22/12/15

O Cavalo do Padeiro

Tenho por costume publicar sempre crônicas inéditas neste espaço. Dia desses, porém, acessei a página de estatística de meu blog. Uma crônica publicada há cinco anos havia sido lida por alguém. Confesso que nem lembrava muito bem do texto. Entrei no blog e o li. É certo que em cinco anos muita coisa muda. Na velocidade que tudo acontece nos dias de hoje, as coisas se transformam dia após dia. Mas, mesmo tendo lido tantas coisas, passado por tantas experiências, mudado conceitos, assino embaixo do que escrevi naquele tempo. O texto é o seguinte:
“Não faz muito tempo, em algumas cidades havia o costume da entrega do pão de cada dia ser feita por uma carroça. O dito veículo, tracionado por um cavalo, transitava pelas ruas e parava de armazém em armazém, de venda em venda, de bolicho em bolicho. Na frente do estabelecimento o entregador deixava uma cesta de vime contendo os pães que seriam vendidos pelo comerciante durante o dia. O trabalho era estafante.
A entrega ocorria antes de o sol nascer. Assim, o entregador e o cavalo se mexiam cedinho. Como ninguém é de ferro, no fim da jornada ambos encontravam-se cansados. Nas últimas entregas, enquanto o animal troteava, o entregador cochilava. Quando a carroça parava, o entregador pulava para deixar a carga de pães. O cavalo, por sua vez, aproveitava estes breves minutos para dar uma cochilada. Dizem que, ainda dormindo, iniciava uma nova marcha. 
Por vezes somos como o cavalo do padeiro. Acostumados com o trecho percorrido no dia a dia, anestesiados pelo tédio, pelo automatismo, seguimos agindo no instinto. Talvez seja isto que estamos fazendo com o meio que nos cerca. Mas, nem sempre foi assim, Lá no início, quando ainda tínhamos certo temor, um respeito reverencial para com as forças da natureza, quando o trecho ainda era desconhecido, mantínhamos os olhos bem abertos, temerosos de algum tropeço. Tão logo decoramos o trajeto, dominamos os mistérios, vencemos os temores, nos sentimos liberados para abusar da sorte. 
Os recursos naturais até agora pareciam inesgotáveis. Durante séculos assim pensamos. Seguimos a trilha sem dar ouvidos aos alertas de que a Terra não terá condições de resistir à degradação causada pelos nossos impulsos de exploradores. Submetida à nossa vontade, ela já mostra sinais de cansaço. 
No início eram só os lunáticos, os seres incompreendidos que lançavam alertas sobre esta questão. Pareciam bobos pregando desastres, catástrofes e coisas deste estilo. A luta entre o lucro momentâneo e a preservação foi intensa. No início, entendia-se que a preservação era dispensável, que a natureza tinha capacidade de regeneração inesgotável, que os alertas eram precipitados e que havia muito tempo pela frente até o desastre. Hoje, porém, até o mais ferrenho capitalista sabe que a exploração dos recursos naturais deve ser racional e que deve ser acompanhada de um programa de compensações. 
Entre nós, consumidores finais ainda impera o descuido. Um saco plástico a mais no ambiente é pouca coisa. Um papel de bala, uma embalagem qualquer jogada ao vento vai, naturalmente, encontrar o seu lugar. Que nada! Somos responsáveis pelo que consumimos e pelo que descartamos Nem a anestesia do dia a dia, nem a falta de estímulo, nem o desconhecimento das leis naturais justificam as atitudes impensadas em relação ao meio ambiente.  Cuidar do meio em que vivemos não é só pensar em árvores, rios, recursos naturais. É também pensar nos seres humanos, no destino de nossas crianças e adolescentes. É pensar na saúde dos velhos e dos jovens, no bem-estar de todos os homens e mulheres, mesmo daqueles que seguem cansados por estas estradas como o extinto cavalo do padeiro”.

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