15/07/16

Guerra e Paz

Os exércitos antigos, formados por mercenários, viviam da guerra. Nos raros momentos de paz, o tédio tomava conta. Confinar-se numa pequena porção de terra , criar uma que outra vaca, semear algum grão para enfrentar o inverno, era sinônimo de falta de animação. Seus comandantes, homens fortes e valentes, pouco conheciam a expressão piedade. Por tudo isso, o vencedor de cada batalha encontrava-se autorizado a escravizar os vencidos, adonando-se das terras, dos rebanhos e das mulheres.
Era a lei de então. Dura lei. A lei de quem tinha mais homens, mais munição, mais coragem, mais estratégia, mais sorte. Os deuses estavam com os vencedores. Os perdedores foram abandonados por seus deuses.
Paz era coisa rara. Sempre havia um inimigo a atacar, um castelo a invadir, uma cidade a conquistar. A vida era, para aqueles homens, a própria guerra. E o sangue que banhava a terra representava heroísmo de quem morreu lutando para defender e coragem para quem impôs a espada. A conquista de território era o prêmio para o comandante. A expansão dos impérios, impondo suas crenças e valores, dava-se sempre pela espada. O produto do saque era o pagamento aos bravos soldados. Tudo muito simples. Sem grandes apelações.
A Europa cresceu manchada de sangue. Mas, nem só a Europa. O mundo se fez muito mais pela guera do que pela paz. Que o digam os indígenas americanos. Os daqui e os do hemisfério norte tiveram o mesmo fim. Dizimados por conquistadores. Ouro, prata e terras.
Os saques nos dias atuais são bem mais sutis. Mas, os males causados não são menos devastadores. Executivos, deputados e senadores de todas as laias, com o apoio de cupinchas de toda a ordem, tomam os cofres públicos de assalto. Antes, passaram por guerras pesadas onde acertam nos gabinetes estratégias  de conquistas de territórios: ministérios, secretarias, departamentos, empresas mistas. 
O sangue não rega o chão. Mas o cheiro de podre, mesmo assim, se espalha pelos céus. Alguns juram por Deus que são limpinhos. Mostram as mãos e não há marcas visíveis. Porém, um observador atento, que olhe hospitais sem vagas para internação de pacientes, filas e mais filas de gente que espera uma cirurgia capaz de retirá-la da fila da morte, o escárnio que se comete contra os aposentados, ressaltando diuturnamente de que seus justos e rasos benefícios são os responsáveis pela quebradeira do país, de que as migalhas distribuídas em forma de programa sociais vão inviabilizar as finanças da grande nação.
Chegou a hora de apertar o cinto. Sem qualquer correção nos salários dos funcionários públicos. Se quiserem coisa melhor que achem outra coisa para fazer. Aumento de impostos porque os cofres públicos precisam de um reforço. Aumento da   jornada de trabalho porque a vida do homem comum é trabalho. Só o trabalho é capaz de dignificar o trabalhador.
Fosse noutros tempos ou em outros territórios, como na França, por exemplo, isso seria uma declaração de guerra. Nossos mercenários, no entanto, não empunham espadas. Usam terno e gravata. Seus rostos são de bons moços. Têm modos e trejeitos refinados. E das tribunas tratam-se por Vossa Excelência!      

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