18/12/14

Elvis Presley

Ele era o mais velho da turma. Tinha dois ou três anos a mais. E isso para nós era muito tempo. Mas era tão infantil, tão virgem e tão atrapalhado quanto podiam ser os meninos de treze anos naqueles tempos. Tudo ainda era sonho. A realidade é que nossa turminha sonhava. Queríamos aventuras. Amorosas de preferência. Aventuras é que menos aconteciam. Elas eram idealizadas e vividas nos mínimos detalhes dentro dos quartos, das salas e nas garagens, enquanto pais, mães e irmãos ali não estavam. Longe dos olhos dos outros, liberávamos nossos sonhos narrando em voz alta o que faríamos nesta e naquela situação.
As meninas faziam parte da turma e de nossos sonhos. Aos sábados, então, que eram longos, tínhamos tempo suficiente para ouvir uma música, tomar um café preto, comer um resto de pão, conversar, caminhar pela cidade a esmo.
Encontrar as meninas da turma era muito bom. Elas iam se juntando aos poucos. Em dado momento ficavam na frente da casa de uma delas, brincando, sorrindo e aguardando o resto da turma. E chegávamos arrastando nossas asas, como franguinhos esperançosos. E sorríamos. E contávamos piadas. E nos mostrávamos o quanto podíamos, tentando conquistar alguma atenção. Mendigando, talvez, um carinho. E nas janelas, de olhos atentos, irmãos mais velhos e pais vigiavam suas virgens.
No final de tarde, início da noite, quando as meninas se recolhiam, tudo ficava mais triste, mais sombrio. Um dos nossos, o Coiote, parecia ser tomado pelo desespero quando o sol dava lugar à lua. Se confinava no quarto e ligava uma vitrolinha. Invariavelmente, as lágrimas escorriam pelo seu rosto molhando sua barba vermelha e mal aparada. Falava o nome dela e chorava.
A turminha era grande. Porém, por uma questão de praticidade e de identificação, formavam-se subturmas. No meu caso, durante muito tempo transitava com o Vermelho e o Coiote. Nos dias de folga da escola nos juntávamos e desfilávamos pra lá e pra cá. E trocávamos confidências e fazíamos planos de mútuo auxílio. E saíamos juntos tentando de alguma forma colocar em prática os nossos devaneios.
E o Coiote era quem mais devaneava. Era dramático. Sonhava com os olhos abertos. Repetia diálogos inteiros que teria com sua pretensa amada. Ela era desajeitada. Mas não para o Coiote. Ela era a mulher ideal, a mãe de seus futuros filhos. E ele sofria sempre que pensava nela. No íntimo sabia que seria rejeitado. Coiote queria ser Elvis Presley. Ela queria ser Priscila Presley. Mas queria outro Elvis ao seu lado. Ela desejava o Vermelho. E ele dançava bem. Magro, cabelo liso e sardento, vestia uma jaqueta de napa imitando couro. Tinha botinhas estilo cowboy. E tinha um disco do Elvis.
Alguns dias antes de uma reunião dançante, Coiote preparou um repertório enorme de diálogos que teria com sua Priscila. Treinou em casa todos os rebolados do Rei do Rock. Vermelho foi seu professor. Não tinha como dar errado. Na noite da festa humildemente a convidaria para uma dança. Elvis seria o fundo musical. Primeiro Blues Suede Shoes. Depois quando estivesse encantada com seu gingado, Love me Tender. E aí seria amor para sempre.
Eis que chegou a noite esperada. Priscila Presley havia escolhido a melhor roupa. Nem parecia aquela menina feia e desajeitada. Uma tiara rosa na cabeça e os cabelos bem alinhados revelavam que ela também tinha investido algum tempo na preparação para a festa. Coiote, por sua vez, estava nervoso. Seu cabelo rebelde não aceitava o topete que ele tanto queria impor. Quando secava ganhava ondulações. E isto era um verdadeiros pecado. Seu orçamento apertado não permitia que comprasse brilhantina, gel ou qualquer destes produtos que deixam a cabeleira armada.
Por outro lado, havia comprado uma enormidade de Plets de Hortelã. Reconhecidamente tinha mau hálito e não queria que este pequeno detalhe atrapalhasse sua conquista. E ficou prá lá e prá cá. Indeciso, olhava pra ela. Porém, em momento algum teve coragem de convidá-la para dançar. E veio Elvis e ele paralisou. E seu olhar ficou travado. Repentinamente destravou e quando pensou em avançar, Priscila correu em direção ao Vermelho, que estava muito perto, e o pegou pela mão. E os dois saíram pela pequena garagem dançando Tutti Frutti. E depois ainda dançaram Sylvia. E Coiote ali aguentando aquela humilhação. Seu rosto estava vermelho. Suava. Não acreditava.
No fundo mantinha alguma esperança. No final poderia ainda reverter o jogo. E Priscila, que tanto desejava, acabaria a noite dançando com ele do jeito que havia planejado. No entanto, quando o Rei cantou Love me Tender e a cabeça dela repousou sobre o ombro de Vermelho e ali permaneceu como se estivesse descansando, os olhos de Coiote foram inundados. E ele não podia mais ficar ali. E saiu correndo, segurando o choro. E no lado de fora, longe dos olhos dos outros, sentou numa pedra e ficou olhando para a lua. E sua dor era tanta que ao vê-lo assim meu coração parecia querer saltar do peito. Nenhuma palavra saiu de minha boca. Apenas pude dar um leve abraço antes de abandoná-lo, com a certeza de que dentro de alguns dias estará bem novamente. E voltará a fazer outros planos elegendo outras Priscilas para seus devaneios.
Lá dentro a festa continuava animada. Dividido entre um amigo que sofria e o outro que dançava balançando seu topete vermelho, nada mais podia fazer além de ouvir a música que não parava.
Esperava o fim da festa quando ajudaria a recolher a vitrola, a luz vermelha e os discos de Elvis

Um comentário:

  1. Seja qual for a geração, sonhar nessa idade é sempre marcante. Muito boa crônica!

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