24/04/13

O dito e o entendido


A comunicação eficaz é aquela isenta de ruídos. Onde a mensagem enviada pelo emissor é recebida sem distorções pelo receptor. Onde quem fala consegue transmitir uma ideia limpa, sem fantasmas, sem segundas possibilidades de interpretação. Pau é pau e pedra é pedra e ponto final. 
Evidentemente que nem sempre é assim. 
Dia desses atravessando a praça central da cidade, passei por um bando de garotinhas. Possivelmente tivessem entre doze e treze anos.  Duas ou três ostentavam um visual gótico, bem ao estilo anos 90. Cabelos em desalinho, longos na frente- cobrindo os rostos finos e alvos-, curtos atrás, alguns adereços metálicos postos nos lábios e no nariz (piercings), roupas negras. Na parte superior camisas largas, excessivamente folgadas em corpos magérrimos, minúsculos shorts deixando à mostra pernas magras e longas, cobertas por meias pretas. Tênis também pretos, tipo botinha, completavam o escuro visual.
Na frente uma delas se destacava. Com passadas largas, camisa aberta ao vento criando um efeito cinematográfico (como uma capa de Batman), caminhava e falava ao mesmo tempo. Atrás, o grupelho se deslocava com menos altivez. Pareciam preocupadas em atualizar algo nos celulares. O bando seguia a destemida líder. Talvez respondendo a um gracejo pelo tamanho da microbermuda, sem olhar para trás, bradou em som perfeitamente audível para pelo menos uma quadra inteira ouvir: “pelo menos eu posso usar uma roupa como esta”. No grupo descolado e juvenil uma das meninas, a menos magra, que aderia ao mesmo estilo de vestir, sem, no entanto, apresentar a mesma silhueta esguia das outras, abaixou a cabeça. Sentiu o golpe. Talvez para não mostrar fraqueza continuou na marcha, atrás da magrela falante.
Não é certo afirmar peremptoriamente que a magérrima garota estivesse menosprezando uma das suas seguidoras. Talvez não tenha tido a intenção. Talvez até goste da menina que, desavisadamente, tentava seguir a modinha que não a privilegiava. Porém, para meu gosto quase cinquentenário, não restava dúvida de que o recado era bem direto. Não havia fantasmas na sua comunicação. Não havia ruídos. As palavras não deixavam dúvidas: “eu posso, você não”. 
Talvez os fantasmas persigam a garotinha fora de forma. Talvez não. Pode ser que esteja acostumada a ouvir das suas parceiras brincadeirinhas que destacam as diferenças físicas entre elas. Talvez exista um código particular entre elas, uma linguagem só delas, onde nada disso é desrespeitoso, é ofensivo. Vai que entendam que as palavras ditas assim, apressadamente, espalham-se no vento e não mais firam.     
Ou posso ter distorcido o sentido de uma brincadeirinha angelical entre meninas que se vestem de preto e desbravam o mundo de peito aberto como se “batmans” fossem.       

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