25/08/15

O Mapa múndi

O mundo aberto em frente aos nosso olhos parecia uma colcha de retalhos. Multicolorido, plano. O artesão, no entanto, não havia cortado os pedacinhos com esmero. Parecia que o tecido havia sido rasgado de qualquer jeito. Havia pedaços maiores, pedacinhos menores. Sutis linhas pretas separavam os pedaços. Uns riscos azulados corriam para cima e para baixo. Longas extensões azuladas destacavam-se.
Nas cabecinhas da terceira ou da quarta série, parecia pouco provável que aquela folha colorida fosse capaz de abrigar rios límpidos e cheios de vida, lagos congelados aguardando a chegada da primavera, montanhas que subiam em direção aos céus, florestas onde se escondiam sacis, iaras, lobisomens e mulas sem cabeça, cidades inteiras onde meninos corriam nos campinhos atrás de uma bola murcha ou nas ruas calçadas entre os raros carros que passavam, onde meninas pulavam de corda e as mães limpavam casas e colocavam a roupa no varal e, vez por outra, sapecavam uma varada nas pernas do moleque mal educado e linguarudo. Era difícil entender como cabia tanta gente, tanta coisa. Era impossível imaginar que naquele pedaço pequeno de papel carros vermelhos, azuis, verdes ou raramente brancos seguissem em fila pela estrada de piche em direção ao litoral.
Naqueles tempos, o mapa múndi era plano. Difícil entender quando a aplicada professora, sem vídeo de animação em três dimensões, sem qualquer outro recurso senão o estático livro  tentava convencer a turminha de que a Terra era redonda. E mais, que ela ainda ficava girando em seu próprio eixo e imperceptivelmente descrevia movimentos ao redor do sol. Tudo isso era uma abstração. Uma poesia que não fazia muito sentido. Uma folha de papel. Um desenho multicolorido. Difícil entender de outra forma.
Não foi abstração quando a aula de geografia terminou. A professora pegou seus mapas, apagou o quadro e saiu levando o mundo debaixo dos braços. O burburinho tomou conta. Não falavam sobre o mundo, sobre os países nem sobre rios. Falavam sobre nada. Uns verdadeiramente gritavam. A supervisora, com o rosto sentido e olhar cabisbaixo interrompeu a algazarra. Tinha um comunicado grave, com certeza. Era o que cabia a uma supervisor: apresentar algo grave, importante.
Os olhinhos ficaram em estado de alerta. As bocas pararam. Os dedos cessaram de tamborilar na madeira. O silêncio se impôs. “Infelizmente tenho que comunicar que faleceu um familiar da professora de Português. Hoje ela não pode comparecer. Recolham seus materiais, estão liberados do último período”. Dado o recado, saiu de mansinho da aula com sua missão cumprida.

Ainda no corredor, pode notar que o silêncio da turma foi rompido pela manifestação em coro: “ebaaaaaa!!!”. 

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