11/09/2013

O mal que entra na boca do homem

Doce é bom. Bom é pouco, é muito bom. Ambrosia é o preferido pelos deuses. Seu sabor inigualável, associado ao néctar, confere às divindades nada mais do que a imortalidade.  E isso não é pouca coisa.
Rapadura e pé-de-moleque são imbatíveis entre a gurizada. Nos aniversários de crianças nada bate o brigadeiro, por aqui chamado singelamente de negrinho. Tantos outros sabores poderiam ser lembrados como os simplórios sagu e a torta de bolacha, que aparecem tanto na mesa trivial ou naquela que guarda certo requinte; a abóbora, desde que apresente uma casca durinha porque molenga ninguém atura; as musses de toda a ordem (de chocolate, de limão ou de maracujá). Tudo muito bom.

03/09/2013

As provas

Não sei ao certo quem foi. No entanto, a inovação apresentada pelo professor naquela prova mudou drasticamente a forma como deveríamos estudar. Até então, a cobrança se baseava somente na decoreba. Ou seja, tínhamos que decorar frases inteiras para responder corretamente às questões que se apresentavam naqueles momentos fatídicos que se transformavam o dia da sabatina. 
O sistema da  múltipla escolha, onde o professor, após o enunciado, enumerava cinco possibilidades de resposta, era um achado e tanto. Era uma ajuda para aqueles moleques extremamente atarefados com suas atividades futebolísticas e que não dispunham de muito tempo para os estudos.

29/08/2013

Mensagem oculta

Você senta confortavelmente diante do computador. Busca uma ideia para desenvolver um texto. Em busca de inspiração, abre os sites de notícias. As manchetes, no entanto, parecem ser as mesmas de ontem e de anteontem: frio e neve na Serra, tempo que melhora, sol que volta, dias sem chuvas, dólar que dispara, time desfalcado etc e tal. Sem aviso prévio, o copinho de café, fumegante, cai no seu colo. Suas calças ficam quentes. O chão em sua frente fica melequento. “É um sinal”, talvez seja a reação mais natural. Sinal do quê?

20/08/2013

A teoria e a prática

A teoria na prática é diferente, dizem alguns. Porém, sabemos que teoria e prática são coisas distintas, bem delineadas. O conhecimento prévio, acadêmico, é a teoria. A prática é a ação livre, embasada em uma teoria ou não. Sem medo de ser redundante (e sendo) poderíamos dizer que teoria é teoria e prática é prática. O ideal é que a teoria sirva de inspiração para a vida prática. 
Na vida cotidiana, no entanto, isto é o que menos acontece. 
É verdade que devemos falar com a mais completa honestidade sobre as coisas. Li em uma boa obra que ao falar devemos transmitir mensagens efetivas. Ou seja, ao dizer bom-dia a alguém devemos flexionar nossa voz impulsionada pelo sentimento que vem de nosso íntimo ser. Assim, a nossa saudação impulsionará energias de tal forma que a pessoa sinta que realmente queremos que ela e nós tenhamos um dia venturoso. 
Intuitivamente, no entanto, antes mesmo de contar com este conhecimento teórico, já exercitava por estas instâncias a busca pela efetividade da mensagem. Houve um dia em que entrava num prédio e, talvez impulsionado pelo sol brilhante que me acompanhava desde a minha casa, me dirigi a uma pessoa conhecida de longa data. “Olá, bom dia! Como tem passado? Tudo bem?”.

14/08/2013

A alma do cronista

O que o cronista faz senão falar de si mesmo? Às vezes até fala dos problemas da sua cidade, do seu time (que perde quando não devia e que vence quando não se espera), do trânsito, dos costumes, da política, da filosofia e do tempo, que passa e não volta mais. Porém, mesmo que busque certo distanciamento do seu umbigo, logo ali na frente ele se trai. São seus olhos, seus sentimentos, sua inspiração, sua experiência sobre as questões que vão delimitando os temas. O cronista, por mais voltas que dê, sem perceber, está sempre mostrando a sua cara. Não há como negar: escondida entre tantas palavras, a alma do cronista vai se revelando em seus textos. O que para muitos é uma coisa natural, para outros tantos é um pesadelo, quase um parto normal sem anestesia.
A exposição é um empecilho.  Quem escreve fala de si, de seu mundo. Mostra o que sua vista enxerga. E, como todos no universo são partículas individuais, corre-se o risco de que não haja reciprocidade do lado de lá. O leitor pode desconhecer o que leu. Pode ignorar o esforço do escritor. E isso, de certa forma, pode espantar um pouco.

