28/10/15

Fim de Tarde

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No final da tarde, quando o sol se escondia e a escuridão da noite ameaçava tomar conta, a vovó, colocada providencialmente perto de uma janela aberta por onde entrava um ventinho que empurrava a cortina branca para lá e para cá, dizia para seus netinhos, do alto de suas décadas de existência: “a vida dá voltas e voltas e nada acontece por acaso neste vasto reino que se move lentamente”. Não havia porque ter medo. Porque o medo afasta o indivíduo do seu caminho. Ele torna a vida mais difícil. Ele é capaz de mudar as cores das coisas mais belas. Ele mostra perigo onde não há.   Ele inibe e impede o avanço.

E distribuía regularmente tantas mensagens no meio de histórias tão simples para aqueles olhinhos atentos. Os dias passavam com certa tranquilidade. A noite, então, era lenta. Parecia que não acabava  mais. Não havia tevê ali. Só um rádio antigo que captava mais chiado do que a voz, do que a música. Raramente era ligado para poupar luz.
Um dia a vovó partiu. Como era de seu jeito sem aviso prévio e nem estardalhaço. Tranquila e leve como seu pequeno passo. E os meninos não mais ouviram sua sábia e tranquila voz.
A vida seguiu mesmo assim. Os netos cresceram com certa pressa. Hoje estão por aí. Advogado, comerciante, empresário. Cada um cuida de suas coisas. Cada um faz o caminho com os talentos que possuem, com os recursos que contam e com as  sortes e os azares que acompanham os homens e as mulheres que trilham por aqui.
E têm lá suas famílias que se encontram raramente. Nas datas especiais, casamento, batismo, funeral, voltam a se ver. E há uma emoção muito sincera e forte. Prometem se ver mais vezes. Mas, o tempo passa e os compromissos são enormes. E as promessas vão ficando no esquecimento. Há coisas a fazer. Muitas coisas. Faltam horas no dia, dias na semana. O tempo vai se consumindo de tal forma que parar não faz parte do dicionário de nenhum deles.
Mas, quando os reveses se apresentam, quando a sorte não os acompanha, quando a notícia não é boa ou mesmo quando um singelo ventinho de final de tarde entrando pela janela convida a  cortina para uma dança, onde estiverem ouvem a voz tranquila repetindo um mantra antigo: “a vida dá voltas e voltas e nada acontece por acaso neste vasto reino que se move lentamente”.

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