02/09/15

Façanhas

Houve um tempo em que tudo aqui era melhor que no resto do país. Nossa polícia era melhor do país. A saúde era a melhor do país.  Nossa assembleia era a melhor do país. O povo daqui era o mais politizado. O mais culto. Tudo, tudo mesmo era melhor. O gaúcho vivia repetindo isso incessantemente. E, tal qual a mentira repetida inúmeras vezes, a sentença transitou em julgado. E a doce ilusão virou verdade.
Inebriados com tanto valor, com tanta distinção, criou-se o mito de que este pedacinho de chão seria autossuficiente. Fechando as fronteiras viveríamos como ricaços. Teríamos só as coisas boas. O resto que ficasse com o resto. Melhor só do que mal acompanhado, dizia a vovó, desconhecendo o natural temor dos indivíduos diante da solidão.  Um que outro levantou bandeiras: O Sul é meu país. E, mesmo sendo o melhor em tudo, pensou num país que incluísse boas praias (de Santa Catarina) e alguma pujança econômica (do Paraná). Afinal, nós somos bons sozinhos, mas temos um coração enorme e, assim, concedemos a graça aos catarinenses e paranaenses em aderir aos nossos sonhos. Um pouco de altruísmo faz um bem danado ao indivíduo.
O tempo passou. A máquina começou a perder força. Talvez tenha faltado lubrificação. Talvez tenha se desgastado pelo uso.  A engrenagem foi trancando. Até que parou. “A culpa não é minha. É do outro”, repetem agora os governantes como crianças que deixaram cair no chão o brinquedinho e precisam culpar o irmão ou o primo. 
De quem é a culpa? Não sabemos. Talvez nunca saberemos. Se foi do Amaral, do Jair, do Pedro, do Guazzellli, do Alceu, do Antônio, do Dutra, do Germano, da Yeda, do Genro ou do Zé não importa. Vá lá que seja culpa do Borges de Medeiros, do Júlio de Castilhos, de Getúlio Vargas, Flores da Cunha, Leonel Brizola e de outros tantos que viraram nomes de ruas. Talvez todos eles, de algum modo, tenham contribuído com algum ingrediente para que hoje o imobilismo tomasse conta deste pequeno torrão que ostenta (ou ostentava) tanto orgulho.
De algum modo hoje nossos governantes o que mais fazem é desautorizar o hino cantado a plenos pulmões antes dos jogos da dupla Gre-Nal: “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra”.

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