07/08/2013

A fala

A retórica era de suma importância
para gregos e romanos 
A manifestação mais singular do gênero humano é a fala. Não se conhece outro ser que articule as palavras livremente como o homem. Alguns animais, como os papagaios, por exemplo, podem até articular sons. Porém, há um longo adestramento para que a ave possa repetir uma ou duas palavras. Não importa a situação, o louro vai dizer sempre a mesma coisa. Se for treinado pelo seu dono para dizer “viva o Grêmio”, ele seguirá dizendo a mesma coisa eternamente, na vitória ou na derrota. Mesmo que o torcedor tricolor morra e a família inteira torça pelo colorado.
Já entre os humanos a coisa muda de figura. Começamos com a simples e prosaica mama, depois, sem muita pressa, vamos acrescentando papa, mana e assim por diante. Quando nos damos por conta já estamos falando otorrinolaringologista, sem pestanejar.  Isto ocorre porque as experiências do dia a dia, as leituras da madrugada, o amplo acesso às informações, as dores, os sofrimentos, as alegrias, as vitórias e os fracassos vão engrossando o caldo e ampliando cada vez mais o repertório de cada um. Com o tempo o humano passa do simples ao complexo.

30/07/2013

Um mistério chamado saudade

A palavra saudade é um mistério. Ela existe somente na Língua Portuguesa. Esconde, em seu bojo, uma carga de sentimentos enorme. É muito mais que uma simples lembrança, que um simples desejo de estar com alguém ou naquele lugar ou naquele tempo. É muito mais do que isso. É tudo isso junto, acrescido de certa melancolia, de certa tristeza. 
A própria origem do termo é carregada de controvérsias. Não se tem certeza de quais caminhos o vocábulo foi tomando ao longo dos tempos até chegar aos nossos dias. Alguns dizem que foi o sofrimento dos navegadores lusitanos que, nas suas incursões pelos mares por meses a fio, levavam em seus corações o peso da ausência de suas amadas, de seus filhos, de seu pedacinho de chão. 
A solidão do mar, a vontade e a impossibilidade de retornar com a rapidez desejada teria desenvolvido nos navegantes e nos seus próximos a tristeza do afastamento. O termo latino solitate (solidão, isolamento) teria se corrompido na boca e nos corações destes sofridos marinheiros, que lutavam bravamente para vencer mares rebeldes, sem a garantia de que voltariam para o calor do seu lar. 
Aboletados em suas embarcações, com seus corpos cansados, sujos, mal alimentados, enfrentando rajadas violentas de ventos, tempestades inesperadas, doenças desconhecidas e mortes anunciadas, estes homens rudes encontravam em algum momento do dia ou da noite um tempinho para o recolhimento. Com o coração palpitando, mergulhavam para dentro de si na busca das suas melhores lembranças. Vibravam quando seus olhos enxergavam a embarcação atracando no porto e seus corpos sendo, enfim, acolhidos pelo calor do abraço dos seus. 
Que sentimento extraordinário devia acompanhar estes homens de fibra. A certeza da partida, a crueza das intempéries, a incerteza do retorno. O longo tempo da separação, a falta de notícia, a ausência dos rostos dos amados. A água insistente salgada, o sol queimando a pele, o barulho extenuante das ondas, a teimosia da maré a jogá-los de lá para cá e de cá para lá. 
Quem ficava em terra firme sofria de igual forma.  A saudade era um ponto comum entre os que partiram e os que os viram partir. Era o que restava. Era a dor contida, rompida somente com a alegria do retorno.

