloucado pela cidade. Sempre sorrindo. Não adiantava cumprimentá-lo.   Ele não conhecia mais seus adversários nem seus companheiros.
Era um centroavante nato. Desses que não se encontra mais. Era forte. Porém, sua mira não era boa. Marcou poucos gols no campo e na vida.


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