08/03/16

DNA

Contam que carregamos no DNA a série de experiências vividas num passado muito distante. Contam mais: que estivemos nas cavernas onde nos abrigamos do vento cortante e do frio implacável. E nas noites mais longas, aquelas em que a negritude tomava conta de tudo colocando uma venda nos nossos olhos, um de nós tomava nas calejadas mãos uma flauta e assoprando com jeito ia desfazendo o pretume, afastando as feras que por porventura estivessem por perto de tocaia. No centro, uma fogueira ardia e espalhava luz e calor.
Quando o sol aparecia e impunha a luz sobre a escuridão, todos saíam da caverna e seguiam na busca de alimentos. Era preciso manter os corpos vivos e fortes. A água era cristalina. E o ar era puro. E a luta era grande. Carente de defesa, restavam músculos, pedras e paus para lutar contra os predadores. E a luta era árdua. A vitória era incerta. A morte era uma constante. Dia morria a fera, dia morria um de nós.
O dia passava como tudo passa. O sol se punha e a tribo se escondia novamente. Era a hora em que os homens ficavam menores e as feras cresciam. Sobrevinha mais uma noite. E no abrigo da caverna, enquanto o fogo ardia, um tambor concebido a partir de um couro de um animal abatido, que contrariado doara sua carne para manter o grupo em pé, fazia companhia à flauta. A chama da fogueira parecia uma bailarina. Graciosamente, mas com decisão, seguia o ritmo da primitiva canção. E os corações somavam-se ao tambor e a flauta, doce e profunda, parecia querer levar os espíritos para cima. E os levava.  E adormeciam nas alturas, longe do cansaço e das dores das lutas.
E assim, contam que começamos uma grande caminhada. E as cavernas ficaram no passado. E o medo das feras tampouco resistiu até aqui. E as chamas das fogueiras nem dançam mais ao som do tambor e da flauta. E os espíritos nem sobem tanto. Ficam por aqui grudados na terra.
E as feras? Contam que elas não sumiram assim num passe de mágica. Consta que um dia entraram na caverna. E sem serem percebidas, se hospedaram dentro do homem. E ganharam nome de medo, de arrogância e de prepotência. E, pelo que dizem, vão sorrateiramente agindo. Vez por outra aparecem na forma de dores no corpo, de cansaço da mente, de falta de energia, de falta de coragem, de confiança e de fé.
Mas, podem, segundo indicam alguns especialistas, se manifestarem na forma de uma linguagem violenta, em grunhidos e rugidos bem definidos. Ou, ainda, nos comentários raivosos em público ou dissimulados numa rede social qualquer.

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