06/03/13

O direito de ser estúpido


As gerações passadas tinham certa ânsia pela revolução. Impulsionadas por uma música mais libertária, como o rock dos primeiros momentos, que sacudia as mentes e os corpos, os jovens dos anos 60 e 70 pensavam em construir um mundo melhor. Claro, não eram todos. Na verdade era uma minoria barulhenta. No ar, porém, havia um clima de que as mudanças radicais um dia ocorreriam e o mundo velho se encheria de paz e de amor. Convenhamos que o mundo pensado dessa forma seria um bom lugar para se viver. As diferenças ficariam no passado. Sem divisão de raças, de credos religiosos, de cor, de forma e de condição financeira. Um mundo mais justo e bom para todos.
O rock acabou. Surgiram outros ritmos, outras motivações, outros discursos, outras decepções. A revolução como se pensava não veio. O mundo foi ficando um pouco mais medíocre, inclusive na música, que hoje anda um tanto quanto sem inspiração.
Mesmo sendo um legítimo representante dos alienados dos anos 70 e 80, que não percebiam as coisas ocultas do mundo pátrio (repressão, ditadura, economia maquiada, manipulação de informação, censura, perseguições e mortes) por falta de maturidade e informação, não posso negar que, lá no fundo, sinto saudade daquelas coisas que não vivi, do movimento que não participei e mesmo das ideias libertárias que não compartilhei. Coisa de louco poderá dizer alguém com algum bocado de razão.
Agora, enquanto componho esta crônica, lembro que dia desses um grupo de jovens discutia na rede social se o melhor não era estabelecer de vez uma ditadura no Brasil. Pensavam que, com isso, talvez boa parte da mediocridade reinante neste pedaço de terra concebido por Deus e bonito por natureza, fosse dissipada. Como pacifista que sou, prudente e anti beligerante, postei um comentário que foi bombardeado por um ou outro. Não usei meu direito da réplica. Acho que a discussão morreu por ali mesmo. Talvez até a meninada tenha esquecido o incidente, achando que não valia mais a pena perder tempo com estas preocupações tão filosóficas e tão desinteressantes.  Ainda mais que um “nada a ver” se deu ao direito de dar pitaco na postagem da galera. 
Certo é que ainda me surpreendo quando vejo jovens, nascidos numa sociedade democrática, querendo encontrar na falta de liberdade a resposta para seus anseios. Isso sim é coisa de louco. É a revolução às avessas. A volta do que não foi. A solução que não resolve. Amordaçar, amarrar a mediocridade para ganhar certa qualidade é desprezível. 
De certa forma o norte-americano John Kerry contribui para a discussão quando exalta a democracia de seu país que permite, inclusive, o direito das pessoas de serem estúpidas. A sociedade é uma colcha de retalhos (imagem inédita essa, hein?). Há espaço para os medíocres e para os maiorais. Há espaço para os cerebrais, para as assumidades e para todos os outros que vêm enfileirados logo abaixo. Há espaço para Bach, para Beethoven, para os mais populares e até para as bobagens como “Ahhh lekeke, lek, lek”. 
Tolerar é preciso. Conviver é preciso. Gostar, curtir e compartilhar não! 

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