Outras coisas sobre a saudade:

21/07/2013

O reencontro, 25 anos depois

Reencontro de formandos de 1987
Foi começando vagarosamente. A Luciane postou uma foto da formatura. A Estela e a Cláudia curtiram. Alguém mais compartilhou.A professora Dione também deu um pitaco. A Cláudia achou que uma festa seria legal. Nasceu a ideia de juntar os formandos num encontro comemorativo. Seria uma chance ímpar. Um churrasco comunitário, onde cada um levaria alguma coisa, chegou a ser pensado. Cada participante levaria sua bebida. A ideia não prosperou por este lado.Teria que ser algo mais simples, ainda. A Estela criou um grupo no Facebook. Juntando ideias daqui e ideias dali, nasceu o encontro comemorativo aos 25 anos de formatura da turma de Letras da FACOS/1987.
Chegamos cedo. Eu e a Marta, minha esposa e colega de formatura. Depois a Jacqueline e sua mãe, a Anita. Aos poucos a turma foi chegando. A Luciane veio de São Paulo. Outros vieram de Porto Alegre, de Capão da Canoa, de Tramandaí, de Santo Antônio. Todos foram recebidos com entusiasmo. Alguns levaram álbuns de fotos que passavam de mão em mão, atestando a história dos filhos crescidos e dos netos queridos. Beijos, abraços, sorrisos. A Madalena não resistiu. Entrou no salão chorando. Chorava pelas duas décadas e tanto de distanciamento. "Vocês continuam iguaizinhos", exagerou alguém lá no canto. "Estas meninas mentem", brinquei com o Paulinho e o Tuta, casados com a Liliane e com a Madalena, desde aquele tempo.
Quando vimos, o salão reservado pelo Claudinho do Restaurante do Dodô, estava repleto. Quem não cola não sai da escola, lembrou alguém,inconfidentemente listando os maiores coladores da turma. Do meu lado, Liliane, Madalena e a Marta tagaleravam sobre as atividades de aula. Destacavam as incursões pelo mundo da pesquisa linguística, pelas escapadelas para um interminável lanche no Papi que rendeu uma represália de uma professora irada. "Tenho uma resposta pra estes engraçadinhos que ficam no bar até tarde e atrapalham a estrutura de minha aula. Exame pra eles!", deve ter pensado. E assim fez.  
O frio lá fora era grande. Entre os antigos colegas, o clima era quente. "Onde anda o Cléber?", "e a Magda?". "Lembra aquela vez que escurecemos a aula, acendemos velas e recitamos poemas num trabalho de Literatura?", perguntava com certa ansiedade a Liliane. "Credo fizemos isso?", disse espantado com tanta criatividade. A Madalena confirmava. Mais uma vez minha memória havia me deixou na mão. Porém, minha imaginação não. "Deve ter sido lindo, isso, hein?", suspirei tentando resgatar do fundo da minha mente uma lembrança desta performance poética que protagonizamos. "E aquela vez que tínhamos que discorrer sobre O Gaúcho, do José de Alencar, e a impressão que passava era de que somente a Madá tinha lido a obra na íntegra?". Outra vez fiz esforço danado e nada. Lembravam, agora, que a aflição tomou conta da Madalena e ela mal conseguia falar. Eis que um outro tagarela assumia a palavra vez por outra e, folheando o livro, ia destacando uma ou outra passagem. Gol de placa, parabéns e coisa e tal. 
Alguém lembrou que aquele era o Dia do Amigo. Outro destacou que era o primeiro de uma série de encontros. E o tempo foi passando. Depois do almoço, a sobremesa. O cafezinho passado na hora, ali mesmo sobre o fogão que recebia lenha seca a toda a hora. O brinde à vida, os discursos leves como devem ser. Promessas de que algo tão bom tem que se repetir. Fotos na frente do estabelecimento para guardar na memória virtual. Beijos e abraços e um até breve.
Qualquer dia a gente vai se encontrar novamente. E nosso pensamento voará para tempos antigos. Aí lembraremos de histórias que se passaram diante de nossos olhos. Recordaremos tempos outros, distintos dos de hoje.  
Obs: Madalena, eu li sim O Gaúcho! 

Outras fotos da turma

Foto dos formando 1987
Liliane, Madalena, Marta e Solano Reis