03/12/14

Bermudas coloridas

As cores vibrantes dos anos 80 estão de volta. Vermelho, azul, verde e amarelo estão em bermudas, calçados e na camisetas. É um revival new wave nas roupas. As vitrinas estão mais coloridas, não obstante as diferenças marcantes entre os tempos da esperança, dos sonhos e estes de hoje. Deixando as filosofias e as apreciações de boteco de lado, vamos ao que importa.
Dia desses ousei entrar em uma loja. Me chamou a atenção uma bermuda de uma cor um tanto quanto exótica: algo como um vermelho levado ao rosa ou ao abóbora. Enfim, a cor pouco interessa. A atendente, educada e atenciosa (como deve ser uma atendente) mostrou o produto desejado. Deu o preço à vista e o final, em caso de crediário. Confesso que olhando o produto de perto meio que houve um desencanto.
Porém desencanto maior veio a seguir quando a mocinha, do alto de seu conhecimento de moda, resolveu adotar o papel de consultora de imagem dizendo: “esta bermuda deve ser usada com camiseta de cor neutra (um branco ou no máximo um cinza claro e um calçado branco)”. Foi demais para minha saúde (que vai bem, obrigado). Com tantas imposições e tantas informações jogadas assim no meu peito, sem prévia preparação, preferi abandonar o local e me refugiar na lancheria ali perto, onde consumi uma água mineral gelada. Sem pressa e sem imposições.
Ora, que mania esta de vendedores se lançarem a consultores. E se o cliente fosse torcedor da Lusa e optasse por usar uma bermuda vermelha combinando com uma bela camiseta verde? E se fosse da Mangueira e tivesse naquele momento a extrema vontade de comprar uma bermuda rosa para combinar com sua camiseta verde e seu tênis também verde (ou rosa)? Afinal: me leva que eu vou, sonho meu, atrás da verde rosa só não vai quem já morreu!
Mas, no comércio não é muito incomum fatos como esses.
Lembro que, certa vez, isto em tempos idos e que não retornam jamais,entrei numa destas lojas que pretendem atender preferencialmente a uma clientela de jovens e de senhores bem sucedidos. Como tinha tempo, o que é um tanto incomum, me arrastei entre as coloridas araras do estabelecimento. Uma moça seguia atrás. Mostrou no início certa paciência. Olhei daqui, olhei dali. Perguntei preços ene vezes. Analisei o que pude, imitando aquelas mulheres que experimentam milhares de roupas e depois dão tchauzinho. Eis que, depois de algum tempo, vi que sua carinha, que me recepcionou com um sorriso na entrada, já não estava assim tão tranquila e solícita. Talvez tenha notado que à sua volta os outros vendedores afofavam vendendo muita coisa para os jovens e senhores bem sucedidos, enquanto ela ali se encontrava prostrada diante de um comprador indeciso e claudicante.
Eis que, de súbito, vi uma camisa que me chamou a atenção. Perguntei o preço e ela, vingativamente, me olhou nos olhos e disse com um sorrisinho denotando certo tom de sarcasmo: - esta é muito mais cara! E pronto. Nosso diálogo terminou ali num seco ponto de exclamação. Tivesse usados três pontinhos e daria ainda margem para a sequência da conversa. A secura pôs fim ao papo sem que ela ao menos lançasse algum tábua de salvação. Sem que eu ao menos tivesse a humildade de dizer que “sim, não faz mal que seja mais caro, eu quero e pronto”.
Cheguei à conclusão que os olhos da vendedora estavam treinados para atender jovens e senhores bem sucedidos. Talvez minha bermuda surrada, minha camiseta sem uma marca assim tão fashion e minha indecisão me afastaram do perfil preferencial do estabelecimento comercial. Vai saber. Sabe-se lá que tipo de treinamento estas meninas recebem.

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